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Tirso de Salles Meirelles

Presidente da Faesp - Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo

OpAA89

A nova fronteira do agro brasileiro
O agronegócio brasileiro sempre foi reconhecido por sua capacidade de produzir alimentos em larga escala, incorporar tecnologia e responder rapidamente às demandas dos mercados nacional e internacional. Agora, um novo ciclo de transformação começa a ganhar força e promete reposicionar o Brasil entre as maiores referências mundiais em inovação sustentável. Esse movimento atende pelo nome de bioeconomia, e seus principais protagonistas são os bioinsumos e as bioenergias, dois conceitos que caminham lado a lado e que representam uma mudança profunda na forma de produzir, preservar e gerar riqueza.
 
Durante décadas, a agricultura evoluiu por meio da mecanização, do melhoramento genético, da agricultura de precisão e da conectividade. Cada uma dessas revoluções elevou a produtividade e tornou o produtor rural mais eficiente. Entretanto, o século 21 apresenta um novo desafio: aumentar a produção de alimentos, fibras e energia sem ampliar a pressão sobre os recursos naturais. É justamente nesse cenário que os bioinsumos assumem um papel estratégico.
 
Muito além de substituir defensivos ou fertilizantes convencionais, eles representam uma nova filosofia de produção. São tecnologias desenvolvidas a partir de organismos vivos, microrganismos, extratos vegetais e processos biológicos capazes de promover o controle de pragas, melhorar a fertilidade do solo, estimular o desenvolvimento das plantas e aumentar a eficiência produtiva de forma ambientalmente responsável.

Os resultados já aparecem em diversas cadeias produtivas brasileiras. O uso crescente de inoculantes, biofertilizantes, biodefensivos e agentes biológicos demonstra que é possível reduzir custos, melhorar a saúde do solo, preservar a biodiversidade e aumentar a resiliência das lavouras diante das mudanças climáticas. 

Trata-se de uma transformação silenciosa, mas extremamente profunda, que coloca a ciência brasileira em posição de destaque no cenário mundial. Ao mesmo tempo, os bioinsumos dialogam diretamente com outro dos grandes pilares do futuro: as bioenergias. O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta justamente porque aprendeu, há décadas, a transformar biomassa em energia. Cana-de-açúcar, etanol, bioeletricidade, biogás, biometano, biomassa florestal, resíduos agroindustriais e novas rotas tecnológicas ampliam continuamente as possibilidades de geração energética sustentável.

A conexão entre bioinsumos e bioenergia é natural. Ambos utilizam os recursos biológicos como matéria-prima para produzir riqueza, reduzir emissões de carbono, estimular a economia circular e agregar valor às cadeias produtivas. O resíduo de uma atividade torna-se insumo para outra. A vinhaça transforma-se em fertilizante. Os dejetos da pecuária produzem biogás. A palha da cana gera eletricidade. Microrganismos aumentam a eficiência das culturas que, posteriormente, abastecem usinas produtoras de energia renovável. Forma-se, assim, um sistema produtivo muito mais inteligente e sustentável.

O mercado brasileiro de insumos de matriz biológica está em plena consolidação e aceleração. Atualmente, o setor movimenta entre R$ 5,5 bilhões e R$ 6 bilhões por ano. Esse montante já equivale a cerca de 10% de todo o mercado de proteção de cultivos do País. A taxa de crescimento anual média no Brasil tem ficado na casa dos 22%, o que representa um ritmo quatro vezes maior do que a média global de crescimento desse setor. Já a bioenergia consolidou-se como uma força gigantesca na matriz energética nacional, respondendo por quase 30% de toda a oferta total de energia do Brasil (segundo o Observatório de Bioeconomia da FGV). O mercado brasileiro de bioenergia tem projeção de movimentar entre US$ 8 bilhões e US$ 12 bilhões até 2030.

São Paulo ocupa posição privilegiada nessa transformação. Líder nacional na produção de cana-de-açúcar, etanol e açúcar, o estado reúne universidades, centros de pesquisa, empresas de tecnologia, cooperativas e produtores capazes de acelerar a consolidação dessa nova economia verde. Não por acaso, o Sistema Faesp/Senar decidiu investir em uma estrutura inédita de formação e inovação por meio da criação de seus Centros de Excelência.

Em Ribeirão Preto, está em fase de implantação o Centro de Excelência em Cana-de-Açúcar e Bioenergia, um empreendimento que nasce com vocação para ser referência nacional na formação profissional, na pesquisa aplicada e na difusão de tecnologias ligadas à cadeia sucroenergética. O objetivo vai muito além da qualificação de mão de obra. A proposta é criar um ambiente de integração entre universidades, setor produtivo, startups, pesquisadores e empresas, promovendo inovação contínua em um segmento responsável por grande parte da energia renovável produzida no País.

