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Rosana Amadeu

Presidente do CEISE Br Centro Nacional das Indústrias do Setor Sucroenergético e Biocombustíveis

OpAA89

O Brasil tem capacidade para exportar muito mais do que biocombustíveis
Quando se discute o futuro da bioenergia, a atenção costuma se concentrar em novos combustíveis, metas de descarbonização ou avanços regulatórios. Embora essenciais, esses temas, às vezes, encobrem um fator ainda mais decisivo: a necessidade de estruturar a base industrial e tecnológica capaz de sustentar a próxima fase da transição energética. Nesse cenário, a expertise brasileira de projetar, fabricar e integrar sistemas assume um lugar central na consolidação da nova geração de biorrefinarias.
 
Pensar o setor para as próximas décadas exige ir além da simples expansão de volume no campo. O verdadeiro desafio é construir uma lógica produtiva focada no aproveitamento integral da biomassa e no desenvolvimento de derivados de maior valor agregado. 

Mais do que abundância de recursos agrícolas, esse progresso requer automação de processos, eficiência operacional, digitalização e inteligência técnica para transformar insumos naturais em alternativas altamente competitivas no mercado internacional. É justamente nesse aspecto que o Brasil demonstra uma de suas principais fortalezas.

Essa transição parte de uma vantagem edificada ao longo de décadas: o País não desenvolveu apenas uma indústria de biocombustíveis potente, mas um conjunto de competências capaz de traduzir conhecimento em projetos complexos.

Esse aprendizado, construído inicialmente a partir da cadeia sucroenergética, hoje contempla um universo muito maior. O alcance do etanol de milho, por exemplo, representa a evolução natural dessa bagagem e não uma ruptura no legado do setor. 

Assim, diferentes rotas produtivas passam a coexistir e fortalecem o conceito de biorrefinaria, criando novas oportunidades de inovação. Da mesma forma, o crescimento do biometano, do SAF, do etanol de segunda geração, da captura e armazenamento de carbono (BECCS) e de outros bioprodutos amplia o horizonte da bioeconomia brasileira. 

Embora tenham características próprias, todas essas frentes possuem um ponto em comum: dependem de conhecimento, integração tecnológica e capacidade de transformar pesquisa e experiência em aplicações industriais escaláveis e competitivas.

Ainda existem tecnologias proprietárias e determinados componentes que demandam cooperação internacional. O obstáculo, porém, não está em substituir essa interação, mas em ampliar continuamente o conteúdo tecnológico nacional, fortalecer a engenharia brasileira e valorizar os projetos desenvolvidos no País.

Nesse cenário, o CEISE Br atua como articulador de uma rede de fabricantes, empresas de engenharia, integradores de sistemas, instituições de pesquisa, universidades, entidades setoriais afins e poder público. Afinal, a inovação acontece de forma colaborativa. Nenhuma organização constrói, isoladamente, o futuro da bioenergia. 

Essa mesma perspectiva orienta o trabalho da CPL Bioenergia, reconhecida pelo programa SP Produz, do Governo do Estado de São Paulo. O cluster reúne um dos mais relevantes ecossistemas produtivos do País, conectando 16 municípios e aproximadamente 18,6 mil empresas que movimentam cerca de R$ 41,2 bilhões por ano e geram mais de 109 mil empregos. É um ambiente em que conhecimento técnico, capacidade produtiva e inovação convergem para gerar soluções capazes de atender a projetos turn-key para plataformas bioindustriais de nova geração, tanto no mercado nacional quanto internacional. 

A relevância dessa estrutura se reflete diretamente nos indicadores. Com um volume de aproximadamente 36 bilhões de litros de etanol na safra 2025/2026, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia – UNICA, o País reafirma sua posição de destaque no suprimento global de energia renovável.

Esse dinamismo ganha novo impulso com a determinação do Conselho Nacional de Política Energética – CNPE, de elevar para 32% (E32) a mistura obrigatória do anidro à gasolina. A medida deve adicionar cerca de 1 bilhão de litros por ano à demanda interna, reduzindo substancialmente a dependência de combustíveis fósseis importados, conforme apontam as projeções do Ministério de Minas e Energia.

Somam-se a esse cenário marcos regulatórios, como a Lei do Combustível do Futuro, que ampliam a previsibilidade para investimentos de longo prazo e estimulam a implantação de novas unidades, a modernização das existentes e a diversificação das rotas produtivas. Para a cadeia fornecedora, esse movimento representa mais do que crescimento de mercado: reforça seu papel como parceira estratégica na construção de uma bioenergia mais eficiente, competitiva e sustentável.

A visão da Bioenergia 2050 abre uma oportunidade histórica para o Brasil elevar seu patamar na diplomacia econômica e energética global. O País reúne vantagens que poucos concorrentes possuem: disponibilidade de matéria-prima, know-how técnico e operacional e um ecossistema produtivo maduro.

O desafio, agora, é converter esses ativos em liderança efetiva. Por meio de um esforço coletivo – suportado por políticas públicas assertivas, compatíveis com a realidade do nosso setor –, que vise fortalecer a inovação e ampliar a competitividade nacional, o Brasil terá condições para se firmar não apenas como um grande produtor e exportador de energia limpa, mas como a principal referência em tecnologia, engenharia e soluções completas para a bioeconomia mundial.