A recente decisão do governo federal de elevar a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32% – o E32 – é um passo firme na consolidação da transição energética brasileira. Amparada pelas diretrizes da Lei do Combustível do Futuro, a medida fortalece a segurança energética, reduz a necessidade de importação de combustíveis fósseis e retira milhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera.
Trata-se de uma vitória incontestável da engenharia nacional e dos produtores de alternativas energéticas sustentáveis. No entanto, o anúncio foi acompanhado pelo inevitável reaparecimento de um velho e conhecido fantasma: a "ladainha" de que o aumento do teor de etanol na gasolina corrói motores, destrói componentes de borracha e arruína a mecânica dos automóveis.
Esse ruído repetitivo não é uma novidade técnica, mas sim um fenômeno de desinformação persistente. Há décadas, a cada avanço no percentual do biocombustível — desde as misturas estabelecidas na década de 1970 com o Proálcool —, setores conservadores do meio automotivo e analistas de ocasião ressuscitam as mesmas teses catastróficas. Alega-se que o etanol resseca mangueiras, enferruja tanques de combustível e reduz dramaticamente a durabilidade do motor.
O problema é que tais argumentos nunca se sustentaram diante dos fatos científicos, das validações da engenharia automobilística e do histórico de uso do próprio combustível no Brasil. Entre outros fatores, o mito do "etanol vilão" ignora que a frota brasileira de veículos passou e continua passando por profundas transformações tecnológicas.
Desde a introdução dos veículos flex em 2003, motores e sistemas de alimentação vêm sendo projetados com materiais perfeitamente compatíveis com o biocombustível. Ligas metálicas anticorrosivas, elastômeros sintéticos de alta resistência e vedações de polímeros avançados tornaram obsoletos os problemas de oxidação observados em carros carburados dos anos 1980. Mais do que isso: o etanol anidro utilizado na mistura passa por rigorosos processos de controle de qualidade, apresentando teores insignificantes de água, o que anula a tese de corrosão interna em veículos modernos.
Além da perfeita compatibilidade dos materiais, o acréscimo de etanol traz benefícios diretos à dinâmica de combustão dos motores modernos. O etanol possui uma taxa de octanagem substancialmente superior à da gasolina pura. Quando misturado ao combustível fóssil, ele atua como um antidetonante natural e de altíssima eficiência. Isso permite que os sistemas eletrônicos de injeção e ignição otimizem o ponto de funcionamento do motor, prevenindo a pré-detonação – a famosa "batida de pino", melhorando o rendimento termodinâmico, sobretudo em motores turbinados e de injeção direta.
Para além das questões estritamente mecânicas, os testes laboratoriais e de rodagem que antecederam a implementação da gasolina E32 — assim como os ensaios conduzidos para as projeções do E35 — foram executados por institutos de pesquisa independentes de primeiro nível, com a participação ativa das próprias montadoras. O veredito técnico foi categórico: dentro das margens estabelecidas, o impacto na durabilidade dos componentes é nulo e a variação no consumo de combustível é imperceptível para o condutor no uso diário.
Se a ciência, a engenharia e os dados operacionais comprovam a eficiência e a segurança do etanol, por que o preconceito persiste na mente de parcela significativa dos motoristas e até de mecânicos? A resposta reside em uma falha histórica de comunicação de massa. Por anos, o setor produtivo de etanol focou seus esforços de comunicação na esfera Business-to-Business (B2B), no diálogo regulatório com o setor público (Business-to-Government) ou na comunicação restrita ao universo do agronegócio. Deixou-se um vácuo no diálogo direto, pedagógico e contínuo com o consumidor final — o motorista que está na ponta da bomba de combustível.
Excetuando-se um período de cinco anos, de 2009 a 2014, em que as principais associações de produtores de etanol do País se uniram a grandes empresas fornecedoras do setor sucroenergético, entre elas Basf, Syngenta, Bayer e FMC, o que se tem é a ausência de uma narrativa forte, acessível e dirigida ao consumidor. Durante aqueles anos, vigorou o Projeto Agora, desenvolvido sob a liderança da Unica.
Entre outras ações, o Agora realizou iniciativas educacionais atingindo anualmente mais de 120 mil estudantes em escolas públicas de nove estados, produziu materiais didáticos e explicativos para o público e organizou o Prêmio Top Etanol, para reconhecer boas matérias jornalísticas sobre o setor sucroenergético. O Top Etanol foi incluído na lista dos melhores prêmios disponíveis para jornalistas, criada pela bíblia da Comunicação, o “Jornalistas&Cia”, e o Projeto Agora conquistou o principal reconhecimento para projetos de Comunicação do País, o Prêmio Aberje, da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial. Foi a primeira vez em mais de 30 anos de existência da premiação em que um projeto criado por entidades e não por uma empresa foi agraciado.
Fora dessa fase, encerrada devido à crise que impactou severamente os produtores durante o governo Dilma, a ausência de um trabalho consistente, educativo e acessível permitiu que o conhecimento popular sobre mecânica continuasse alimentado por dogmas de oficinas desatualizadas, fóruns de internet e sensacionalismo de redes sociais.
O consumidor médio ainda confunde a perda de rendimento volumétrico, característica física do etanol hidratado devido ao seu menor poder calorífico, com "defeito" ou "prejuízo", e frequentemente atribui falhas decorrentes de combustível adulterado ou falta de manutenção preventiva à simples presença do etanol anidro na gasolina.
Com a persistência desses mitos recorrentes, é questão de tempo para que as diversas novas vertentes de bioenergias que vêm crescendo a olhos vistos no País também sofram os efeitos da informação tosca que continua circulando. O biodiesel já segue a mesma rotina do etanol, com críticas e questionamentos sobre qualidade e desempenho a cada avanço na mistura. O leque bioenergético é cada vez mais amplo, e não será surpreendente se surgirem dúvidas também sobre o biogás, SAFs, biobunkers, que poderão, na pior hipótese, atrasar a adesão e o crescimento dessas alternativas.
Diante disso, torna-se urgente que os produtores de bioenergia e suas entidades representativas assumam o protagonismo da conversa com o público. Não basta produzir o combustível mais limpo, renovável e competitivo do planeta; é preciso defender sua reputação no imaginário popular. A comunicação associativa precisa transcender as notas técnicas e os balanços institucionais para investir em ações e campanhas de conscientização massivas, dinâmicas, de fácil assimilação e, principalmente, permanentes.
É necessário explicar, em linguagem simples, por que o etanol limpa o motor em vez de sujá-lo; como a octanagem do biocombustível protege a mecânica moderna; e como a escala de uso do etanol protege o bolso do cidadão contra os choques de preço do petróleo no cenário geopolítico internacional.
O consumidor precisa entender que a adição de etanol à gasolina não é um "batismo" ou um empobrecimento do combustível, mas sim uma evolução tecnológica e ambiental que coloca o Brasil na vanguarda da transição energética global. A transição para a gasolina E32 oferece uma oportunidade exemplar para que o setor sucroenergético inaugure uma nova era na sua relação com a sociedade.
Romper com a passividade comunicacional é o único caminho para desarmar a engrenagem de mitos que se arrasta há quatro décadas. Quando o produtor de etanol conversa de forma transparente e direta com o motorista, ele não apenas protege o mercado do biocombustível, mas fortalece o orgulho nacional por uma tecnologia limpa, eficiente e indiscutivelmente vitoriosa.