Me chame no WhatsApp Agora!

Luiz Carlos Corrêa Carvalho, Caio

Diretor da Canaplan

OpAA88

O etanol sai de um olhar sobre agronegócio e se torna estratégia global
A busca por energia é a
busca pela sobrevivência.”
Daniel Yiergin

Globalmente, os combustíveis fósseis representam cerca de 86% da matriz energética global, com o petróleo perdendo um pouco do seu peso nela (+ 1/3), mas liderando os tipos de energias consumidas; o gás natural cresceu (hoje é 1/4 do total consumido), e a demanda do carvão mineral subiu (+1%) com China e Índia puxando. O novo, mais visível, é na matriz elétrica onde os renováveis representam cerca de 1/3 do total demandado e a energia nuclear 8%, ambos performando 80% do crescimento da geração elétrica global. No Brasil, 50% da matriz energética é renovável e quase 90% da matriz elétrica é renovável.
 
Estrela global no tema energia, Daniel Yergin posiciona o petróleo não só como energia, mas como instrumento geopolítico. Naturalmente afloram os seus derivados – gasolina e diesel – e os biocombustíveis que o complementam ou substituem – etanol e biodiesel.

Essa lógica, cada vez mais atraente em um mundo que busca soluções aos combustíveis fósseis, também no momento vivido reforça a energia definindo o poder, mas o petróleo está novamente moldando a guerra.

Isso se clareia em 1973 (embargo do petróleo na Guerra Yom Kippur, gerando o 1º choque do petróleo), reacende em 1979 com a revolução iraniana (2º choque do petróleo), volta à cena entre 1980 e 1988 com a Guerra Irã-Iraque (busca de hegemonia). Em 2003, retorna com a Guerra do Iraque, seguido anos depois (2011) com a Primavera Árabe e a guerra civil na Síria; entre 2014 e 2019 o terrorismo do ISIS (Estado Islâmico), e já em 2019 com tensões no Estreito de Ormuz. Entre 2023 e 2026 caminham a guerra de Israel com blocos terroristas ligados ao Irã (Hammas, Hezbollah, Houthis) e a atual guerra com EUA, Israel e Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz novamente.

Foi no 1º Choque do Petróleo que o Brasil sofreu de forma crítica, com sua Balança de Pagamentos. Surgiu o etanol, na esteira do Proálcool (1975) que mostrou evolução no desenvolvimento de motores do Ciclo Otto e que o tornou protagonista em soluções (etanol anidro substituindo o chumbo tetraetila, e o hidratado substituindo a gasolina). Ou seja, 50 anos depois as coisas se repetem com motivações um pouco diferentes:
a) Primeiro na América Latina, os EUA capturam
Maduro e esposa e fecham a torneira do petróleo venezuelano à China (vendido com grande desconto aos chineses);
b) Em seguida, tenta-se fechar a torneira do petróleo do Irã à China (mesmo motivo). Os ataques estariam justificados pelo perigoso perfil de elaboração de artefato nuclear pelo Irã;
c) EUA e Israel e ataques ao Irã e aos países “amigos” do Irã, via grupos terroristas citados, até o ponto em que a geografia do Irã assume a estratégia geopolítica com o Estreito de Ormuz, como feito antes... além disso com ataques do Irã a outros países árabes.

Nessa longa e repetitiva história, o Brasil, via Petrobras, faz e muda (refaz) a política de preços dos combustíveis, após o impressionante resultado, no período acima citado (50 anos), de país importador a exportador de petróleo.

A política mudou novamente no Governo Lula 3, de preços acompanhando o mercado internacional para, agora, maquiagem com redução de impostos, e outras mágicas para não acompanhar o mercado internacional. O fato é que chegou a faltar diesel em muitos locais e, ainda, uma “caça ao Posto” com preços mudados como no Governo Sarney se caçou gado nos pastos...

Tão logo os EUA anunciam com Israel uma pressão assustadora sobre o Irã, a arma principal desse país surge: fechamento do Estreito de Ormuz. As lições aprendidas (ou talvez ainda não) indicam, em síntese, que pontos de estrangulamento (os Estreitos) não são somente geografia. São também instrumentos de poder.

Durante esse momento, no tradicional evento CERAWeek 2026, realizado nos EUA, percebeu-se um olhar externo diferente para o Brasil. Afinal, o etanol substitui 45% da gasolina no Brasil e será ainda maior pelo potencial enorme da soma da cana-de-açúcar e do milho no crescimento da oferta de biocombustível e de alimentos. Essa integração deve se reforçar na medida em que essa guerra no Oriente Médio arrebenta a logística para importadores e muitos com enorme dependência dessa energia (e o Brasil com a bruta dependência de fertilizantes daquela região do planeta).
 
Um olhar mais profundo à atual guerra no Oriente Médio (que levou quase todos a esquecer a guerra Rússia-Ucrânia) mostra parceiros (EUA e Israel) com focos diferentes, e as consequências são aquelas que se viu 50 anos atrás. No entanto, há diferenças essenciais:
a) Na década de 1970, o petróleo representava quase 52% na matriz energética global; hoje é +1/3 dela;
b) Há uma relação forte entre a energia e os preços dos alimentos principalmente quando produtos agrícolas geraram biocombustíveis. No entanto, no momento, o impacto do aumento de alimentos não seguiu o petróleo pois há excelentes estoques de cereais no mundo;
c) A atual crise gera instabilidade global e local, pressiona empresas e governos e traz impactos como a reorganização das cadeias produtivas, reforça a importância dos renováveis na transição energética (que vinha sendo reduzida) e faz reviver a relevância de políticas de Estado aos combustíveis, não remendos criativos eleitorais.
 
Como salientado por Murilo de Aragão (O fim da Nova República, Veja, fev/26): “no Brasil, construir consenso entre os Poderes (da República) é preciso, com a intermediação da pressão da sociedade civil e pelo imperativo eleitoral. O desafio reside em encontrar esse equilíbrio antes que a erosão se torne irreversível.”  
 
Sem isso, será muito difícil a mudança dos rumos e o posicionamento protagonista do Brasil em alimentos e energias, em uma realidade geopolítica global sem a relevância das instituições globais, com extremadas posições ideológicas e religiosas, com constantes ameaças de uso de força e sanções em um desenvolvimento tecnológico com menos empregos e redução nas democracias pelo mundo.

Em momentos como o atual, novas tecnologias encontram espaço pela realidade estratégica proporcionada pela geopolítica. Os EUA se encaminham para 15% de etanol na gasolina, assim como a Argentina; a Índia caminha para 20% olhando para os 32% do Brasil (mistura); e outros países asiáticos buscam o mesmo. Ao mesmo tempo, frotas de navios se preparam para o etanol, e o SAF (combustível de aviação com biocombustíveis) deve sair do “papel” para uma escala global.

O fato é que a energia volta ao centro da história nesse conflito atual. Essas tensões abrem novos espaços para alternativas como o etanol, que sai de um olhar sobre agronegócio e se torna estratégia global.