Diretora de Relações Internacionais e Comunicação da UNEM – União Nacional do Etanol de Milho
O agronegócio brasileiro vivencia transformações estruturais profundas. Em meio às flutuações globais impulsionadas por conflitos geopolíticos e incertezas no mercado de energia — exemplificadas pelo barril de petróleo Brent rompendo a barreira dos 100 dólares em abril de 2026, com uma alta acumulada superior a 33% no último mês —, o etanol consolida-se não apenas como protagonista da matriz energética, mas como indutor de uma nova bioeconomia.
Neste cenário, o Brasil assiste à sinergia entre o consolidado etanol de cana-de-açúcar e o crescimento vertiginoso do etanol de milho. Longe de representarem modelos concorrentes, essa integração otimizou o uso de ativos industriais por meio das plantas flex. Estas unidades operam com cana na safra principal e com milho na entressafra, aproveitando o balanço energético do bagaço para a geração de vapor e eletricidade em ambas as operações. Contudo, a expansão do milho não revolucionou apenas o setor de combustíveis; ela está transformando o mercado de insumos por meio dos Brazilian Distillers Grains (DDG e DDGS) e do óleo de milho.
Origem e evolução técnica
Para compreender o atual cenário mercadológico destes coprodutos, é fundamental resgatar as suas origens. Pesquisando nos manuais do US Grains & Bioproducts Council (entidade norte-americana que desenvolve mercados de exportação para a cevada, o milho e o sorgo norte-americanos, além de produtos relacionados, incluindo os grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS) e o etanol), aprendemos que a produção de coprodutos de milho remonta ao século XIX e foi inicialmente atrelada à indústria de bebidas alcoólicas.
As destilarias de whisky, que usavam primordialmente o milho para produção da bebida, acabavam vendendo os resíduos da destilação para fazendas de gado de corte e leite próximas. Até a década de 1950, os grãos úmidos de destilaria eram considerados principalmente um ingrediente proteico que substituía parcialmente outros insumos proteicos, quase exclusivamente em rações para bovinos. A adesão ao produto em dietas de suínos e aves ocorreu apenas no final da década de 1990.
Entre as décadas de 1970 e 1980, grandes instalações de moagem úmida (wet milling) foram construídas nos Estados Unidos para produzir etanol como aditivo para a gasolina. No entanto, foi o aperfeiçoamento da tecnologia de moagem a seco (dry-grind) que catalisou a atual disponibilidade global.
No processo de moagem a seco, o milho é triturado e misturado com água e enzimas na etapa de liquefação e sacarificação, que converte o amido em glicose. Em seguida, adiciona-se levedura (Saccharomyces cerevisiae) para fermentar os açúcares, transformando-os em etanol e dióxido de carbono.
Após a destilação do etanol, o resíduo líquido (conhecido como vinhaça) é centrifugado, separando a fração sólida (o Wet Cake) da vinhaça fina. Quando o Wet Cake é seco de forma pura, obtém-se o DDG (Distillers Dried Grains). Quando o xarope concentrado (proveniente da evaporação da vinhaça fina) é reincorporado ao Wet Cake antes da secagem, obtém-se o DDGS (Distillers DriedGrains with Solubles), que possui teores mais elevados de gordura e energia.
Como o amido (que representa cerca de 70% do grão) é consumido na produção do álcool, os demais nutrientes — proteína bruta, extrato etéreo (óleo), fibras e minerais (como o fósforo) — ficam concentrados em até três vezes no coproduto final. Além do valor nutricional, o impacto ambiental é positivo. A produção integrada permite que o grão de milho seja aproveitado em sua totalidade: o amido vira energia (etanol) e os demais componentes tornam-se alimento de alto valor biológico. Isso reduz a pressão por novas áreas de pastagem e otimiza a conversão alimentar nos confinamentos.
A produção no Brasil
Dez anos atrás, havia no Mato Grosso uma produção excedente de milho de segunda safra, produzido enquanto cultura intermediária, e que dependia de políticas públicas de aquisição de produtos como o PEP e PEPRO para sua comercialização. A indústria de etanol de milho surge como um demandante deste grão de forma contínua e garantida, permitindo o avanço deste setor sobre áreas já ocupadas pela soja, sem necessidade de abertura de novas fronteiras agrícolas.
O Programa Proálcool, instituído no Brasil em 1975, criou uma demanda garantida por etanol no Brasil, por meio do mandato de mistura obrigatória de etanol à gasolina e pela ampla existência de veículos com motores flex-fuel, que podem ser abastecidos com etanol ou gasolina. O programa deu os alicerces, sem os quais a indústria de etanol de milho dificilmente teria tido o sucesso meteórico que vemos hoje.
