Historicamente, o Brasil consolidou sua liderança na produção de biocombustíveis fundamentada na cana-de-açúcar. Contudo, a última década marcou o início de uma transformação estrutural com a ascensão do etanol de milho. O que antes poderia ser visto sob uma ótica de competição, hoje se revela como uma estratégia de complementaridade produtiva. A convivência entre o etanol de cana e o etanol de milho não é apenas desejável, mas essencial para que o Brasil atenda à crescente demanda interna e se posicione como o grande provedor de soluções para a descarbonização global.
De acordo com os dados do Plano Decenal de Expansão de Energia 2034 (PDE 2034) da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o mercado brasileiro de etanol deve experimentar uma expansão vigorosa. A oferta total de etanol tem potencial para atingir cerca de 48 bilhões de litros até 2034, com uma taxa de crescimento anual de 3,8%.
Neste cenário, a EPE aponta que o etanol de cana-de-açúcar mantém sua relevância absoluta, continuando como a principal fonte de suprimento; enquanto o etanol de milho deve ganhar escala rapidamente, projetando-se que responda por aproximadamente 30% da oferta total em 2034. Essa dinâmica mostra que o crescimento de uma fonte não ocorre em detrimento da outra. Pelo contrário, o milho permite que as usinas (muitas vezes operando em modelo flex) mantenham a produção ativa durante a entressafra da cana, otimizando ativos industriais, reduzindo custos fixos e garantindo a segurança de suprimento ao mercado ao longo de todo o ano.
Além do consumo tradicional do ciclo Otto, novas avenidas de demanda estão se abrindo, o que reforça a necessidade de aumentar a produção. A Lei do Combustível do Futuro e programas como o ProBioQAV introduzem metas para o SAF (Sustainable Aviation Fuel). Estima-se que a demanda por SAF no Brasil possa alcançar bilhões de litros até a próxima década, dependendo das rotas tecnológicas adotadas (como a Alcohol-to-Jet – AtJ, que utiliza o etanol como matéria-prima). Somado a isso, o setor de transporte marítimo busca alternativas para reduzir emissões, colocando o etanol e o metanol verde no radar como substitutos sustentáveis aos combustíveis fósseis.
Essas "novas fronteiras" garantem que, mesmo com a eletrificação parcial da frota leve, a demanda por biocombustíveis de alta qualidade continue escalando, exigindo o máximo esforço produtivo tanto da cana quanto do milho.
No mercado brasileiro, o desenvolvimento do etanol de milho tem sido pautado por alguns fatores, destacando:
1. a disponibilidade de matéria-prima (milho), que garante a base produtiva;
2. o mercado potencial regional para o etanol, que sustenta a demanda pelo biocombustível;
3. o mercado consumidor de coprodutos, como ração animal, que agrega valor ao processo;
4. a disponibilidade de biomassa para a indústria, importante para eficiência energética; e
5. o apoio de políticas públicas, que influencia diretamente a expansão e competitividade do setor. Isso demonstra que o etanol de milho tem fortalecido a oferta e consumo de etanol em regiões do País onde, antes, ele estava pouco presente.
No campo, as duas matérias-primas apresentam suas vantagens competitivas. Enquanto a cana-de-açúcar apresenta produtividade superior de biomassa, com rendimentos médios entre 80 e 100 toneladas por hectare, o milho de segunda safra produz entre 7 e 10 toneladas por hectare. Por outro lado, na indústria, o milho é significativamente mais eficiente na conversão em etanol. Cada tonelada de milho gera entre 360 e 420 litros de etanol, enquanto a cana produz entre 70 e 90 litros por tonelada. Ao final, a cana-de-açúcar entrega, em média, 5.600 litros de etanol por hectare; e o milho, 2.800 litros por hectare.
Se, por um lado, a cana-de-açúcar apresenta mais eficiência por área, por outro, o milho brasileiro é produzido em sistema de sucessão ao cultivo da soja, em 2ª safra (ou cultivo intermediário), o que traz grandes vantagens no quesito de pegada de carbono e outros indicadores de sustentabilidade.
Olhando para o futuro, estudos da EPE, Empresa de Pesquisa Energética, mostram que a oferta total de etanol no País pode atingir entre 45 e 58 bilhões de litros em 2035, sendo que o etanol de milho deve responder por 42% dessa oferta; e o de cana-de-açúcar, pelos outros 58%. No milho, a produção de etanol deve alcançar 22 bilhões de litros em 2035, segundo projeções da UNEM – União Nacional do Etanol de Milho.
Isso representa mais do que dobrar o nível atual em cerca de dez anos, consolidando o etanol de milho como um dos principais vetores de crescimento do setor de biocombustíveis no País. Já o etanol da cana deve alcançar 35 bilhões de litros em 2035. Isso indica um crescimento relativamente limitado frente aos níveis atuais — algo na ordem de até cerca de 20% a 30% no período.
A integração entre as duas cadeias produtivas confere ao Brasil uma resiliência única. Enquanto a cana-de-açúcar oferece uma eficiência energética e captura de carbono já consagradas, o milho traz flexibilidade logística, produção descentralizada e o aproveitamento de coprodutos valiosos, como o DDG/DDGS, que já é uma das matérias-primas proteicas da indústria de nutrição animal.
Enquanto o imbróglio “biocombustível versus alimento” perde força, o setor demonstra que a produção da integrada, tanto da cana-de-açúcar como do milho, entregam produtos que vão além do biocombustível; e que reforçam a oferta de alimentos e a busca pelo combate à fome e pela segurança alimentar global.
Nós sempre questionamos a falta de industrialização e agregação de valor das commodities agrícolas brasileiras. Por que, então, não valorizar as duas cadeias que veem investimentos relevantes para captura e compartilhamento de valor, contribuindo para o desenvolvimento regional do Brasil?
É claro que o mercado é competitivo, mas nós não estamos diante de uma partida com adversários e/ou inimigos. O futuro do agronegócio brasileiro não é sobre escolher entre o etanol de cana ou de milho, mas sobre priorizar a segurança energética, o desenvolvimento e a soberania do Brasil.
Ao somarmos as forças dessas duas matérias-primas, consolidamos o Brasil, não apenas como um produtor de combustível, mas como uma potência de biorrefinarias globais, prontas para alimentar e mover o mundo de forma sustentável. Em tempos de conflitos geopolíticos globais, onde nossa população ainda sofre pelas altas do petróleo e impactos nos combustíveis, priorizar o nosso etanol é garantir uma vida melhor e mais oportunidades aos brasileiros.