A cana-de-açúcar deixou há muito tempo de ser apenas matéria-prima para açúcar e etanol. Hoje, ela participa da produção de bioeletricidade, etanol de segunda geração, biometano, combustíveis sustentáveis para aviação, bioplásticos, bioquímicos e uma série de novos produtos de alto valor agregado. O Centro de Ribeirão Preto nasce exatamente para preparar profissionais capazes de atuar nesse novo ambiente tecnológico e impulsionar uma cadeia que continuará sendo estratégica para o desenvolvimento nacional.

Os novos biocombustíveis destinados à aviação e ao transporte marítimo representam uma das principais fronteiras da transição energética mundial. Combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e alternativas renováveis para navios (SMF), como o biometanol, o diesel verde (HVO) e outros combustíveis de baixa emissão, têm potencial para reduzir significativamente as emissões de gases de efeito estufa em setores onde a eletrificação ainda enfrenta grandes limitações técnicas. 
 
Para o Brasil, que possui uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo e ampla disponibilidade de biomassa proveniente da cana-de-açúcar, do milho, de resíduos agrícolas e de florestas plantadas, essa nova demanda abre oportunidades para ampliar investimentos, gerar empregos, agregar valor à produção agropecuária e consolidar o País como fornecedor estratégico de energia limpa para o mercado internacional. Trata-se de um avanço que alia competitividade econômica, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental, fortalecendo o protagonismo brasileiro na descarbonização do transporte global.
 
Complementando essa visão, São Roque abrigará outro projeto igualmente inovador: o Centro de Excelência voltado para Big Data, Inteligência Artificial, Turismo Rural e um ecossistema dedicado às startups de bioinsumos. Trata-se de um conceito moderno de inovação aberta, no qual empreendedores, pesquisadores, estudantes e produtores poderão desenvolver soluções capazes de acelerar a adoção de tecnologias biológicas no campo.

As startups representam um componente fundamental desse novo ciclo econômico. São elas que frequentemente transformam descobertas científicas em soluções práticas para o produtor rural. Muitas das tecnologias hoje utilizadas na agricultura nasceram em pequenas empresas inovadoras que encontraram ambiente favorável para crescer. Criar um espaço dedicado ao desenvolvimento desses negócios significa fortalecer a capacidade brasileira de gerar conhecimento, atrair investimentos e criar empregos altamente qualificados.
 
Mais do que produzir bioinsumos, o desafio passa a ser construir um ecossistema completo de inovação. Isso envolve pesquisa científica, empreendedorismo, financiamento, transferência de tecnologia, formação profissional e conexão permanente entre o conhecimento acadêmico e as necessidades reais do produtor rural. É exatamente esse ambiente que os Centros de Excelência pretendem fomentar.

O impacto dessa estratégia ultrapassa os limites da agropecuária. Bioinsumos e bioenergias dialogam diretamente com os compromissos internacionais de redução das emissões de gases de efeito estufa, conservação dos recursos naturais e promoção do desenvolvimento sustentável. Em um mundo que exige cadeias produtivas cada vez mais transparentes, rastreáveis e ambientalmente responsáveis, investir nessas áreas significa ampliar a competitividade do agronegócio brasileiro nos mercados mais exigentes.

Os números mais seguros sobre o a redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE) são 23,4 milhões de toneladas de CO? equivalente como potencial da expansão dos bioinsumos até 2030 e 705 milhões de toneladas de CO? potencialmente evitadas pelo conjunto de políticas do Combustível do Futuro até 2037. 

A concretização dessas projeções dependerá da adoção das tecnologias, da disponibilidade de crédito, da infraestrutura, da certificação das reduções e da expansão das unidades produtoras.

O produtor rural também será um dos principais beneficiados. Sistemas produtivos mais equilibrados reduzem custos, diminuem a dependência de insumos importados, aumentam a eficiência no uso dos recursos naturais e tornam as propriedades mais resilientes diante das oscilações climáticas e econômicas. Sustentabilidade deixa de ser apenas uma exigência regulatória para se transformar em vantagem competitiva.

A construção dos Centros de Excelência do Sistema Faesp/Senar simboliza exatamente essa visão de futuro. Eles não serão apenas espaços de ensino, mas ambientes vivos de inovação, pesquisa, empreendedorismo e desenvolvimento tecnológico. Lugares onde jovens, produtores, pesquisadores e empresas trabalharão juntos para desenhar a próxima geração do agronegócio brasileiro.

O Brasil reúne clima, biodiversidade, capacidade científica e um setor produtivo altamente profissionalizado. Poucos países possuem condições tão favoráveis para liderar a bioeconomia mundial. Transformar esse potencial em realidade depende da capacidade de investir em conhecimento, formar pessoas e incentivar a inovação.