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Ciro Mendes Sitta

Membro do Conselho de Administração do Sicoob Pro e Consultor da Canaplan

OpAA88

Crédito no setor canavieiro: exigente em um cenário desafiador
O produtor rural brasileiro vive, em 2026, um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos. A combinação de queda nos preços das commodities, pressão de custos, juros elevados e incertezas externas, como conflitos que impactam diretamente o preço e a disponibilidade de diesel e fertilizantes, somadas a um ambiente interno sensível, marcado por ano eleitoral, aumento da inadimplência no País e no agro.
 
No setor sucroenergético, não é diferente: margens mais apertadas e fluxo de caixa pressionado tornam o cenário mais desafiador. Ainda assim, o crédito segue exercendo papel fundamental no suporte à produção, embora em um ambiente mais seletivo e exigente.

É importante destacar que o sistema de crédito ao agro evoluiu de forma relevante nos últimos anos. Cooperativas e instituições financeiras estruturaram linhas mais aderentes às necessidades do setor, aumentando o leque de linhas que disponibilizam recursos para custeio e investimentos. No entanto, o cenário econômico atual trouxe novos desafios. O crédito segue disponível, mas, em muitos casos, sua competitividade tornou-se limitada frente à realidade econômica do produtor.

Observa-se uma forte expansão de fontes alternativas de financiamento. O estoque de títulos privados do agronegócio atingiu aproximadamente R$ 1,36 trilhão em fevereiro de 2026, conforme o Boletim de Finanças Privadas do Agro publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (março/2026), representando crescimento de 223% em relação a 2022. Esse avanço foi impulsionado principalmente por instrumentos como CPR, LCA e CRA.
 
No mesmo relatório, com base em dados da Comissão de Valores Mobiliários, B3 e Anbima, destaca-se também a evolução dos Fiagros, que somavam 220 fundos em janeiro de 2026 — crescimento de 122% em relação a 2024 — com patrimônio aproximado de R$ 48 bilhões.

Esse movimento evidencia a entrada do mercado de capitais no financiamento do agro. No entanto, surge um novo desafio: alinhar a expectativa de retorno desses instrumentos com a realidade econômica de quem está na produção. Em um ambiente de juros elevados, essa equação se torna mais apertada, reduzindo a competitividade do crédito. Em alguns casos, observa-se inclusive um desvio de foco, com estruturas mais voltadas a captar oportunidades em operações imobiliárias do que ao financiamento produtivo, principalmente em casos de crédito mais estressado.

Em paralelo, a necessidade de capital no setor canavieiro permanece elevada, especialmente para a renovação dos canaviais e para os tratos culturais das soqueiras. São investimentos intensivos, com retorno diluído ao longo do tempo e altamente dependentes de produtividade. Em um ambiente de margens comprimidas, a decisão de investir passa a ser mais criteriosa e, muitas vezes, postergada. 
 
O acompanhamento de safra realizado pela consultoria Canaplan mostra que a safra 2025/26 registrou aumento da idade média do canavial colhido nas usinas da região Centro/Sul, evidenciando uma redução no investimento em renovação dos canaviais. Outro fator relevante é a heterogeneidade do setor. Existem produtores exclusivamente dedicados à cana, enquanto outros operam modelos diversificados, integrando culturas como soja, milho, amendoim, além da pecuária. 
 
Essa diversidade pode gerar ganhos operacionais, mas também exige maior nível de governança e gestão financeira — aspecto que ainda representa um ponto de evolução para parte dos produtores. Essa heterogeneidade se reflete diretamente nos resultados. Dados da consultoria Canaplan, referentes à safra 2025/26, indicam diferenças de até 40% na produtividade média entre grupos de usinas dentro de uma mesma macrorregião, padrão que também pode ser observado entre fornecedores de cana-de-açúcar.

Essa dispersão impacta diretamente a capacidade de geração de caixa, estrutura de alavancagem e, consequentemente, o risco de crédito. No caso específico da cana-de-açúcar, há ainda uma particularidade relevante, principalmente no estado de São Paulo, onde grande parte da expansão de áreas ocorreu sobre o modelo de parceria e arrendamento. Diante do elevado custo da terra, muitos produtores optaram por não imobilizar capital em áreas próprias. Na prática, isso eleva o desembolso recorrente com arrendamento, pressionando o fluxo de caixa e aumentando a dependência de capital de terceiros. Esse fator amplia a sensibilidade do setor às condições de crédito.
 
Diante desse cenário complexo e heterogêneo, iniciativas que incentivem maior governança, gestão de riscos e organização financeira dos produtores são fundamentais para ampliar o acesso a crédito mais competitivo. Nesse contexto, cooperativas e associações desempenham papel estratégico. A proximidade com os produtores permite uma avaliação mais precisa do risco e a construção de soluções mais aderentes à realidade local. Um exemplo relevante é o Crédito Rural Verde, desenvolvido em parceria entre a Socicana (Associação dos Produtores de Cana de Guariba) e a Cooperativa de Crédito Sicoob Pro.
 
A iniciativa atende a produtores participantes de programas de governança e sustentabilidade, como o Top Cana (desenvolvido pela própria associação) e a certificação Bonsucro, financiando custeio e renovação de canaviais com taxas até 20% inferiores às linhas tradicionais. O lastro está em um fundo estruturado pela cooperativa de crédito na modalidade “RDC Verde”, com recursos dos próprios cooperados. O projeto foi reconhecido internacionalmente ao vencer o Bonsucro Inspire Awards 2024, na categoria Melhor Iniciativa da Cadeia de Valor, evidenciando seu potencial como modelo inovador de financiamento sustentável.

Medidas regulatórias também buscam ampliar a oferta de crédito mais acessível, como a Resolução CMN nº 5.216/2025, que estendeu às cooperativas de crédito a obrigatoriedade de direcionamento de parte dos depósitos à vista ao crédito rural com taxas subsidiadas no âmbito do Plano Safra. Ainda assim, o volume dessas linhas permanece limitado frente à demanda do setor.

Em síntese, o crédito segue sendo um pilar essencial para o setor canavieiro, cumprindo papel relevante no financiamento da produção e novos investimentos. O desafio atual está em sua competitividade frente a um ambiente de margens comprimidas e maior percepção de risco.

Do lado dos produtores, avançar em governança e gestão de risco é parte da solução. No entanto, a melhoria estrutural depende também de um ambiente macroeconômico mais favorável, que permita a redução consistente das taxas de juros em nosso País, um desafio complexo em ano eleitoral, mas também uma janela de oportunidade de mudanças. Até lá, o setor segue operando sob pressão, equilibrando decisões de curto prazo com a necessidade de preservar a sustentabilidade produtiva das próximas safras. Ao mesmo tempo, é justamente em cenários como este que surgem oportunidades relevantes: produtores mais eficientes e organizados tendem a ampliar competitividade, acessar melhores condições de crédito e capturar valor em um ambiente mais seletivo.