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Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Caio

Diretor da Canaplan

OpAA89

As consequências para as bioenergias
“As tensões geopolíticas, as interrupções no
fornecimento com o aumento da demanda de
combustíveis estão impulsionando a fragmentação
e retardando o progresso no cenário energético global.
Fórum Econômico Global 2026

O Estreito de Ormuz no Oriente Médio expôs vulnerabilidades dos sistemas energéticos que já vinham pressionados pelo aumento da demanda, gargalos de infraestrutura e a competição dos investimentos. 
 
A pesquisa realizada pelo Fórum Econômico Global (com a colaboração da Accenture) concluiu que a transição energética global estagnou, apesar do investimento recorde, face ao desalinhamento crescente entre a alocação de capital e a prontidão para a transição, que caiu pela primeira vez em mais de 10 anos. O Índice de Transição Energética (que tem mais de 16 anos de benchmarking, utilizando 44 indicadores em 120 países) de 2026 permaneceu estável em relação a 2025, refletindo essa desaceleração. Entre os países, o Brasil ficou no 17º lugar.
 
Uma importante consequência na geopolítica global foi a mudança de prioridade ocorrida onde a segurança energética, custos e resiliência passaram à frente da velocidade do processo estabelecido desde o Acordo de Paris para a descarbonização. No último Fórum (janeiro/26), a afirmação nas conclusões foi que a “Segurança Energética emergiu como uma força definidora”.

Em um mundo com risco soberano, inflação crescente e juros altos, a IRENA – Agência Internacional de Energia Renovável afirma que projetos de combustíveis de baixa emissão são particularmente vulneráveis à incerteza política, qualificando-os como totalmente dependentes de suporte regulatório e de políticas públicas. Seria mais ou menos como sintetizar rudemente isso para algo como “a bioenergia nasceu para valorizar o carbono mitigado, mas, antes, precisa sobreviver aos juros, à inflação e às geopolíticas”!
 
Enquanto a previsibilidade atrai o capital, o Brasil, mesmo tendo a mais competitiva biomassa do mundo, seguirá dominado pela geopolítica em primeiro lugar e pela sua capacidade de alinhavar políticas macroeconômicas e foco no que é prioritário em segundo lugar. O resto virá!
 
Quando os EUA (pós 2025) passou a operar globalmente o processo de morte ao multilateralismo, a geopolítica assumiu o volante e o unilateralismo saiu do “acostamento” onde trafegava e retornou à pista principal, à frente de todos. Essa imagem traz consequências claras e já sentidas por todos, nos conflitos, na macroeconomia, frenando a velocidade da transição energética e, claramente, fazendo a bioenergia sentir os impactos. Com isso, emergem protecionismos, subsídios, em um novo caminho, ou pista, que a geopolítica definirá.

Durante a COP 30, no Brasil (Belém-PA), pôde-se apresentar (Brasil) a lógica dos três grandes mapas globais: o Mapa da Transição Energética; o do Desmatamento; o do Financiamento. Foi brilhante e oportuno, mas, claro, a sua sequência dependerá do que virá nas COPs seguintes. Afinal, a geopolítica na forma dos discursos dos países líderes mostra que a transição energética segue inevitável, sem, no entanto, viabilizar maior velocidade ao processo, que tenderá a ser longo.

Há uma série de consequências ao nível global e nacional que merecem reflexão. Enquanto globalmente não se têm produtos como o etanol ou o biodiesel como commodities (no conceito mundial), as questões fundamentais de acessibilidade (volumes, disponibilidade e preços) no tempo, diga-se curto prazo (oferta maior que a demanda) e longo prazo (modais de transporte como o SAF e SMF, combustíveis sustentáveis aéreo e marítimo, respectivamente) haverá ganhos de valor estratégico nos ativos existentes e novos projetos serão mais difíceis (greenfields) de uma forma geral. 

Afinal, petróleo com preços altos convida a bioenergia, e o contrário leva à luta por sobrevivência. Outros aspectos relevantes são a regionalização, segurança de suprimento e o que se sintetiza como “friendshoring”, que levam a outras tendências. Qualquer que seja o caminho, para trafegá-lo será preciso ter biocompetitividade. A escolha dessa palavra foi muito pensada e reflete o peso ou a relevância dos temas que ela engloba.
 
Como um país rico em biomassa (carboidratos, proteínas e fibras), em hidrocarbonetos e com potencial enorme de recuperação de grandes áreas de terras em diferentes estágios de degradação, o Brasil, além de estar muito à frente da enorme maioria dos países em suas matrizes energética e elétrica, precisa estar focado em suas escolhas. 
 
A cada escolha, assumem-se as consequências!

Capital caro, mercado volátil, fertilizante importado, máquinas e insumos com financiamentos a juros altos, sofrendo a falta de uma política de seguro rural, sugerem, obviamente, política de Estado. No Brasil, têm-se políticas de governo, entre a esquerda (longos períodos) e a direita (raros e curtos períodos), que se alternam e não há continuidade. Isso é um grave problema e requer grandeza e compromisso com a Nação.

Do lado privado, a resposta é produtividade elevada, produtos com qualidade e mitigação das emissões de carbono. Para cada agroindústria, diferentes respostas e mercados, mas, óbvio, com previsibilidade alicerçada nos compromissos que sejam assumidos em políticas de Estado.
 
Para as cadeias produtivas da cana, milho, soja, carnes e florestas plantadas, entre outras, algumas consequências merecem comentários adicionais:
• Todas deverão ser plataformas bioindustriais, derivadas de diferentes matérias-primas, certificadas e globais. Isso requererá governança e acesso a capitais.
• Todas deverão utilizar toda a biomassa produzida (integral) e diversificar, via tecnologias, seus produtos e subprodutos para reduzir os tipos variados de dependências, ampliando os seus mercados (interno e externos), atraindo capital e parcerias estratégicas.
• Contínua busca de integração entre as diversas culturas e cadeias produtivas, buscando redução de custos e mercados, no País e alhures, confirmando em escala o protagonismo do Brasil no agronegócio global.

A bioenergia continua sendo uma das maiores oportunidades estratégicas do Brasil neste século XXI da Bioeconomia e da Inteligência Artificial, mas sua evolução deixou de depender apenas de argumentos ambientais ou mesmo de capacidade competitiva. Como dito pelo Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, "a produtividade é quase tudo". Hoje, o avanço da bioenergia está condicionado à realidade geopolítica, à segurança energética, à competitividade econômica e à capacidade dos países de construir políticas de Estado consistentes. 
 
Em um mundo marcado por guerras, protecionismo, disputas comerciais e restrições fiscais, além de argumentos de proteção como o “food versus fuel”, deveriam prevalecer soluções que conciliassem descarbonização, soberania energética e custos. Nesse contexto, a bioenergia brasileira destaca-se por reunir disponibilidade de biomassa, tecnologia consolidada e elevada eficiência, mas seu pleno potencial somente será alcançado com estabilidade regulatória, investimentos contínuos e uma visão estratégica de longo prazo.

Para um país protagonista como o Brasil nos temas prioritários à humanidade como a segurança alimentar e a transição energética, na corrida contra as mudanças climáticas, estar firmemente lastreado em posições de Estado nas relações internas e externas é fundamental.