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Bernardo Titoto

Gerente Agrícola da Usina Ipiranga

Op-AA-44

A gestão agrícola sobrevivente

As empresas saudáveis – as possuintes de uma capacidade de gerar lucros no cenário atual – podem ser chamadas de sobreviventes da crise. O governo brasileiro, o mercado mundial e o clima desfavorável dos últimos anos colocaram o setor sucroenergético à beira de um colapso, gerando consequências devastadoras. O setor público se mostra ausente, numa indiferença total que deixou o setor tateando no escuro. Além disso, o custo de produção cresce vertiginosamente.

É nesse momento que as garras devem ser mostradas. Há um ditado que diz que, “quando a maré está a favor, até peixe morto nada”. Não há verdade maior. Medidas devem ser tomadas e incorporadas para seguir em frente, sem esquecer o fundamental ou declinar a qualidade, ainda que as condições tomem rumos diferentes. O gerenciamento e a administração da usina se devem a um conjunto de fatores que caminham juntos para o sucesso, sempre objetivando o crescimento.

Primeiramente, o essencial para qualquer negócio, em minha opinião, são as pessoas. A relação dos donos de uma empresa familiar com todos os funcionários, fornecedores e parceiros, em uma base rotineira, é primordial. No dia a dia, na produção, nos acordos, etc. Tem que haver uma habilidade de dirigir as pessoas, e, ao mesmo tempo, ter uma relação presencial com elas. A equipe, em geral, oferece um resultado mais positivo, tendo a noção de sua importância no processo total. Ninguém deve ser considerado pequeno ou grande o bastante.

É bem verdade que na guerra a gente se fortalece, mas, além disso, a guerra é ganha no campo. As soluções não são encontradas apenas em relatórios, ou restrita a números, mas são as causas deles. A consolidação dos relacionamentos interpessoais é um dos maiores pilares da empresa. E essas relações se fazem na qualidade e não na quantidade, e essa é justamente uma das grandes vantagens de se trabalhar numa empresa familiar.

Num segundo momento, é quase óbvio afirmar a importância da produtividade do canavial. De maneira geral, um canavial com produtividade alta diminui os custos do CCT, dilui custos de tratos culturais, arrendamento, etc. No entanto, nem sempre produzir mais significa melhor resultado financeiro para a empresa. O investimento alto mal planejado pode diminuir a porcentagem de retorno. O segredo é realizar o básico com maestria, ou seja, fazer o “arroz e feijão” bem-feito, sem querer reinventar a roda. É a execução perfeita do trabalho de hoje, embasado na simplicidade e no baixo custo de produção.

No nosso caso, o baixo custo permite sermos competitivos. De acordo com a Esalq, estima-se que o custo agrícola da tonelada de cana da safra 2014/15, sem arrendamento, feche em torno de R$ 75,00. Já o do grupo Ipiranga gira em torno de R$ 57,00. Mais especificamente, o custo operacional dessa mesma safra, também estimado pela USP, foi avaliado em R$ 57,00 contra R$ 41,00 do nosso. O que tiramos disso é que tivemos bons resultados operacionais, mesmo com a produtividade de 73 t/ha (que foi bem abaixo da média, devido à seca do ano de 2014), e isso ilustra impecavelmente meu ponto.

Outro exemplo: no período de 2004 a 2010, com o boom da cana-de-açúcar, muitas empresas estrangeiras investiram no setor com um outro modelo de gestão, que não gerou os resultados esperados, pois intentavam administrar sem representatividade, o que gerou novos desafios não superados. Isso distanciou o relacionamento entre as pessoas da rede – funcionários, fornecedores e parceiros –, ocasionando alta rotatividade e diminuindo a qualidade do serviço.

Ademais, não se pode deixar de mencionar o planejamento. Em uma gestão próspera, o planejamento a médio e longo prazo é ponto imperativo. Deve-se haver o controle absoluto e o domínio da produção. Improvisação não é uma opção. Uma usina possui muitas e diferentes operações, com inúmeras variáveis. Para se ter uma ideia, os investimentos agrícolas (no que tange à aquisição de máquinas e equipamentos) são esquematizados com um ano de antecedência, gerando, assim, a melhor oportunidade de compra. Encaixa-se também, nessa categoria, o imprescindível plano de sucessão.

Numa empresa familiar, esse plano é a rede de segurança. A mecanização da colheita e do plantio foi um acontecimento inevitável no setor. Nossas unidades já estão, praticamente, com plantio e colheita cem por cento mecanizados. Porém não paramos por aí. Com a busca de redução de custos estendemos o procedimento da mecanização para todos os processos agrícolas, tal como o uso de quadriciclos em substituição da capina química (gatilho e costal).

Isso acarretou uma redução de até 50% no custo na operação, passando de em torno de R$ 210,00/hectare para R$ 100,00/hectare. A gestão embasada na simplicidade, sem o desprezo da técnica e obedecendo à voz da disciplina, nos permite caminhar firmes. Olhando para o futuro, a busca deve ser agregar valor ao negócio em busca da sobrevivência, amadurecendo sempre. Já dizia Leonardo da Vinci: "simplicidade é o último grau de sofisticação". Assino embaixo.