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Alexandre de Sene Pinto

Professor do Centro Universitário Moura Lacerda e Occasio

AsAA26

Regenerar é só o começo
A agricultura regenerativa ganhou espaço porque nos lembra de algo essencial: não existe produção agrícola duradoura em um ambiente que perde solo, água, matéria orgânica e vida. Onde houve degradação, regenerar é necessário. Mas tenho cada vez mais a impressão de que, para a agricultura, regenerar é apenas o começo.
 
Uma lavoura nunca será um ambiente natural em perfeito equilíbrio. Agricultura é, por definição, uma intervenção: escolhemos algumas plantas, favorecemos seu desenvolvimento e esperamos colher muito mais delas do que a natureza produziria espontaneamente. Mesmo ambientes biologicamente ricos sofrem desequilíbrios. Frequentemente sou chamado para controlar pragas em áreas cultivadas sob manejo orgânico há décadas, porque determinada população atingiu níveis capazes de provocar prejuízos insustentáveis. Equilíbrio biológico não significa ausência de problemas.

Talvez, portanto, mais importante do que tentar reproduzir um suposto equilíbrio natural, seja aprender a manejar biologicamente o ambiente agrícola. Isso significa utilizar organismos para controlar pragas e doenças, melhorar a nutrição, estimular o desenvolvimento e aumentar a capacidade das plantas de enfrentar estresses. Assim, plantas e organismos benéficos podem realizar parte cada vez maior do trabalho que hoje fazemos com intervenções externas. Estamos avançando rapidamente nesse caminho. Conhecemos cada vez melhor fungos, bactérias, nematoides, insetos e ácaros e aprendemos a utilizá-los com maior eficiência. São os bioinsumos. Alguns controlam pragas e doenças; outros disponibilizam nutrientes, estimulam raízes ou favorecem mecanismos naturais de defesa. O momento agora é aprender a usá-los corretamente.

Isso é diferente de imaginar que podemos reconstruir um ambiente simplesmente acrescentando biodiversidade. No solo existem milhares de espécies, conhecemos apenas uma pequena parcela delas e sabemos menos ainda sobre as relações entre elas e as plantas.

Um solo ter poucos microrganismos capazes de fixar nitrogênio, por exemplo, não significa que simplesmente aumentar sua quantidade garantirá maior fixação. Ter mais organismos não significa, necessariamente, ter mais função.

O caminho que me parece mais promissor é conhecer bem organismos específicos, entender o que conseguem fazer e utilizá-los onde e quando determinada função é necessária. Podemos favorecer um organismo que já existe ou introduzir outro conhecido e estudado. Não tentamos reconstruir toda a natureza; interferimos pontualmente para restabelecer funções que não estão ocorrendo como desejamos.

Por isso, o manejo biológico vai muito além do controle de pragas ou doenças. Uma planta bem nutrida, com raízes vigorosas e mecanismos de defesa funcionando adequadamente, enfrenta melhor os desafios do ambiente. Ainda não conseguimos manter essa condição o tempo todo em uma lavoura e continuaremos precisando intervir. 

Na cana-de-açúcar isso é evidente. Podemos usar microrganismos para favorecer raízes e nutrição, outros no manejo de doenças, e ainda fungos, bactérias, nematoides e insetos benéficos contra pragas. Mas cada organismo tem seu momento, ambiente e função. Não basta ser biológico: precisa funcionar.

Nesse cenário, os defensivos químicos não precisam desaparecer, mas podem mudar de papel. Quanto melhor manejarmos biologicamente o sistema, menor poderá ser nossa dependência deles. O químico entra quando necessário, quando o manejo biológico não consegue conter sozinho determinado problema. Em vez de ser sempre a primeira resposta, torna-se uma ferramenta para quando precisamos vencer uma batalha.

É isso que torna o momento atual tão interessante. Não estamos apenas descobrindo novos bioinsumos. Estamos aprendendo como, quando, onde e para quê usar cada organismo. Esse conhecimento talvez seja mais importante para o futuro da agricultura do que simplesmente aumentar o número de espécies presentes em uma área.

Regenerar o que foi degradado continuará sendo fundamental. Mas, depois disso, precisamos manter o sistema funcionando. A agricultura do futuro provavelmente será mais biológica, mas nunca será uma agricultura sem intervenção. Será uma agricultura em que conheceremos melhor a vida ao nosso redor e a utilizaremos com objetivos cada vez mais precisos: interferindo menos quando possível, biologicamente sempre que conseguirmos e quimicamente quando necessário.