O mercado mundial de energia atravessa um raro momento de convergência. Três forças, normalmente independentes, caminham agora na mesma direção: a necessidade de descarbonização ganha metas concretas para esta década; novos marcos regulatórios avançam simultaneamente na aviação internacional e no transporte marítimo; e países importadores de energia voltam a priorizar a segurança energética em um cenário de crescente instabilidade geopolítica.
Não é comum que esses três vetores se alinhem ao mesmo tempo. Quando isso ocorre, surgem oportunidades capazes de redefinir mercados por décadas.
O etanol chega a esse momento em posição singular. Diferentemente de soluções que ainda dependem de novas tecnologias, da renovação de frotas ou de investimentos massivos em infraestrutura, trata-se de uma alternativa imediatamente disponível, capaz de reduzir emissões utilizando motores, postos de abastecimento e sistemas logísticos já existentes. É uma tecnologia madura, escalável, economicamente competitiva e amplamente comprovada.
Sua expansão depende muito menos de avanços tecnológicos do que da criação de ambientes regulatórios adequados. Poucos países reúnem vantagens comparáveis às do Brasil para aproveitar esse cenário. Além de ser o segundo maior produtor mundial de etanol, o País dispõe de uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, elevada disponibilidade de biomassa, tecnologia consolidada e mais de cinco décadas de experiência na implementação de políticas públicas para biocombustíveis. Essa combinação confere ao Brasil credibilidade técnica, escala produtiva e condições únicas para exercer um papel de liderança na expansão global do etanol.
As projeções da Agência Internacional de Energia – IEA, confirmam a dimensão dessa oportunidade. Segundo a instituição, o consumo global de combustíveis sustentáveis deverá praticamente dobrar até 2030 e quadruplicar até 2035, considerando apenas as políticas já anunciadas. Nesse cenário, projeções conservadoras apontam para um mercado mundial de aproximadamente 240 bilhões de litros de etanol em 2035.
Mais importante do que o crescimento do mercado é compreender quais países estarão posicionados para capturá-lo. A própria IEA identifica os fatores decisivos: estratégias nacionais claras, metas obrigatórias acompanhadas de políticas públicas consistentes, critérios internacionalmente reconhecidos de sustentabilidade, metodologias robustas de contabilização de carbono e inovação voltada à redução contínua de custos.
Nesse contexto, a questão deixa de ser “se” o etanol crescerá e passa a ser “quem” ajudará a definir as regras que orientarão essa expansão. Essa talvez seja a principal disputa em curso. As negociações conduzidas pela Organização Marítima Internacional (IMO), pela Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO), pela União Europeia e por diversas autoridades regulatórias nacionais definirão critérios de intensidade de carbono, rastreabilidade, certificação e elegibilidade que moldarão os mercados das próximas décadas. Os próximos vinte e quatro meses concentram decisões particularmente relevantes em todos esses fóruns. Cada uma delas poderá ampliar ou restringir mercados para o etanol brasileiro.
Para o Brasil, essa é uma oportunidade estratégica que vai muito além da ampliação das exportações. Se o País não participar ativamente desse processo regulatório, outros atores definirão padrões técnicos, metodologias e critérios de sustentabilidade que orientarão os mercados internacionais sem incorporar plenamente a experiência acumulada pelo Brasil ao longo de mais de cinquenta anos de liderança em bioenergia.
Do lado da demanda, o cenário é igualmente promissor. Diversos países combinam elevada dependência de combustíveis fósseis importados, metas de redução de emissões, programas de mistura obrigatória em expansão e crescente preocupação com segurança energética. Em muitos deles, o etanol representa uma das poucas soluções capazes de produzir resultados imediatos sem exigir transformações profundas na infraestrutura existente.
Embora exista potencial de expansão em praticamente todos os continentes, a Ásia desponta, neste momento, como a região com maior perspectiva de crescimento no curto e médio prazo. Países como Japão, Vietnã, Filipinas, Coreia do Sul e Indonésia, dentre outros, revisam atualmente suas políticas de mistura obrigatória de etanol, abrindo espaço para uma nova etapa de expansão do mercado internacional.
A Índia talvez seja o exemplo mais emblemático dessa transformação. Em pouco mais de uma década, o país elevou sua mistura obrigatória de etanol de cerca de 2% para aproximadamente 20%, reduzindo significativamente sua dependência de combustíveis importados, fortalecendo a renda agrícola, diminuindo emissões e aumentando a flexibilidade de seu setor sucroenergético. Essa experiência demonstra como políticas públicas consistentes podem transformar rapidamente a escala de um mercado e oferece importantes referências para diversos outros países que hoje estudam programas semelhantes.
Entretanto, a mistura de etanol à gasolina representa apenas uma das frentes de expansão. O etanol brasileiro também desponta como uma das principais matérias-primas para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF), especialmente pela rota Alcohol-to-Jet (ATJ), além de surgir como alternativa promissora para a descarbonização do transporte marítimo, por meio do chamado biobunker.
Esses mercados apresentam elevado potencial de crescimento, mas dependerão diretamente das regras internacionais relativas à intensidade de carbono, sustentabilidade e rastreabilidade da biomassa. Por essa razão, a produção de evidências técnicas robustas, especialmente análises de ciclo de vida, metodologias de contabilização de carbono e avaliações científicas independentes, torna-se elemento central da estratégia brasileira. Mais do que produzir conhecimento, será necessário submetê-lo tempestivamente aos processos regulatórios internacionais, onde essas decisões efetivamente serão tomadas.
É essa lógica que orienta a atuação internacional do setor sucroenergético brasileiro para os próximos anos: presença ativa nos principais fóruns multilaterais; articulação direta com governos e autoridades regulatórias de mercados estratégicos; produção de evidências técnicas capazes de sustentar as posições brasileiras; e demonstração prática, por meio de missões técnicas e visitas de alto nível, da sustentabilidade, rastreabilidade e eficiência da cadeia produtiva nacional.
O objetivo vai além da ampliação das exportações de etanol, embora essa seja uma consequência natural e desejável. Trata-se de consolidar o Brasil como protagonista na construção da governança internacional dos combustíveis de baixo carbono, contribuindo para que os futuros padrões globais reflitam critérios científicos, neutralidade tecnológica e o reconhecimento de soluções que já demonstraram resultados em escala.
A oportunidade existe, mas seu horizonte é limitado. As decisões tomadas nos próximos anos definirão os parâmetros que orientarão os mercados internacionais por décadas. Mais do que acompanhar esse processo, o Brasil precisa ajudar a construí-lo.