As perguntas que a gente ouve dos produtores de cana-de-açúcar são sempre as mesmas, dentre elas as mais frequentes são: “Por que nossa produtividade não cresce? Qual é o meu potencial de produtividade agrícola? O que está acontecendo, pois creio que estamos fazendo tudo certo?”
Será que estão mesmo?
As principais causas das baixas produtividades agrícolas registradas desde 2010, no Centro-Sul do Brasil, são conhecidas de todos que militam no setor: compactação das linhas de cana, falhas no stand desde a formação dos novos canaviais, ataque de pragas de solo, variedades ruins ou mal alocadas, arranquio de touceiras pela colheita mecanizada e tratos culturais deficientes.
Para todos esses problemas, o setor possui soluções, que passam obrigatoriamente por gestão, investimentos em tecnologia e a qualidade de serviços. Ressalte-se que tudo que leva a ganhos de produtividade vai influenciar no custo final da tonelada de cana. Estamos nos referindo às produtividades de colmos, às operações agrícolas mecanizadas e ao desempenho das pessoas nas mais diversas funções.
Estes são três componentes totalmente interligados, que precisam estar constantemente evoluindo, pois os seus resultados se refletem nos rendimentos de toneladas de cana obtidas por unidade de área e no custo de produção agrícola. Porém, há muitos outros fatores que ocorrem de forma rotineira e muitas vezes, até simultaneamente, que precisam ser administrados, pois são tão importantes como a relação dos principais problemas já destacados.
Em geral, devido à intensa rotina no cotidiano das empresas, eles podem passar despercebidos dos produtores. São eles: formação de canavial fora da melhor “janela de plantio”, ou seja, fora de época; colheita de cana antes da idade mínima indicada para corte; desconhecimento do ambiente de produção; atraso no timing na realização de tratos culturais; manejo errado da palha depositando-a sobre a linha de cana; redução de adubação sem critérios; falta de correção de solo em profundidade; adoção de variedades sem validação local adequada; colheita mecanizada com velocidade acima do recomendado; erros no quebra lombo, que interfere na altura do corte mecanizado; falta de acabamento nas cabeceiras dos talhões; elevados índices de perdas visíveis e invisíveis na colheita, adoção de equipamentos agrícolas inadequados, mudas de má qualidade com doenças, pragas e idade avançada; falta de combate às manchas foliares; falta de controle de florescimento e isoporização; novas tecnologias implantadas sem consolidação; matocompetição persistente com gestão deficiente no controle de plantas daninhas; pouca experiência dos profissionais de comando, entre outros pontos de perdas de produtividade agrícola.
Quanto estamos perdendo em cada um desses itens? Sabe-se que ocorrem perdas, mas quanto? Poucos sabem, por isso esses problemas são recorrentes. Ressalte-se que, atualmente, um grande problema é a ausência dos responsáveis pela produção agrícola no campo, importante para analisar o comportamento da cana, orientar as operações corretamente e exigir a qualidade dos serviços.
Hoje, poucos “conversam” com a cana, talvez não estejam conseguindo se comunicar, porque não a conhecem de fato. Quando está com fome, quando está com sede, quando está estressada, quando está doente, quando está pronta para colheita etc.
Por outro lado, nos momentos de caixa baixo os gestores de planilhas econômicas deitam e rolam, sugerindo fazer reduções sem critérios, extremamente comprometedores para as produtividades presentes e futuras. Empresas que têm as melhores produtividades e são geridas com base em qualidade de serviços e metas tangíveis e frequentes suportam melhor os períodos de crise.
Poderíamos citar vários exemplos: quem ainda não recebeu uma ordem desse tipo: “corta 20% da adubação”, sem qualquer critério, ou ainda “corta pela metade”! E assim vai... E na mão de obra: “é preciso cortar 15% da mão de obra, senão a conta não fecha” ou “manda embora, depois a gente vê”. Somente quem tem informação técnica e experiência de outras crises, com históricos bem construídos, saberá exatamente onde realizar cortes.
Um dos maiores erros que ocorre numa empresa canavieira é quando se decide pelo corte de investimentos em plantio, não realizando as reformas de canaviais com baixa produtividade. Muitas empresas, por problemas de caixa, tomam essa decisão visando suportar os períodos de crise.
Entretanto, as consequências virão já no ano seguinte, pois a área de reforma dobra, bem como a necessidade de investimentos na formação de novos canaviais. Este atraso na reforma somente será recuperado em três anos, se tudo se normalizar, a menos que o problema de caixa seja solucionado de imediato, com injeção de capital pelos acionistas.
Basta que a crise de preços de açúcar e etanol se estenda por mais um ano que a empresa terá reflexos negativos em queda de receita, devido à redução de matéria-prima para moagem, manutenção de áreas de arrendamento com baixa produtividade, e como consequência terá um aumento nos custos de produção.
Daí em diante, será uma bola de neve morro abaixo, pois a empresa terá de investir muito mais nos anos seguintes para recuperar o atraso nas reformas dos canaviais improdutivos, além de ter de gastar mais no combate a pragas de solo e plantas daninhas, que se multiplicam nas áreas não reformadas. Pode ser o começo de uma duradoura crise, que certamente levará a uma possível recuperação judicial ou até mesmo à falência.
Empresas com baixa produtividade e custo de produção de cana elevado são as mais afetadas em momento de crise. Mas, como é possível enfrentar essa situação no momento em que o setor trabalha no vermelho?
As principais atitudes para suportar a pressão de baixos preços e caixa baixo devem passar pelo seguinte: rever contratos com fornecedores; renegociar taxas de juros e prazos com bancos; rever a política de comercialização de açúcar e etanol; adiar investimentos na indústria e só fazer a manutenção básica; fazer uma revisão de prioridades para estimar as necessidades de caixa; rever a política de cargos e salários; devolver áreas improdutivas ou muito distantes; trocar produção de cana com a empresa vizinha para encurtar as distâncias; calcular a moagem ideal para atingir o EBITDA desejado com apuração do break even point; apurar os principais itens de gastos separando-os entre prioritários e adiáveis; encurtar a safra para maximizar o ATR e a produtividade agrícola; porém, é preciso não realizar cortes profundos em tratos culturais, não deixar de reformar canaviais improdutivos e evitar cortes nos insumos essenciais.
Ressalte-se que as produtividades mínimas necessárias para fazer frente aos compromissos de uma agroindústria devem estar ao redor de 85 t/ha, ou seja, cerca de 12 toneladas por hectare acima da média do Centro-Sul do Brasil. Quem já atingiu o seu máximo potencial produtivo ou ainda não chegou perto dessa média, tem de identificar onde ainda é possível melhorar ou terá sérios problemas de caixa.
Certamente vai se arrepender de algumas políticas ou gestões que apenas se preocupam com as planilhas financeiras, em um negócio onde 75% dos custos de produção estão no campo. Quem não fez a lição de casa corretamente quando a situação estava mais favorável, agora terá de correr atrás do prejuízo, mas quem operava em melhor situação, vai passar por essa crise e certamente ficará mais forte.
Qual é o seu potencial de produtividade agrícola? O que é preciso para alcançá-lo?