O Brasil convive, há décadas, com uma contradição que se aprofunda a cada safra, a cada crise climática, a cada oscilação de mercado e a cada ciclo político: de um lado, o país real, que planta, colhe, produz, exporta, emprega e sustenta parcela expressiva da economia nacional; de outro, o país das decisões centralizadas, muitas vezes distante da realidade concreta vivida no campo. É a distância entre o Brasil de Brasília e o Brasil do Campo — uma separação não apenas geográfica, mas sobretudo política, econômica e estratégica.
Enquanto nos gabinetes da capital federal se sucedem debates de curto prazo, disputas orçamentárias e contingenciamentos que comprometem a previsibilidade das políticas públicas, no interior do País produtores rurais enfrentam desafios imediatos e permanentes: juros elevados, crédito restrito, insegurança climática, custos crescentes de produção, gargalos logísticos e ausência de uma visão nacional de longo prazo para o setor agropecuário. O resultado é um cenário de insegurança para quem produz e de perda de competitividade para o Brasil.
O setor agropecuário brasileiro não pode continuar sendo tratado apenas como solução emergencial para equilibrar contas externas, sustentar o PIB ou amortecer crises econômicas. O agro precisa ser entendido como um eixo estruturante do projeto nacional de desenvolvimento.
Isso exige mais do que discursos de ocasião ou medidas pontuais anunciadas a cada Plano Safra. Exige a construção de um verdadeiro Projeto Brasil, sólido, plurianual e blindado das oscilações político-eleitorais.
É preciso reconhecer que o campo brasileiro é heterogêneo. Convive nele a agricultura altamente tecnificada e integrada aos mercados globais com a pequena produção rural, que responde por parcela significativa do abastecimento interno, da geração de empregos e da permanência das famílias no interior. São justamente os pequenos e médios produtores, maioria numérica no País, que hoje sofrem de forma mais aguda os efeitos das altas taxas de juros e do endividamento crescente e são aqueles que garantem a segurança alimentar.
Nos últimos anos, muitos desses produtores foram empurrados para uma situação financeira delicada. A elevação do custo do crédito, somada ao aumento dos preços de insumos, à volatilidade cambial e aos impactos climáticos severos, comprometeu a capacidade de investimento e até mesmo de manutenção da atividade produtiva. Em muitas regiões, o produtor rural já não luta para expandir; luta para sobreviver.
Por isso, o primeiro pilar de um projeto de longo prazo para o agro brasileiro deve ser a previsibilidade dos recursos públicos, com orçamento assegurado e não sujeito a contingenciamentos.
Não é razoável que programas essenciais ao crédito rural, ao seguro agrícola, à pesquisa e à assistência técnica fiquem reféns de cortes fiscais repentinos. O campo trabalha com planejamento de meses e anos. Plantio, manejo, colheita, comercialização e investimento em tecnologia exigem horizonte claro. Não há produção eficiente quando a política pública opera na lógica da improvisação.
O crédito rural, nesse contexto, precisa deixar de ser apenas uma ferramenta de financiamento sazonal. Taxas compatíveis com a realidade do produtor, especialmente do pequeno e médio agricultor, são fundamentais. Juros elevados transformam o crédito, que deveria ser instrumento de crescimento, em fator de endividamento crônico. O resultado é um ciclo perverso: o produtor toma recursos para custear a safra, enfrenta margens apertadas, sofre com clima ou mercado, não consegue honrar os compromissos e inicia a próxima temporada ainda mais fragilizado.
Outro eixo indispensável é o fortalecimento do seguro rural em condições acessíveis. Não há agro moderno sem gestão de risco. Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais evidentes, secas prolongadas, geadas fora de época, excesso de chuvas e eventos extremos deixaram de ser exceção para se tornarem parte do planejamento da atividade. O produtor não pode continuar exposto sozinho a riscos sistêmicos dessa magnitude.
O seguro rural precisa ser ampliado, subsidiado de forma estável e desenhado para atender principalmente ao pequeno produtor, que hoje frequentemente encontra barreiras de custo e cobertura. Sem esse instrumento, uma única perda de safra pode significar o encerramento de uma atividade construída ao longo de gerações. Mais do que proteção individual, trata-se de segurança alimentar, estabilidade econômica regional e preservação da capacidade produtiva nacional.
Ao mesmo tempo, o País precisa avançar em programas de fomento às cadeias produtivas, com olhar regionalizado, criterioso e cuidadoso, e com foco na agregação de valor. O Brasil não pode se limitar ao papel de grande fornecedor de commodities. É preciso estimular a agroindustrialização, a diversificação produtiva e a integração entre produção primária, indústria, logística e mercados consumidores. Cada cadeia — grãos, pecuária, leite, frutas, café, cana, hortifrúti, fibras, florestas plantadas — demanda políticas específicas, articuladas com infraestrutura, armazenagem, energia, conectividade e qualificação profissional. Um projeto nacional para o agro não se resume ao crédito: ele precisa contemplar toda a jornada da produção ao mercado.
Nesse sentido, ganha centralidade o investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica. O sucesso histórico do agro brasileiro sempre esteve ligado à ciência. A tropicalização de culturas, o avanço genético, a mecanização, a agricultura de precisão, a biotecnologia e o manejo sustentável são frutos de décadas de pesquisa. No entanto, a continuidade desse processo depende de financiamento permanente e visão estratégica.
A tecnologia no campo não deve ser vista como privilégio de grandes propriedades, mas como instrumento de democratização da produtividade. Irrigação eficiente, sensores, conectividade, genética, manejo inteligente de solo e sistemas integrados podem elevar a renda do pequeno produtor, reduzir perdas e aumentar a sustentabilidade ambiental.
E aqui reside um ponto central: a construção de um projeto de longo prazo para o agro é, antes de tudo, um projeto de país. O Brasil não será plenamente desenvolvido sem integrar sua vocação produtiva a uma estratégia nacional consistente. Isso significa romper a lógica da descontinuidade administrativa, em que cada governo reinicia prioridades e reescreve políticas sem continuidade institucional.
O Brasil de Brasília precisa ouvir mais o Brasil do Campo. Precisa compreender que o produtor rural não pede privilégios, mas condições mínimas de previsibilidade para trabalhar. O que está em jogo não é apenas a rentabilidade do setor, mas a segurança alimentar, o equilíbrio da balança comercial, a geração de empregos e o desenvolvimento regional.
A distância entre os dois Brasis só será reduzida quando a política pública deixar de tratar o agro como pauta circunstancial e passar a reconhecê-lo como política de Estado. O País precisa decidir se continuará administrando crises, safra após safra, ou se terá coragem de construir, finalmente, um horizonte de décadas.
O campo brasileiro já demonstrou sua capacidade de produzir, inovar e sustentar a economia. Falta ao Brasil institucional fazer a sua parte: planejar, investir e garantir estabilidade. Um projeto Brasil para o agro não é apenas desejável. É urgente, estratégico e indispensável para o futuro da nação.