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Jorge Fernando Fávaro Gomes

Diretor Agrícola da Adecoagro

AsAA26

Reciclagem nutricional e rotação de culturas
O setor sucroenergético tem grandes oportunidades na aplicação das técnicas de agricultura regenerativa. A alta produção de biomassa pela cana-de-açúcar resulta num volume de palhada e sistema radicular que cria condições para aumento da matéria orgânica no solo e captura de carbono da atmosfera. O controle da compactação, a melhoria da infiltração e redução das enxurradas formam um componente de extrema importância
 
para uma agricultura sustentável e produtiva. Deve ser considerado também o uso de insumos biológicos para redução dos defensivos agrícolas, desde os já consagrados fungos entomopatogênicos, parasitas e parasitoides de pragas, passando por microrganismos fitoprotetores, indutores de resistência e fixadores de nitrogênio, entre outros.
 
A reciclagem dos nutrientes exportados com os colmos, presentes em coprodutos como vinhaça, cinza de caldeira e torta de filtro, é uma grande oportunidade na agricultura regenerativa na canavicultura. A cana de açúcar exporta com os colmos em torno de 0,9 kg de N, 0,15 kg de P (0,34 kg de P?O?) e 1,1 kg de K (1,33 kg de K?O) por tonelada produzida.

A vinhaça é o destino de aproximadamente 90% do potássio, 15% do fósforo e dois terços do nitrogênio que vêm com a cana. O bom uso da vinhaça, considerando uma aplicação com qualidade e dosagem equivalentes ao uso do fertilizante mineral convencional, pode economizar quase 2.000 toneladas de cloreto de potássio, 280 toneladas de superfosfato simples e 1.300 toneladas de ureia por milhão de toneladas moídas.

A torta de filtro fica com quase 80% do fósforo e 20% do nitrogênio da cana moída, e, considerando o mesmo critério, temos o equivalente a 1.500 toneladas de superfosfato simples e 400 toneladas de ureia. Por fim, a cinza contém próximo de 8% do fósforo e potássio que vêm com a cana, contribuindo com 150 toneladas de superfosfato simples e 170 toneladas de cloreto de potássio.

Toda essa quantidade de nutrientes pode ser reciclada através da aplicação de vinhaça localizada enriquecida e do composto feito com a torta de filtro e a cinza. O bom uso desses recursos proporciona a economia nos custos dos insumos, impacto positivo no uso de recursos naturais e na balança comercial do País. Ainda conta com um provável aumento da produtividade das áreas tratadas, pelos benefícios da matéria orgânica e dos demais nutrientes que vão junto desses coprodutos.

Outro aspecto a ser considerado é o aproveitamento dos nutrientes já existentes no solo e na redução das suas perdas por erosão, percolação e fixação. O uso de culturas em rotação apresenta uma oportunidade para recuperar nutrientes que percolaram abaixo da profundidade do sistema radicular, acessar frações de nutrientes com baixa disponibilidade, em especial do fósforo, e fixar biologicamente nutrientes, no caso de leguminosas.

O controle da erosão que essas culturas proporcionam também deve ser destacado, uma vez que o preparo dessas áreas ocorre predominantemente em períodos de alta intensidade de chuvas, provocando retrabalho e perdas de solo e nutrientes. 

A prática da rotação de culturas, mesmo que considerando apenas uma vez durante todo o ciclo da cana, também é uma alternativa que quebra o ciclo das pragas e doenças. Para o sphenophorus levis, associado à destruição da soqueira, tem na rotação de culturas uma das armas mais eficientes para seu combate. 

Há também a oportunidade do uso de culturas comerciais, em especial a soja e o amendoim, que ampliam os benefícios, com a fixação biológica de nitrogênio, o auxílio na desinfestação das áreas com pragas e plantas daninhas e deixando no solo os resíduos da cultura e dos fertilizantes aplicados.

A cultura da cana-de-açúcar tem muito a contribuir para a agricultura regenerativa, tanto pelas tecnologias já consolidadas, quanto por seu histórico de produção em áreas exploradas há mais de cem anos. A reciclagem de nutrientes por meio dos coprodutos e a rotação de culturas durante a reforma dos canaviais ajudam a conciliar produtividade, eficiência no uso de insumos e conservação dos recursos naturais. O grande desafio está na execução com excelência dessas práticas e na busca contínua por inovação, fortalecendo a resiliência e a sustentabilidade do sistema produtivo.