Em 1973, Jean Dorst, um pesquisador francês, lançou o livro chamado "Antes que a Natureza Morra", com dezenas de exemplos de autofagismo como: destruição de florestas nativas, extrativismo sem controle na mineração, na pesca predatória, na extração de madeira, poluição de rios, esgotamento de solos férteis por erosão etc., itens que o ser humano não demonstrava o mínimo cuidado. Falta de saneamento básico e lixões nos grandes centros, escassez de água potável, a fome, a poluição atmosférica causada pelas fábricas.
Assim foi despertada a consciência coletiva que fez a ONU entrar na parada. Para enquadrar os problemas que se repetiam em diversos países, criou-se o conceito de “Sustentabilidade”, que passou a ser utilizado em todas as áreas e atividades humanas.
À agricultura, em especial, têm sido exigidas práticas alternativas e sustentáveis de produção tais como: manter sempre protegida a superfície do solo; reduzir o revolvimento por gradagens, aração etc.; uso de corretivos de solo sem incorporação; plantio direto sobre palhada da cultura anterior; uso de plantas de cobertura com farta produção de biomassa e raízes; aproveitamento de resíduos animais, vegetais e industriais; uso de bioinsumos em geral; uso de substâncias húmicas estimuladoras de enraizamento, para formação de micorrizas. Todos esses itens fazem parte do cardápio da agricultura regenerativa.
No meio das centenas de espécies de microrganismos que habitam o solo, temos aqueles que são “do bem”, porque facilitam a absorção de água e nutrientes pelas plantas, além de estimular e proteger o sistema radicular. Por outro lado, no solo os fungos dos gêneros phytophora, pytium e fusarium (causadores de podridões das raízes) e os nematoides dos gêneros meloidógine e pratylenchus (sugadores de seiva) são prejudiciais às plantas.
Na implantação de agricultura regenerativa recomenda-se o uso intensivo de matéria orgânica, que é o componente mais precioso para um solo se tornar produtivo. A matéria orgânica, depois de decomposta, serve de combustível para as plantas e microrganismos, como os fungos arbusculares e as bactérias nitrificantes, que vivem em simbiose com as plantas na rizosfera. Eles fornecem nutrientes e recebem em troca exsudatos das raízes.
As hifas dos fungos, ao se expandirem, ajudam na estruturação do solo, mantendo-o poroso, grumoso e estruturado, ou seja, o ambiente ideal para o desenvolvimento radicular e armazenamento de água.
Na cana-de-açúcar, cultura de grandes extensões, a adoção da agricultura regenerativa está sendo testada e tem trazido algumas questões: Como deixar de revolver um solo compactado? Como incorporar o calcário para atingir maiores profundidades? Como combater as pragas de solo, como o sphenophorus e o migdolus, que vivem abaixo das raízes? Como suprir as raízes das plantas com substâncias orgânicas?
Alguns pilares da agricultura regenerativa estão sendo mesclados às práticas tradicionais, as quais aos poucos estão sendo aperfeiçoadas. Por exemplo: o corte de soqueiras, que mexe pouquíssimo com a estrutura do solo e pode injetar substâncias orgânicas liquidas em profundidade diretamente na linha da cana; a pulverização foliar de ácidos fulgicos, que tem cadeia carbônica curta, juntamente com os ácidos húmicos, que precisam passar por processo de redução de sua cadeia carbônica para penetrar pelos estômatos. São produtos que já se encontram no mercado, elaborados em laboratórios especializados de biotecnologia.
Para descompactar os solos, temos hoje os equipamentos que trazem um novo conceito para descompactação, sem mexer com a estrutura do solo e a cobertura de palha, e ainda fazem uma subsolagem que pode atingir 30 a 40 cm de profundidade.
Na agricultura regenerativa, recomenda-se não mexer com a terra e esperar por três a quatro anos até o solo se reequilibrar, só manejando as espécies de cobertura. Os mais entusiastas por esse sistema afirmam que, após esse período, os fungos, bactérias e nematoides entomopatogênicos, inimigos naturais de pragas e doenças, se ampliarão por si só e, assim, poderão contribuir para reduzir o uso de defensivos.
No mercado encontram-se vários bioinsumos com microrganismos benéficos vivos, isolados e rigorosamente produzidos com elevada pureza e qualidade. Afinal, se o objetivo é implantar novas práticas mais sustentáveis na produção de cana-de-açúcar e alimentos, as tecnologias citadas neste artigo podem ser testadas e incorporadas ao sistema produtivo. Reflita sobre tudo isso e veja se será possível.