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Christian Lohbauer

Doutor em Ciência Política e Membro do Gacint/IRI/USP

OpAA88

O cenário geopolítico incerto e a recorrente vulnerabilidade associada ao petróleo
A escalada recente de tensões no Oriente Médio, marcada pela intervenção de Estados Unidos e Israel em território iraniano, recoloca o mundo diante de um velho dilema: a vulnerabilidade estrutural das economias ao preço do petróleo. Em um cenário de conflito no Golfo Pérsico, rota estratégica para o escoamento global de energia, os mercados rapidamente precificam o risco geopolítico. O resultado é conhecido: disparada das cotações internacionais, com o barril ultrapassando a marca dos 100 dólares.
 
Esse movimento não apenas reflete a ameaça de interrupção na oferta, mas também incorpora a incerteza prolongada, elevando o custo da energia em escala global e pressionando cadeias produtivas inteiras, com efeito também no abastecimento de fertilizantes e no comércio de alimentos.

No Brasil, os efeitos desse choque são imediatos e sensíveis. A elevação do petróleo impacta diretamente os preços da gasolina e, sobretudo, do diesel — combustível essencial para o transporte de cargas e para a própria produção agrícola. Historicamente, governos brasileiros têm recorrido a mecanismos de contenção artificial de preços para mitigar os impactos inflacionários sobre a população. 

Essas medidas, embora politicamente compreensíveis se fossem utilizadas pontualmente e no curto prazo, criam distorções relevantes. Ao segurar preços internamente abaixo da paridade internacional, desestimulam importadores e comprimem margens de distribuição, o que pode resultar em riscos concretos de desabastecimento.

Esse risco se torna ainda mais evidente no caso do diesel. O Brasil depende de importações para cerca de 30% de seu consumo, o que significa que qualquer desalinhamento entre o preço interno e o mercado global pode inviabilizar economicamente a entrada do produto no País. Em um ambiente de preços elevados e oferta internacional pressionada, essa dependência externa expõe fragilidades estruturais. Caso o mercado não encontre incentivos adequados para importar, o País pode enfrentar gargalos logísticos, afetando desde o transporte rodoviário até a operação de máquinas agrícolas em períodos críticos de plantio e colheita.

É nesse contexto que o setor bioenergético brasileiro assume um papel estratégico de primeira ordem. A trajetória do etanol no País é singular no mundo. Desde o Proálcool, na década de 1970, o Brasil construiu uma base tecnológica, agrícola e industrial capaz de produzir biocombustíveis em larga escala, com elevada eficiência. Ao longo dos anos, o etanol deixou de ser apenas uma alternativa emergencial ao petróleo para se consolidar como componente central da matriz energética e da mobilidade brasileira, especialmente com a difusão dos veículos flex fuel.

Hoje, o etanol não é apenas uma solução ambientalmente mais limpa, mas também um instrumento de soberania energética. Em momentos de volatilidade internacional, como o atual, sua relevância se amplifica. Ao substituir parcialmente a gasolina, reduz a exposição do País às oscilações do petróleo e contribui para estabilizar preços internos. Além disso, sua produção está diretamente integrada ao agronegócio, gerando emprego, renda e desenvolvimento regional, especialmente no cinturão sucroenergético do Centro-Sul mas com novas fronteiras de produção abertas no Centro-Oeste com a extraordinária expansão da indústria de etanol de milho. 

Apesar dessas vantagens, o setor ainda enfrenta desafios significativos. A competitividade do etanol frente à gasolina depende de uma combinação delicada de preços relativos, políticas públicas e condições climáticas. Em anos de petróleo barato ou de intervenção governamental nos combustíveis fósseis, o biocombustível perde espaço. Soma-se a isso a necessidade de investimentos contínuos em tecnologia, como o etanol de segunda geração, e em infraestrutura logística, para ampliar sua eficiência e alcance.

Diante do cenário geopolítico incerto e da recorrente vulnerabilidade associada ao petróleo, o Brasil deveria adotar uma estratégia mais consistente de valorização dos biocombustíveis. Isso implica não apenas evitar distorções que prejudiquem sua competitividade, mas também criar um ambiente regulatório estável e previsível, capaz de atrair investimentos e estimular inovação. 

Programas como o RenovaBio são passos importantes, mas precisam de continuidade e aperfeiçoamento. Mais do que uma escolha econômica, trata-se de uma decisão estratégica. Ao fortalecer a indústria de etanol e outros biocombustíveis, o Brasil pode reduzir sua dependência de combustíveis fósseis importados, mitigar os impactos de crises internacionais e consolidar uma posição de liderança global em energia limpa, posição que já ocupa, mas que ainda não é percebida pela comunidade internacional.
 
Em um mundo cada vez mais sujeito a choques geopolíticos e pressões ambientais, essa vantagem comparativa pode se transformar em diferencial competitivo decisivo. Ao mesmo tempo, a própria natureza dos conflitos contemporâneos reforça a imprevisibilidade desse cenário: a resistência iraniana, apoiada no uso de drones de baixo custo e alta eficácia, tem imposto dificuldades operacionais às potências interventoras, frustrando expectativas de rápida mudança de regime. 

Os ataques localizados em instalações petroquímicas de vários países da região do Golfo têm gerado consequências nefastas à produção de gás e produtos petroquímicos essenciais para a produção de fertilizantes nitrogenados e fosfatados que o Brasil é altamente dependente. A dificuldade de passagem de embarcações pelo estreito de Ormuz também dificulta a entrada de alimentos exportados para os países da região e para o Irã em particular, grande consumidor do milho brasileiro.

Essa dinâmica evidencia como guerras modernas tendem a ser mais prolongadas, assimétricas e tecnologicamente difusas, reduzindo a capacidade de intervenção externa de produzir desfechos rápidos — como a eventual substituição do regime dos aiatolás por um governo mais alinhado ao Ocidente. Nesse ambiente de incerteza prolongada, a busca por autonomia energética deixa de ser apenas uma vantagem e passa a ser uma necessidade estratégica para países como o Brasil, que podem encontrar no fortalecimento do setor bioenergético um caminho para maior estabilidade, segurança e desenvolvimento sustentável.