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Simone Martins Mendes e Priscilla Tavares Nascimento Maia

Pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo e Fitotecnista da EPAMIG - Empresa de Pesquisa Agropecuária de MG, respectivamente

OpAA88

Mesmo com tecnologias eficientes, o controle de insetos-praga ainda representa desafio
O agronegócio brasileiro é consolidado como referência em eficiência produtiva, alcançando safras recordes de milho destinadas ao suprimento do mercado interno, à produção de bioenergia e à exportação. Contudo, a despeito do acesso a tecnologias avançadas, como inseticidas mais modernos, eventos transgênicos e o crescimento do uso de bioinsumos, a persistência de falhas no controle de insetos-praga nas lavouras estabelece um paradoxo para o setor: por que, apesar do acesso a tecnologias de ponta, falhas básicas no controle de insetos-praga ainda ocorrem com frequência nas lavouras de milho?

1  Cigarrinha Dalbulus maidis - 2. Lagarta do cartucho Spodoptera frugiperda - 3. Pulgão do milho Rhopalosiphum maidis
 
A compreensão desse cenário exige a análise do manejo de pragas não como um sistema estático, mas como um processo dinâmico, condicionado pela capacidade biológica de adaptação dos insetos às estratégias de controle desenvolvidas pela pesquisa científica. Além das múltiplas interações dos elementos biológicos, destacamos também os fatores ambientais e operacionais que desafiam os modelos tradicionais de manejo.

Nesse contexto, a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), praga-chave da cultura, exemplifica a resiliência biológica em condições de campo. Embora as biotecnologias Bt expressas em milhos transgênicos sejam amplamente adotadas, a espécie demonstra rapidez na seleção de indivíduos resistentes, com registros de perda de eficiência às proteínas Cry1Ab, Cry1F, Cry2Ab2, Cry1A105 e mesmo Vip3Aa20. 

Fenômeno análogo é observado no controle químico, que dispõe de aproximadamente 400 produtos registrados no Brasil, abrangendo grupos como Diamidas (Clorantraniliprole), Piretroides (Alfa-Cipermetrina), Organofosforados (Acefato e Clorpirifós), Carbamatos (Metomil), Espinosinas (Espinosade) e Benzonilureias (Diflubenzurom). A eficácia desse arsenal, entretanto, é mitigada pela resistência dessa praga, que às vezes pode ser múltipla a diferentes ingredientes ativos, conforme documentado pelo Arthropod Pesticide Resistance Database (APRD, 2026). (www.pesticideresistance.org). 
 
A adaptação de S. frugiperda é favorecida por sua amplitude de hospedeiros, o que chamamos de “plasticidade alimentar” que, segundo Montezano et al. (2018), compreende mais de 350 espécies de plantas, incluindo culturas agrícolas como soja, arroz, trigo e algodão. Esse lepidóptero apresenta elevada plasticidade ecológica, sendo capaz de utilizar plantas daninhas como hospedeiras alternativas, em capim-pé-de-galinha (Eleusine indica) por exemplo, a lagarta completa seu ciclo de desenvolvimento de forma equivalente à observada em plantas de milho. Além disso, também se alimenta de outras espécies amplamente distribuídas em sistemas tropicais de cultivo, como braquiárias (Urochloa spp.). 

Essa amplitude de hospedeiros favorece a formação de “pontes verdes”, possibilitando a manutenção contínua das populações ao longo do tempo e resultando em pressão de infestação persistente entre safras. Por outro lado, existe uma ampla diversidade de ferramentas disponíveis para o Manejo Integrado de Pragas (MIP) no campo, incluindo feromônios, que podem ser aplicados em área total, uma estratégia chamada confusão sexual e ferramentas de controle biológico com uso de insetos benéficos, como predadores e parasitoides. 

O uso de parasitoides do gênero Trichogramma é uma realidade, atualmente auxiliada pela liberação via drones. Existem no mercado também várias opções de bioinseticidas à base de bactérias do gênero Bacillus, vale observar que cepas diferentes podem ter eficácias diferenciadas, sendo importante observar essa questão para uma escolha assertiva. 

Outro grupo de microrganismos utilizados para S. frugiperda são os baculovírus, que se destacam pela elevada especificidade e eficácia. Nesse sentido, a adoção de uma única estratégia de manejo configura-se como abordagem limitada e potencialmente ineficiente, uma verdadeira armadilha para o produtor. A integração de múltiplos métodos de controle é eficaz, uma vez que reduz a dependência de táticas isoladas e contribui para a sustentabilidade e eficiência dos sistemas de produção agrícola.
 
A subutilização do MIP e o uso exaustivo de moléculas sem rotação de modo de ação de inseticidas, somados à repetição de biotecnologias, aceleram a seleção de indivíduos resistentes e provocam desequilíbrios no agroecossistema. Um efeito direto da redução ou eliminação de inimigos naturais, como tesourinhas e parasitoides, é a emergência de pragas secundárias. Surtos de populações de pulgões (Rhopalosiphum maidis) relatados na safra 2025/2026 em diversas regiões produtoras do País ilustram esse desequilíbrio, onde a ausência de controle biológico natural propiciou a explosão populacional dessa praga, considerada secundária.
 
Frequentemente, a ausência de monitoramento técnico e o uso apenas de critérios logísticos (calendários) para a aplicação de defensivos levam aos problemas supracitados. Assim, a retomada do monitoramento e a diversificação de táticas de controle apresentam-se como medidas fundamentais para garantir a sustentabilidade e a produtividade do sistema agrícola.

A visão integrada no manejo de pragas tem sido validada por estudos conduzidos na Embrapa Milho e Sorgo (Maia et al., 2025), no contexto do controle da cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis), importante vetor de patógenos associados ao complexo dos enfezamentos na cultura do milho, incluindo fitoplasmas, espiroplasmas e o vírus do rayado fino. 

A pesquisa demonstrou que a sustentabilidade do manejo depende da sinergia entre diferentes métodos, mas que é possível mesmo para uma praga transmissora de patógenos, com grande complexidade para o manejo. Os principais achados desse estudo trazem diretrizes que precisam ser observadas pelos produtores de milho: 

1) A utilização de híbridos de milho com resistência genética aos patógenos do complexo (molicutes e fitoplasmas) é o pilar central. O estudo mostrou que híbridos resistentes suportam melhor a pressão de infestação, mas não podem "trabalhar sozinhos”; 
 
2) A aplicação de bioinseticidas à base de fungos, como Beauveria bassiana, Isaria fumosorosea e Metahizium anisopliae, apresentou resultados promissores. O estudo destaca que esses agentes biológicos são ferramentas para reduzir populações de cigarrinha, atuando de forma complementar aos tratamentos químicos tradicionais. Os resultados mostraram compatibilidade da utilização conjunta dos agentes biológicos de controle (M. anisopliae e B. bassiana), com eficácia comparável à de inseticida químico, tanto no controle do inseto transmissor, quanto na redução da incidência das doenças associadas. 
 
A adoção integrada de métodos de controle foi o ponto alto do trabalho, a integração entre a genética do híbrido e o controle biológico, táticas de controle que reduziram drasticamente a necessidade de intervenções químicas pesadas. O sucesso no manejo fitossanitário não virá de uma "molécula milagrosa", mas sim da integração de diferentes ferramentas: feromônios, controle biológico (micro e macro-organismos), biotecnologia e controle químico. 

Soma-se a isso o resgate do monitoramento de pragas para fundamentar a tomada de decisão. Aplicação respeitando os níveis de controle e preservando os inimigos naturais é a melhor forma de garantir a sustentabilidade e a rentabilidade da produção de milho a longo prazo.