As doenças são um dos principais problemas fitossanitários para a produção de milho no Brasil, podendo reduzir a produtividade e a qualidade dos grãos desde a semeadura até a pós-colheita. Diversos gêneros de fungos, nematoides, vírus e bactérias representam risco para a cultura, sendo os principais: Pantoea ananatis (mancha branca), Exserohilum turcicum (helmintosporiose), Bipolaris maydis (mancha de Bipolaris), Puccinia polysora e Puccinia sorghi (ferrugem polissora e comum), Cercospora zeae-maydis (cercosporiose), Stenocarpella macrospora (mancha de macrospora), além de patógenos dos gêneros Fusarium, Stenocarpella, Aspergillus, Penicillium e Colletotrichum graminicola, causadores de podridões de colmo e de grãos.
Entre os vírus de maior risco estão o Sugarcane mosaic virus (SCMV) e o Maize dwarf mosaic virus (MDMV-B), transmitidos por pulgões, além do Maize rayado fino virus (MRFV) e do Maize striate mosaic virus (MSMV). Os dois últimos, transmitidos pela cigarrinha Dalbulus maidis, juntamente com os molicutes (bactérias) Spiroplasma kunkelli e Phytoplasma candidatus asteris, compõem o complexo de enfezamentos — que se tornou, nos últimos anos, a doença de maior impacto na produtividade do milho brasileiro.
Os vírus apresentam risco para a produção de bioenergia por não haver produtos para controle direto, sendo transmitidos por insetos, o que exige o manejo integrado de pragas e doenças para alcançar efetividade. Entre as viroses, o SCMV infecta cana, sorgo e milho, importantes matrizes bioenergéticas no Brasil. Portanto, também é necessário estar atento ao sistema produtivo onde as três culturas estarão inseridas.
Para nematoides e fungos de solo, o tratamento de sementes está disponível e não deve ser ignorado. Normalmente, nematoides não causam problemas severos para o milho e o sorgo, mas é importante escolher híbridos que reduzam as populações, especialmente dos gêneros Pratylenchus e Meloidogyne, para evitar o aumento populacional em culturas subsequentes, como soja e cana-de-açúcar.
Os patógenos podem infectar as plantas em diferentes fases do ciclo da cultura, de forma isolada ou em conjunto, exigindo atenção ao momento em que a doença ocorre e ao início dos sintomas para uma melhor eficiência no controle. Por exemplo, o controle químico da helmintosporiose, que se desenvolve na fase vegetativa, é mais eficiente se a primeira aplicação for realizada entre 40 e 50 dias após a semeadura (DAS), comparado a aplicações tardias (60-75 DAS).
Outras doenças, como a mancha branca, a cercosporiose e as ferrugens, também se iniciam na fase vegetativa; porém, a fase crítica coincide com a maior demanda de fotoassimilados pela planta, a partir do VT/florescimento. Assim, aplicações na fase vegetativa (V8-V10) reduzem o inóculo inicial, mas haverá necessidade de pelo menos mais uma aplicação, uma vez que o período residual médio dos produtos é de 14 a 21 dias (dependendo da doença, da molécula, da formulação e das condições climáticas). Vale reforçar que o desenvolvimento das doenças depende da quantidade de inóculo, do clima e do nível de suscetibilidade dos híbridos. Veja infográfico na página seguinte.
Enquanto para as doenças citadas anteriormente as perdas se concentram na produtividade, no caso de patógenos de grãos que produzem micotoxinas, o prejuízo atinge os subprodutos da extração de etanol, o DDG e WDG, que possuem alto valor para a indústria de nutrição animal. Os patógenos reduzem o amido que seria convertido em etanol, competem com as leveduras e alteram o pH, a composição química e a densidade dos grãos, criando um ambiente desfavorável à fermentação. Destacam-se os fungos Fusarium verticillioides (produtor de fumonisinas) e F. graminearum, (produtor de zearalenona e deoxinivalenol) e espécies de Aspergillus (produtoras de aflatoxinas, ocratoxinas). No Brasil, as fumonisinas, zearalenona e aflatoxinas são as micotoxinas mais comuns no milho.
Em pesquisa realizada pelo LAMIC entre 2017 e 2020, a presença de micotoxinas em DDGS foi detectada em mais de 98% das 186 amostras analisadas. Dessa porcentagem, 59,9% apresentavam uma única micotoxina, 29,9% apresentavam duas e 9,1% mais de duas. As fumonisinas (B1 e B2) prevaleceram em mais de 97% das amostras, com médias de 3.207 μg/kg e 1.243 μg/kg, respectivamente. Aflatoxinas foram detectadas em 32,3% (média de 1,47 μg/kg), zearalenona em 18,01% (média de 18,2 μg/kg) e DON em 12,9% (média de 59,6 μg/kg).
Observou-se a concorrência de aflatoxinas e fumonisinas em 32,07% das amostras. Exceto para as fumonisinas, um número considerável de amostras apresentou níveis abaixo do limite de quantificação.
O controle de micotoxinas é vital para a segurança alimentar e o comércio internacional. Na matriz bioenergética, a contaminação desafia a viabilidade do DDG, cujas exportações para mercados exigentes, como a China, dependem do cumprimento estrito de padrões sanitários globais.
Alguns pontos devem ser considerados para reduzir os riscos de doenças na produção de bioenergia:
1. Conhecer as condições favoráveis aos patógenos e hospedeiros alternativos, monitorando as lavouras para uma tomada de decisão assertiva.
2. Semear, sempre que possível, cultivares resistentes. A resistência genética é, para muitas doenças (como viroses e enfezamentos), a única estratégia disponível.
3. Controlar plantas voluntárias (tiguera), que servem como ponte verde para patógenos e pragas, inclusive vetores pulgões e D. maidis.
4. Evitar plantios sucessivos com uma única cultura, o que favorece o aumento do inóculo e a pressão de seleção.
5. Realizar o tratamento de sementes e o controle químico quando houver pressão de doenças.
6. Evitar o atraso na colheita para reduzir podridões de colmo, de grãos e o acúmulo de micotoxinas.
Enfim, para o produtor, o desafio é manter a sanidade para evitar perdas em quantidade e qualidade de grãos. Enquanto o padrão do MAPA tolera até 6% de grãos ardidos, o limite de muitas usinas é de 2%, e teores elevados de micotoxinas podem resultar na devolução da carga.
Para a usina, o desafio é compreender como o sistema de produção no campo afeta o rendimento de etanol e a qualidade do DDGS. A melhor estratégia é jogar junto. Em suma, o desafio do produtor é preservar a sanidade do milho para evitar perdas em produtividade, na qualidade dos grãos e na remuneração paga pela indústria.
Guia Fitossanitário: Ciclo do Milho e Riscs à Produtividade (Fase Vegetativa e Fase Reprodutiva)