O cenário geopolítico global atravessa um dos períodos de maior incerteza das últimas décadas, o que torna o ambiente do agronegócio cada vez mais desafiador e competitivo; é o que costumamos chamar de período dos “3Vs”: as Variáveis, Variando Violentamente”.
A sobreposição de tensões comerciais, guerras no Leste Europeu e no Oriente Médio e a crescente frequência de eventos climáticos extremos transformaram a matriz de risco do agronegócio e do setor de energia.
Em meio a esse ambiente de elevada volatilidade, a bioenergia brasileira — representada pelo etanol (de cana e de milho), pelo biodiesel, pelo biogás/biometano e pelas novas rotas de combustíveis sustentáveis — deixa de ser meramente uma alternativa ambiental e consolida-se como um vetor estratégico de segurança energética, previsibilidade econômica e soberania nacional.
Recentemente, as pressões sobre a pauta exportadora brasileira ganharam novos capítulos com o anúncio de tarifas adicionais de importação pelos Estados Unidos sobre diversos produtos nacionais, sob argumentos comerciais da “Seção 301”.
Embora parte expressiva da pauta do agronegócio mantenha isenções estratégicas decorrentes da própria dependência industrial norte-americana, a inclusão do etanol e as barreiras protecionistas acendem um alerta claro: o protecionismo e as disputas bilaterais reforçam a urgência de o Brasil não apenas diversificar seus parceiros comerciais, mas também acelerar o consumo interno e a agregação de valor às suas matérias-primas energéticas.
Paralelamente, a escalada das tensões no Oriente Médio, envolvendo atores geopolíticos centrais e o risco recorrente no Estreito de Ormuz, mantém o mercado internacional do petróleo sob forte instabilidade. As cotações oscilantes do barril repercutem diretamente nos preços do óleo diesel e no custo do frete rodoviário no Brasil, o que em alguns momentos até favorece a competitividade do nosso etanol, mas também eleva os custos para produtores e indústria.
A região é também crucial para o fornecimento de insumos, em especial dos fertilizantes, que chegam a representar até 40% do custo de produção das lavouras; associados ao diesel mais caro, encarecem a operação no campo e comprimem as margens do produtor.
Nesse contexto, o etanol e o biodiesel atuam como um hedge energético natural para o País: quanto maior a oferta doméstica de renováveis, menor é a vulnerabilidade da nossa economia aos choques externos do barril de petróleo.
No Leste Europeu, a manutenção do conflito entre Rússia e Ucrânia continua impondo desafios de longo prazo às cadeias globais de suprimento. O reordenamento do comércio de gás natural, do cloreto de potássio e de grãos alterou de forma permanente a estrutura de custos do agronegócio global.
Com custos de insumos sintéticos permanentemente mais elevados, ganham eficiência os sistemas de produção integrados e o aproveitamento de biomassa e resíduos orgânicos para a geração de biogás, biometano e biofertilizantes, criando uma economia circular dentro das próprias usinas e propriedades rurais.
A dimensão desses gargalos fica evidente ao analisarmos os números recentes do comércio exterior e das cadeias de insumos. A aplicação da tarifa adicional de 25% pelos Estados Unidos atinge diretamente cerca de 23,5% do volume total de etanol exportado pelo Brasil, mercado que absorveu mais de 65 mil m³ apenas nos primeiros cinco meses de 2026. Simultaneamente, no ambiente de choques geopolíticos no Oriente Médio — região que responde por mais de 40% das exportações globais de ureia e 35% do suprimento externo consumido no país —, as cotações do insumo superaram os US$ 437/t CFR Brasil.
Essa alta de custos operacionais ganha amplitude com o petróleo Brent negociado acima dos US$ 90 por barril, encarecendo o frete e a logística. Diante da vulnerabilidade de importar mais de 80% dos fertilizantes, a competitividade do setor exige a ampliação do processamento de bioenergia para amortecer o efeito da inflação de custos.
Para somar complexidade ao quadro geopolítico, os choques climáticos voltam a exercer forte pressão sobre a oferta agrícola com o alerta emitido pela NOAA para a formação de um Super El Niño. Com anomalias térmicas previstas no Oceano Pacífico entre 1,8ºC e 2,5ºC acima da média, o fenômeno ameaça repetir os piores cenários observados em episódios históricos (como 1982, 1997 e 2015), desregulando o regime pluviométrico no País. A combinação de secas severas e calor extremo no Centro-Norte e Leste com o excesso de chuvas no Sul afeta diretamente as janelas de plantio da soja e do milho — cujas perdas de produtividade em eventos passados chegaram a ultrapassar 50% —, além de prejudicar o TCH (toneladas de cana por hectare) e a taxa de ATR nos canaviais.
Essa quebra de safra impacta duplamente o setor bioenergético: além de comprimir a oferta de matéria-prima, acentua os custos industriais e a inflação de insumos, fragilizando financeiramente as usinas sucroenergéticas. A resiliência bioenergética exige investimentos urgentes em eficiência operacional e no fortalecimento da integração para amortecer os impactos climáticos.
Mesmo diante de fricções comerciais e desafios climáticos, as "novas fronteiras" do setor avançam em ritmo acelerado. Regulamentações impulsionadas pela Lei do Combustível do Futuro, a demanda por SAF (Sustainable Aviation Fuel) e a busca por soluções de descarbonização para o transporte marítimo global colocam os biocombustíveis no centro das atenções internacionais. O Brasil possui condições únicas para liderar a rota Alcohol-to-Jet (AtJ), transformando sua vantagem comparativa no campo em vantagem competitiva industrial.
Historicamente, o debate energético global oscilou entre a busca por menores custos e a urgência da sustentabilidade. Hoje, contudo, a geopolítica impôs um terceiro pilar inegociável: a segurança de suprimento. Países dependentes de importações fósseis ou de rotas logísticas vulneráveis enfrentam constantes ameaças de inflação energética e desabastecimento. Valorizar a matriz bioenergética brasileira não é uma pauta setorial, mas uma diretriz de estado; é assegurar a autonomia econômica e posicionar o Brasil como a grande potência global em soluções sustentáveis de energia e alimentos.