A produção de milho no Brasil vem passando, nas últimas décadas, por mudanças profundas — tanto na forma como é produzida quanto nos territórios onde se expande. Ao mesmo tempo, ocorre uma mudança funcional: o grão ganha relevância crítica na matriz energética, estabelecendo um elo indissociável entre a produção agrícola e as biorrefinarias nacionais.
Um dos sinais mais claros dessa transformação está na mudança do calendário produtivo. O milho de primeira safra vem perdendo espaço de forma gradual. O ponto de virada ocorreu na safra 2011/12, em que, segundo a Conab, o milho safrinha atingiu 39,1 milhões de toneladas, ultrapassando os 33,8 milhões de toneladas da safra de verão — uma inversão que alterou definitivamente a dinâmica de abastecimento e logística do País.
Atualmente, o milho safrinha não é complemento; ele é protagonista, com projeção para cerca de 108 milhões de toneladas (78% do volume nacional). Desde então, o milho de verão ficou mais concentrado em regiões específicas — especialmente no Sul — ou direcionado a usos como silagem.
Mais do que expandir área, o sistema soja-milho aumentou a eficiência produtiva. Estados como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul lideram esse movimento, reunindo escala, tecnologia e forte inserção no mercado externo.
Estima-se que estes quatro estados na safra 2025/26 produzam o equivalente a 56% do volume total da produção de grãos de milho do Brasil. Destaque para Mato Grosso com produção estimada de 53 milhões de toneladas de grãos, correspondendo sozinho a 38% do volume total de 138 milhões de toneladas. Enquanto isso, o Sul mantém produção relativamente estável e as regiões Norte e Nordeste começam a ganhar espaço, com destaque para o Matopiba (um "estado" brasileiro formado pelo Mato Grosso, Tocantins, Piauí e Bahia), que se firma como nova fronteira agrícola.
Essa reorganização da produção abriu caminho para uma mudança igualmente relevante no setor industrial: a expansão das biorrefinarias de milho. Em poucos anos, o cereal passou a ter peso crescente na produção de etanol. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética – EPE, a participação do milho nesse mercado, que era de cerca de 2% em 2018, deve se aproximar de 37% em 2025.
Hoje, o Brasil conta com 33 usinas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis – ANP, além de outras 13 em construção, operando tanto no modelo dedicado ao milho (full) quanto em sistemas integrados com a cana-de-açúcar (flex).
No último relatório de acompanhamento de safra realizado pela Conab para cana-de-açúcar e setor bioenergético, realizado emnovembro de 2025, há expectativa para a produção próxima de 10,1 bilhões de litros de etanol de milho — sendo 6,8 bilhões de hidratado e 3,3 bilhões de anidro. Para isso, será necessário processar cerca de 22,95 milhões de toneladas de milho, o que representa algo em torno de 16,6% da safra nacional estimada. Com rendimentos industriais entre 380 e 440 litros por tonelada de grão, o País já opera em patamares comparáveis aos sistemas mais eficientes do mundo.
Além do etanol, as biorrefinarias ampliam significativamente o valor agregado do milho ao gerar coprodutos relevantes, como DDG (Dry Distiller Grain, Grãos Secos de Destilaria) e óleo de milho. Esses insumos têm papel importante em cadeias como nutrição animal, biodiesel e combustíveis sustentáveis de aviação, reforçando a conexão entre agricultura, energia e indústria.
A localização dessas plantas acompanha, em grande medida, a própria geografia da produção. O Centro-Oeste, especialmente Mato Grosso, concentra a maior parte das unidades, beneficiado pela proximidade da matéria-prima. Ainda assim, começa a surgir um movimento de expansão para outras regiões, incluindo o Matopiba e parte do Sul do País, como Paraná e Santa Catarina.
Essa interiorização das biorrefinarias tende a estimular a produção local de grãos. A redução dos custos logísticos e a maior previsibilidade de demanda criam um ambiente favorável à intensificação produtiva. No Matopiba busca mitigar déficits regionais de combustíveis e viabilizar a exportação de subprodutos via portos do Arco Norte. No Sul, está mais associado à demanda da cadeia de proteína animal, reduzindo custos relacionados a nutrição através da oferta local de DDG/DDGS e diminuindo a logística de insumos vindo de outras regiões.
Mas essa expansão não ocorre sem desafios. Em regiões como o Matopiba, a produção enfrenta maior irregularidade de chuvas e, muitas vezes, solos mais frágeis. Nessas condições, depender de uma única cultura aumenta o risco. Por isso, a diversificação dos sistemas produtivos passa a ser uma estratégia importante para dar estabilidade ao fornecimento de matéria-prima.
Há ainda um ponto mais estrutural: a crescente dependência do milho para abastecer as biorrefinarias aumenta a exposição do sistema à variabilidade climática. Como boa parte da produção vem da segunda safra, que depende das chuvas no final do ciclo, em anos com clima desfavorável podem comprometer a produtividade e afetar diretamente o abastecimento industrial. Além disso, a concentração da produção em poucas regiões amplia o impacto de eventuais quebras de safra.
A expansão para novas fronteiras, como o Matopiba, embora estratégica, ocorre em ambientes de maior incerteza. Isso reforça a importância de medidas de mitigação, como diversificação de culturas, uso de matérias-primas complementares e ajustes no manejo.
É nesse ponto que o sorgo granífero ganha relevância. Por ser mais tolerante ao estresse hídrico e se adaptar melhor a solos mais frágeis, o sorgo se apresenta como uma alternativa viável em ambientes onde o milho enfrenta maiores limitações. Dada a similaridade na composição, o sorgo oferece uma linha de suprimento complementar sem a necessidade de alterações significativas nas plantas industriais.
Olhando à frente, as projeções seguem positivas. O Plano Decenal de Energia (PDE 2035) indica uma produção total de cerca de 50 bilhões de litros de etanol no Brasil, com o milho respondendo por aproximadamente 16,3 bilhões de litros. Esse crescimento deve vir, principalmente, de ganhos de produtividade, expansão da segunda safra e recuperação de áreas de pastagens degradadas — um modelo que permite crescer sem pressionar novas áreas. Estima-se que a conversão de cerca de 6,7 milhões de hectares seja suficiente para atender a essa demanda.
No fim das contas, o que se observa é uma mudança de escala e de função do milho no Brasil. A produção se desloca, se intensifica e se conecta cada vez mais com a indústria. O grão deixa de ser apenas um componente da cadeia alimentar e passa a ocupar posição estratégica em um sistema mais amplo, que envolve energia, proteína animal e insumos industriais. Ao consolidar o modelo de biorrefinarias, o Brasil não apenas exporta grãos, mas exporta sustentabilidade e tecnologia embarcada. É esse sistema robusto, resiliente e integrado que coloca o nosso País em posição de destaque na nova economia bio-
energética global.