Quando o Brasil lançou o Programa Nacional do Álcool – Proálcool, em 1975, sob o impacto direto das duas crises dos choques do petróleo, o País vivia um momento de forte vulnerabilidade energética e de insumos agroindustriais. A dependência por importação de petróleo e combustíveis fósseis colocava em risco o abastecimento e pressionava o mercado expondo a fragilidade de uma matriz energética excessivamente atrelada ao mercado internacional.
Naquela época, poucos poderiam imaginar que a “caipira” resposta adotada – baseada no estímulo à produção de etanol a partir da cana-de-açúcar – se transformaria, ao longo das décadas seguintes, numa das principais referências de políticas públicas de sucesso que já tivemos em nosso País e num dos pilares estratégicos da segurança energética, alimentar e ambiental do mundo.
Ao integrar governo, produtores rurais, usinas e a indústria automobilística, o Proálcool criou as bases de uma nova cadeia produtiva. Não se tratava apenas de substituir parcialmente o consumo de gasolina ou diesel, mas de desenvolver uma alternativa local viável, escalável e economicamente competitiva.
O modelo brasileiro de produção de energia renovável em consórcio com a produção de alimentos descentralizada, barata e moderna transformou todo um grande setor da economia, trazendo renda e desenvolvimento em todo o País. O sucesso do programa se deve muito ao fato de ser uma Política de Estado – e não de governo. Mas não podemos tirar os méritos de todos os elos da cadeia produtiva que estão nele envolvidos.
Ao longo do tempo, mesmo enfrentando oscilações de preço, mudanças de governo, de política econômica e períodos de menor incentivo, o setor sucroenergético demonstrou resiliência e capacidade de adaptação. Com o avanço tecnológico, o etanol deixou de ser uma solução emergencial e passou a ocupar um papel central na matriz energética nacional. A introdução dos veículos flex fuel na frota brasileira em março de 2003 ampliou significativamente a autonomia do consumidor e consolidou o biocombustível como uma escolha cotidiana, e não apenas circunstancial.
Hoje, o Brasil é referência global na produção e uso de etanol, de cana e de milho, resultado de uma trajetória construída ao longo de cinco décadas. O jovem Proálcool, com apenas 50 anos, virou um modelo viável para o desenvolvimento humano e tem a força e a responsabilidade de produzir protegendo o nosso principal ativo, que é o nosso planeta.
Há pouco mais de um mês, o mundo voltou a conviver com tensões geopolíticas intensas, sobretudo no Oriente Médio, região estratégica para o abastecimento global de petróleo. Os conflitos levaram ao fechamento do Estreito de Ormuz – por onde passa mais de 20% da produção global de petróleo – e, consequentemente, a um choque de oferta com impactos imediatos sobre os preços internacionais. Este choque é, de fato, muito parecido com aqueles da década de 70.
Para países altamente dependentes de importações de petróleo e seus derivados, como gasolina e diesel, esse tipo de evento representa um risco sistêmico. O Brasil, inserido nesse contexto global, apresenta uma condição viável e comprovada.
A presença do etanol em larga escala na matriz de transportes funciona como um importante mecanismo de proteção a estas situações de mercado. E não ficou somente no etanol, o sucesso do Proálcool fez com que nós desenvolvêssemos outros projetos de produção e consumo de biocombustíveis, como biodiesel e biogás.
Essa proteção se manifesta de diversas formas. Em primeiro lugar, há um efeito direto sobre a necessidade de importação de gasolina, que é estruturalmente menor graças ao uso do etanol. Em momentos de alta nos preços internacionais, isso significa menor pressão sobre a balança comercial e maior previsibilidade para o abastecimento interno.
Em 2025, em média no Brasil como um todo, cálculos da Datagro baseados em dados primários da ANP indicam que o etanol, anidro e hidratado, usado como combustível para transporte substituiu 45,6% de toda a gasolina consumida no País. Em alguns estados como Mato Grosso e São Paulo, o grau de substituição atingiu 67,2% e 58,9%, respectivamente.
Em segundo lugar, o etanol atua como um regulador de preços no mercado doméstico. Isto é, ao oferecer uma alternativa competitiva, ele limita repasses mais intensos ao consumidor final, contribuindo para suavizar choques inflacionários. Outro aspecto fundamental é a previsibilidade produtiva. Diferentemente do petróleo, cuja oferta está concentrada em regiões geopoliticamente sensíveis, o etanol brasileiro é produzido internamente, com base em uma cadeia consolidada e amplamente distribuída pelo território nacional.
Na safra 25/26, o Brasil produziu 36,3 bilhões de litros de etanol de cana e de milho, sendo 22,0 bilhões de litros de etanol hidratado e 14,3 bilhões de litros de etanol anidro. Na safra 26/27, a Datagro estima que a produção de etanol de cana e de milho supere 41,6 bilhões de litros, sendo 25,9 bilhões de litros de etanol hidratado e 15,7 bilhões de litros de etanol anidro.
Além da dimensão econômica e estratégica, o etanol se destaca pelos seus múltiplos benefícios ambientais, afinal, trata-se de um biocombustível renovável, com uma das menores pegadas de carbono entre as alternativas disponíveis para o transporte em veículos leves e pesados.
Seja produzido a partir da cana-de-açúcar, como tradicionalmente conhecemos, seja à base de milho, o uso de etanol reduz significativamente as emissões de gases de efeito estufa em comparação à gasolina, contribuindo de forma efetiva para o cumprimento de metas climáticas.
Em um mundo cada vez mais comprometido com a descarbonização, essa característica se torna um diferencial competitivo relevante. Enquanto países e empresas buscam soluções que conciliem segurança energética e sustentabilidade, o Brasil já possui uma resposta consolidada – há anos.
A experiência acumulada ao longo de décadas permite não apenas atender ao mercado interno, mas também ampliar a inserção internacional do etanol brasileiro como uma solução energética limpa. Indo ainda mais além da questão da sustentabilidade e das emissões, a cadeia produtiva do etanol gera milhões de empregos diretos e indiretos, promovendo o desenvolvimento de diversas regiões do Brasil e estimulando o desenvolvimento de novas tecnologias agronômicas e industriais. Diante desse conjunto de benefícios, torna-se evidente a importância de criar novas políticas públicas visando dar continuidade àquelas já existentes, reforçando cada vez mais o papel do etanol na matriz energética brasileira.
Entre as medidas possíveis e que podem ser aplicadas de maneira rápida, o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, conforme previsto na Lei Combustível do Futuro. Ao elevar a mistura obrigatória para 32 a 35%, damos um passo adicional na direção de uma matriz energética mais limpa, segura e menos dependente de combustíveis fósseis importados.
Esta nova instabilidade de fornecimento de energia e petróleo oferece ao Brasil uma enorme oportunidade para transformar esta crise em um vetor de desenvolvimento. A diferença é que, desta vez, o País já possui um caso de super sucesso e que também criou um robusto arcabouço legislativo internacional.
O Proálcool mostrou que decisões estruturantes podem gerar benefícios duradouros e até inesperados. No início do Proálcool, o benefício pretendido era a redução da dependência energética. Os benefícios ambientais foram um bônus não previsto à época. Em um contexto global novamente marcado por incertezas, conflitos e volatilidade, o etanol reafirma seu papel como um dos principais ativos estratégicos do Brasil. Cabe agora aprofundar essa trajetória, ampliando sua participação, incentivando a inovação e consolidando o País como líder global da transição energética.
Se no passado o etanol foi uma resposta a uma grave crise, hoje é parte da solução para um futuro mais seguro, sustentável e competitivo. Nunca na história esteve tão na moda usar biocombustíveis.