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Luiz Gustavo Junqueira Figueiredo

Diretor Comercial da Usina Alta Mogiana

Op-AA-44

Em busca da safra perfeita

Poucas coisas são mais apaixonantes e intrigantes do que a complexidade e a beleza de uma safra de cana. Trata-se de um verdadeiro exército, trabalhando incansavelmente dia e noite para abastecer as moendas das indústrias, ávidas pela sacarose e pelo bagaço proporcionados por essa cultura. A primeira discussão relevante passa pela escolha das variedades adequadas ao tipo de solo e de clima da região.

Conheço inúmeros casos de erros nessa etapa, seja pelo fato de privilegiar-se em demasia algumas variedades em detrimento de outras, ou pela seleção de variedades não condizentes com o clima da unidade produtora. Esse trabalho técnico deve ser acompanhado de perto, já que existe um dinamismo nas diversas mudas de cana que são desenvolvidas todos os anos. Isso significa que as usinas devem estar, constantemente, buscando aprimorar a seleção das variedades que elas utilizarão em safras futuras, já que o seu processo de multiplicação é demorado e pode levar vários anos até atingir seu estágio ideal.

Outra definição crucial é o tamanho ideal de safra, que deve levar em conta, principalmente, as peculiaridades do clima e da região envolvida. Algumas unidades podem começar a moagem no começo de abril, especialmente aquelas próximas aos estados do Paraná e Mato Grosso do Sul. Isso se deve ao fato de essas regiões terem um solo mais arenoso e clima mais frio, com maior incidência de chuvas advindas de frentes frias durante a safra.


Já regiões mais quentes e com solo mais argiloso devem evitar moer em épocas de chuva, normalmente encontradas entre o final de novembro e início de abril. Nessas regiões, é contraproducente moer em dezembro: além da dificuldade de moagem no fim de safra, existe a perda de crescimento do canavial, que abre mão de dias importantes de sol, calor e umidade para o próximo ciclo. Em relação ao plantio, algumas usinas procuram combinar a rotação de cultura com oleaginosas ou amendoim. Essa prática, quando possível, dá excelentes resultados e deve ser incentivada pelos departamentos agronômicos. As técnicas de mecanização do plantio têm sido assimiladas com uma grande curva de aprendizado, já que é muito difícil replicar a qualidade encontrada no plantio manual, que era feito de forma praticamente artesanal e com alta qualidade.

Não é raro encontrar faixas de cana recém-plantadas mecanicamente em talhões  com baixo nível de brotação, o que deve gerar uma política de replantio imediato, a fim de se minimizar perdas no futuro e garantir bons rendimentos para o canavial. O uso de drones para acompanhar o correto nascimento das mudas é uma ótima solução para garantir mais qualidade nesse processo. Os períodos mais secos, de agosto e setembro, trazem consigo os riscos de incêndios em áreas de cana ou de palha.

Além do prejuízo econômico, as usinas ainda têm que enfrentar as pesadas multas decorrentes da queima ilegal. Trata-se de uma penalidade excessiva, já que, hoje em dia, não existe interesse das usinas em queimar a cana, pois a palha é aproveitada para a geração de energia elétrica, além de agir como uma manta protetora do solo após a colheita. As entidades de classe do nosso setor devem continuar fazendo um trabalho de esclarecimento das autoridades e órgãos ambientais, além da própria população, em relação aos enormes prejuízos que temos tido com os incêndios em nossos canaviais.

Na nossa região, temos contado com o apoio de várias unidades vizinhas, que socorrem umas às outras quando existe um incêndio de grandes proporções. Nessas horas, a união faz a força. Com a crise de preços que enfrentamos nos últimos anos, todos os produtores tentaram buscar otimizar suas estruturas agrícolas a fim de reduzir os custos de produção. Algumas soluções, como o uso de dois turnos na colheita, ainda não se provaram totalmente eficazes, pelo risco de acidentes e de multas decorrentes de possíveis excessos de jornada.

Já em outras áreas, o uso de dois turnos pode fazer mais sentido, como o almoxarifado agrícola. Cada unidade deve estudar, com muita atenção, o que pode funcionar ou não no seu setor agrícola e se adequar ao seu ambiente interno. A busca de redução de custos também está levando algumas usinas a diminuírem níveis hierárquicos, agilizando o processo decisório e dando mais responsabilidades para os técnicos ou engenheiros agrônomos. Essa solução é muito bem-vinda, pois não apenas motivamos a equipe gerencial como damos oportunidade de crescimento profissional para aqueles que se destacam.

O fator humano, tão presente nas atividades agrícolas, deve ser sempre tratado com máxima relevância, já que estamos falando de centenas de profissionais em diversos níveis de atuação, como mecânicos, motoristas e tratoristas. O treinamento e a reciclagem técnica desses profissionais ganhou muito destaque nos últimos anos, não apenas pela dificuldade em se encontrar bons técnicos no mercado, mas, principalmente, pelo aumento da tecnologia embarcada nos equipamentos agrícolas.

A logística envolvida na área agrícola ganhou um novo impulso com o desenvolvimento de vários softwares dedicados a essa atividade, além da chegada de equipamentos que monitoram, em tempo real, os veículos em operação. Algumas unidades estão conseguindo ótimos resultados com o acompanhamento on-line dos seus operadores, além da diminuição do tempo de trocas de turno, algo que também aumenta bastante a produtividade.

A questão do peso dos caminhões canavieiros merece uma atenção redobrada, caso haja restrições legais em relação ao que praticamos hoje. Transportar menos cana por viagem não apenas encarecerá o CCT, mas também limitará o raio de atuação da fronteira agrícola a ser utilizada pelas usinas. O raio médio terá que ser redimensionado em unidades onde boa parte da sua matéria-prima se localiza em áreas distantes. Esse processo deve se iniciar o quanto antes, já que existe um cronograma de renovação de contratos de arrendamento que demora vários anos até ser reciclado por completo.

Outra solução encontrada pelas usinas para otimizarem seus processos é a contratação de equipes de auditoria externa para sugerirem novas formas de trabalho. Apesar do clima de insegurança que a chegada desses profissionais traz, existe sempre a oportunidade de aprimoramento da gestão, e, não raro, essas consultorias fazem uma verdadeira revolução nas estruturas agrícolas das usinas. Uma das características marcantes desses profissionais é a de buscar não apenas ineficiências estruturais, mas também a correta medição de indicadores de desempenho que deverão ser usados como parâmetros para uma parte do rendimento dos funcionários.

Não acredito que o ser humano seja movido apenas pelo desejo intrínseco de fazer corretamente o seu trabalho, pois é natural que existam acomodações no desempenho profissional das pessoas ao longo da sua carreira. Nesse sentido, a adoção de metas claras de desempenho, tanto para as atividades mais operacionais quanto para as gerenciais, serve não somente para estimular a melhoria contínua, mas também  para promover os profissionais mais capacitados e aptos a se adequarem a um ambiente mais competitivo e desafiador.

Em suma, a busca da safra perfeita é um desafio em constante evolução, em que elementos tecnológicos, climáticos, logísticos, varietais e humanos se juntam e se complementam, o que mostra não apenas a grandiosidade dos desafios enfrentados, mas também a complexidade da nossa atividade e a satisfação que temos em superar e aprimorar nossos processos, trazendo mais competitividade e ganhos de eficiência para toda a cadeia sucroenergética.