A geopolítica voltou a determinar o ritmo da transição energética, e isso muda profundamente o papel das bioenergias. Por muitos anos, acreditou-se que a transição energética seria conduzida quase exclusivamente por critérios ambientais: metas climáticas e acordos internacionais pareciam suficientes para orientar investimentos e políticas públicas.
Os últimos cinco anos mostraram que essa leitura era incompleta. A pandemia revelou a fragilidade das cadeias globais de suprimentos. A guerra entre Rússia e Ucrânia expôs a dependência energética da Europa. As tensões entre Estados Unidos e China deixaram claro que minerais críticos, tecnologia e energia se tornaram ativos estratégicos, não apenas insumos de mercado. Mais recentemente, os conflitos no Oriente Médio voltaram a colocar o petróleo e a segurança do abastecimento no centro das decisões políticas.
Nesse cenário, a transição energética deixou de ser apenas uma agenda ambiental para se tornar também uma agenda de segurança nacional, competitividade econômica e soberania. É nesse contexto que as bioenergias recuperam protagonismo.
Uma pergunta simples resume o desafio que a política energética global ainda não respondeu bem: como reduzir a dependência de combustíveis fósseis sem uma alternativa renovável que já exista em escala hoje, e não em um horizonte de décadas?
O que o Brasil já construiu
O Brasil tem uma resposta concreta para essa pergunta, construída ao longo de meio século de investimento em biocombustíveis. O País é hoje o segundo maior produtor mundial de etanol e o terceiro maior de biodiesel, com infraestrutura instalada e arcabouço regulatório consolidado em leis como o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro — raramente discutido como ativo de segurança energética, mas é exatamente isso que representa diante de choques de oferta originados em zonas de conflito.
Os biocombustíveis evitam, hoje, a emissão de quase 100 milhões de toneladas de CO? equivalente por ano no Brasil, com tendência de crescimento à medida que avançam os mandatos de etanol e biodiesel e a adoção de combustível sustentável de aviação.
Saúde pública: um argumento além do clima
Há também uma dimensão de saúde pública que costuma receber menos atenção do que merece. A poluição do ar figura entre as principais causas de morte prematura no mundo, associada a doenças respiratórias e cardiovasculares. Biocombustíveis emitem menos monóxido de carbono, material particulado e enxofre do que seus equivalentes fósseis, um efeito direto sobre o ar que se respira nas cidades brasileiras hoje, não apenas sobre metas climáticas de longo prazo.
Os números por trás da liderança
Estudo conduzido pelo Observatório de Bioeconomia da FGV Agro, viabilizado pelo Instituto Equilíbrio e pela Agni, com apoio institucional da Abag e da SRB, estima que a expansão dos biocombustíveis pode adicionar R$ 403,2 bilhões ao PIB brasileiro frente ao patamar de 2024, um incremento de 3,4%, com 225,5 mil novas ocupações até 2030, concentradas na agropecuária e na agroindústria.
Já vemos isso no Centro-Oeste, onde plantas de etanol de milho absorveram um excedente de produção sem destino claro, e começa a se repetir em outras regiões, sinal de que a expansão também favorece a interiorização do desenvolvimento e a inclusão de pequenos e médios produtores em cadeias de valor sustentáveis.
Cada real investido em biocombustíveis tem potencial de gerar R$ 62 em retorno direto, entre os índices mais eficientes do País em custo por tonelada de carbono evitada. Há ainda um efeito menos comentado: os coprodutos da produção, como farelo e DDG, ampliam a oferta de proteína animal e ajudam a conter pressões inflacionárias sobre o custo de vida da população.
Uma indústria que já pesa na matriz energética
A bioenergia ligada ao agronegócio já responde por 29% de toda a oferta interna de energia do Brasil, e a biomassa de cana-de-açúcar sozinha representa 17% da matriz energética nacional. Esse peso explica por que o País, mesmo tendo importado mais de um quarto do diesel que consumiu em 2022, reagiu de forma diferente aos choques recentes no mercado de petróleo: cada bilhão de litros de etanol produzidos substituem cerca de 700 milhões de litros de gasolina, amortecendo choques externos tanto para o consumidor quanto para as contas públicas.
Um artigo da revista britânica The Economist, de março de 2026, comparou os preços desde o início da guerra: a gasolina brasileira subiu 10% e o diesel, 20%, ante 30% e 40% nos Estados Unidos, mesmo com a Petrobras absorvendo parte dos custos adicionais — diferença atribuída à competitividade da indústria brasileira, que já desperta interesse de Índia e Japão por sua expertise técnica.
Comida e energia na mesma área
Vale desfazer um argumento recorrente contra os biocombustíveis, o de que expandir sua produção significa competir com a de alimentos. No caso brasileiro, essa lógica não se sustenta: o aproveitamento integral da planta permite que cana gere açúcar, eletricidade e etanol; milho gere etanol e DDG para ração animal; e soja gere biodiesel e farelo. Ao menos três quartos do potencial de expansão até 2035 devem vir de ganho de produtividade, segunda safra, uso de resíduos e recuperação de áreas degradadas — o chamado efeito poupa-terra —, não de novas fronteiras agrícolas. A FGV Agro estima que essa trajetória pode evitar 480 mil hectares de desmatamento no Cerrado e na Amazônia. Produção de energia e de alimento, no Brasil, caminham na mesma área.
Os desafios continuam relevantes
Liderança potencial, porém, não garante liderança efetiva. Previsibilidade regulatória continua fundamental para atrair investimento de longo prazo, inclusive para diversificar a base de matérias-primas, como macaúba ou sorgo, e para viabilizar contratos de compra de longo prazo em mercados como o de combustível sustentável de aviação. Infraestrutura logística, certificações internacionais, rastreabilidade e harmonização regulatória serão cada vez mais determinantes para acessar mercados premium: o mundo exigirá cada vez menos narrativas e cada vez mais evidências mensuráveis de sustentabilidade.
O papel da diplomacia do agro
A geopolítica também amplia a importância das relações institucionais. As disputas comerciais deixam de se limitar a tarifas e passam a envolver padrões ambientais, certificações e critérios de carbono. Nesse ambiente, governo, empresas, academia e entidades setoriais precisam atuar de forma coordenada: a competitividade das bioenergias brasileiras dependerá tanto da excelência produtiva quanto da capacidade de construir confiança internacional.
É por isso que o Brasil segue apostando em acordos multilaterais como instrumento de estabilidade, mesmo num mundo que caminha, com força crescente, para o bilateralismo e as disputas de blocos. Um país capaz de aliar energia renovável em escala a histórico de cooperação internacional tem algo raro a oferecer: previsibilidade.
Uma janela histórica
Talvez o maior aprendizado dos últimos anos seja que segurança alimentar, energética e climática deixaram de ser agendas independentes e passaram a formar um único sistema. E poucos países estão tão bem-posicionados quanto o Brasil para responder às três simultaneamente.
A bioenergia deixa de ser apenas uma alternativa energética para se tornar um ativo geopolítico. A oportunidade é real, mas exigirá visão estratégica, estabilidade institucional e capacidade de diálogo entre todos os atores envolvidos. O futuro da bioenergia brasileira dependerá menos da quantidade de biomassa disponível — que o País já possui — e muito mais da qualidade das decisões que tomarmos nos próximos anos.
IMPACTOS ECONÔMICOS E CLIMÁTICOS DOS BIOCOMBUSTÍVEIS