Todos estes fatores criaram uma tempestade perfeita de oportunidades para a industrialização de grandes excedentes exportáveis de milho, sobretudo no Centro-Oeste. O movimento impulsionou uma economia circular que integra diversas cadeias de produção de alimentos e biocombustíveis, gerando valor agregado, empregos, renda e impostos — aproveitando uma matéria-prima com baixa demanda interna, distante dos portos e dos centros consumidores, em uma região ainda carente de infraestrutura logística e de armazenagem.
No Brasil, consideramos que a produção comercial de etanol de milho iniciou-se de forma efetiva em 2017, no Estado do Mato Grosso, quando a primeira empresa de produção de etanol a partir do milho (full) iniciou suas operações.
O setor de etanol de milho consolidou sua sinergia com a cana-de-açúcar por meio das plantas flex, que otimizam a produção e o balanço energético ao alternar as matérias-primas entre safra e entressafra. Essa expansão mitiga riscos climáticos na lavoura de cana, garante a manutenção do mandato de 30% de mistura na gasolina e permite que o setor sucroenergético priorize a produção de açúcar em momentos de preços favoráveis sem comprometer a oferta de combustível.
O crescimento do setor de etanol de milho no Brasil tem sido exponencial: a produção de biocombustível a partir de cereais saltou de modestos 230 milhões de litros na safra 2016/17 para cerca de 9,97 bilhões de litros na safra 2025/26, um avanço formidável de mais de 4.234%. O milho tornou-se um pilar estratégico para a segurança do abastecimento nacional.
Produção e armazenagem de DDG/DDGS
Projeções indicam que até 2027 a projeção de etanol suba para quase 12 bilhões de litros, impulsionada pela construção de novas biorrefinarias no Centro-Oeste, Nordeste e Sul do País. Em cada tonelada milho processada, a indústria obtém em torno de 440 litros de etanol, 212 kg de DDG/DDGS, e 19 kg de óleo de milho. Da mesma forma, projeta-se que a oferta comercial do DDG/DDGS aumente das atuais 4,9 milhões de toneladas, em uma mesma proporção.
Essa abundância afeta diretamente as planilhas de custos do produtor rural. Em paralelo aos debates constantes sobre os insumos agrícolas tradicionais e biológicos utilizados para a proteção e o desenvolvimento das lavouras, o DDG e o DDGS atuam na ponta final da cadeia como insumos nutricionais de altíssimo valor. Eles substituem parcialmente ingredientes tradicionais e mais onerosos — como o milho em grão (fonte de energia), o farelo de soja (fonte de proteína) e o fosfato bicálcico (fonte de fósforo) — na formulação de dietas para bovinos, suínos e aves. Além disto, o DDG/DDGS pode ser utilizado na ração de peixes e de animais de companhia (cães e gatos).
A adoção ampla desses coprodutos reduz a dependência de outros insumos proteicos, oferecendo um alívio fundamental aos custos de produção da proteína animal.
A internacionalização e o marco da China
O trabalho de promoção comercial estruturado pela UNEM em parceria com a ApexBrasil elevou as exportações de DDG/DDGS de meras 802 toneladas em 2021 para quase 880.000 toneladas em 2025. O convênio engloba ações como branding, participação em feiras internacionais, rodadas de negócios, apresentações do produto em parceria com as embaixadas do Brasil no exterior, e projetos imagem, que trazem jornalistas internacionais para conhecer o setor aqui no Brasil.
O marco mais recente e significativo foi a abertura do mercado chinês. Consolidada em 2026, a entrada do Brasil no maior parceiro comercial do agronegócio nacional quebra a hegemonia histórica dos fornecedores norte-americanos. Este avanço prova que a qualidade e a segurança fitossanitária do coproduto brasileiro atendem aos padrões mais rigorosos do mundo.
Considerações finais
O atual cenário do DDG e DDGS simboliza a eficiência máxima no uso de recursos. Ao processar o milho em usinas de última geração, o Brasil não disputa espaço com a produção de alimentos; pelo contrário, produz energia limpa e gera um ingrediente de alimentação animal super premium.
A maturidade regulatória e a expansão da infraestrutura logística, herdada e aprimorada a partir da experiência do Proálcool, são os passos definitivos para consolidar a liderança brasileira. O Brasil não é mais apenas uma potência bioenergética; é uma força irrefutável na nutrição animal sustentável global, provendo soluções inovadoras que equilibram segurança energética e segurança alimentar.