Coordenador do Núcleo de Bioenergia e no Centro de Agronegócio da FGV. Diretor de Inteligência Estratégica da Unica
A história começa com uma gramínea tropical e
está sendo redesenhada pela combinação com outra.
O Brasil está vivendo uma nova revolução do etanol. Ela acontece na otimização das plantas de cana-de-açúcar e no silêncio das terras planas do Centro-Oeste, dentro de silos de grãos que agora alimentam destilarias, e em mapas que mostram usinas brotando em lugares onde, há dez anos, ninguém apostaria uma safra. A história começa com uma gramínea tropical e está sendo redesenhada por outra.
Cana-de-açúcar e milho compartilham um segredo fisiológico: o metabolismo fotossintético C4 — uma estratégia bioquímica que lhes permite converter energia solar em biomassa com eficiência significativamente superior à das culturas C3, como soja, trigo e arroz. Para o leigo, a tradução é direta: elas produzem mais matéria orgânica por hectare, com menor desperdício de água e energia. Para o negócio da bioenergia, isso significa competitividade estrutural que culturas, como a beterraba açucareira europeia simplesmente, não conseguem replicar. É aqui que a semelhança termina e a divergência começa a moldar territórios.
A cana-de-açúcar encontrou no Brasil um dos poucos ambientes edafoclimáticos do planeta verdadeiramente ideais para seu desenvolvimento. As regiões tropicais e subtropicais de cultivo no País reúnem uma combinação rara: alta disponibilidade hídrica e temperaturas elevadas durante o período de crescimento vegetativo, seguidas por uma fase mais seca e amena que favorece a concentração de açúcares antes da colheita.
Essa sequência — úmido para crescer, seco para amadurecer — não é encontrada em qualquer lugar. O Centro-Oeste americano não a tem. A Europa não a tem. O Sudeste Asiático a tem de forma parcial. Por isso, a cana não é uma cultura verdadeiramente global: ela é radicalmente competitiva justamente onde essas condições existem. E o Brasil as tem em abundância.
O milho segue uma lógica inversa. Sua genética foi domesticada e adaptada durante milênios para funcionar em diferentes climas e latitudes. Mas foi no Brasil que ele encontrou uma inovação sem paralelo no mundo: a segunda safra em larga escala — a antiga "safrinha". Ao integrar soja e milho no mesmo ano agrícola, o Centro-Oeste e, depois, outras regiões do País, criaram uma oferta crescente de grãos sem necessidade de abrir um único hectare. O que começou como adaptação agronômica regional, tornou-se um dos maiores saltos de produtividade do agronegócio mundial.
A logística continua sendo um dos principais pontos de fricção do agronegócio brasileiro — e foi ela, paradoxalmente, que catalisou a expansão do etanol de milho. Transportar grãos de Sorriso ou Sinop até o Porto de Santos custa caro e depende de rodovias congestionadas e de uma malha ferroviária ainda insuficiente. Industrializar o milho localmente, transformando-o em etanol e em proteína animal na forma de DDG — os grãos secos de destilaria —, passou a fazer sentido econômico. As usinas flex, capazes de processar tanto cana quanto milho, ou exclusivamente voltadas ao grão, começaram a surgir no Centro-Oeste há menos de dez anos.
Hoje elas já respondem por quase 30% da produção nacional de etanol. O mapa mostrado a seguir que emerge desse processo é revelador. As novas unidades produtivas estão fortemente concentradas no Centro-Oeste — Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul — e avançam, especialmente, sobre o oeste de Minas Gerais, o Matopiba e, potencialmente, o Sul do País.
INCREMENTO DA CAPACIDADE DE PRODUÇÃO DE ETANOL NO BRASIL - ENTRE 2019 E 2026
Por capacidade metros cúbicos por dia, período da instalação da Unidade produtora e a matéria-prima utilizada na produção do etanol.
Essa distribuição não é aleatória: ela coincide com as regiões de maior produção de milho, evidenciando a consolidação de um novo eixo de expansão baseado em lógica distinta da que criou o parque industrial paulista. São Paulo continua sendo o principal produtor de etanol do País, com infraestrutura madura, tecnologia de ponta e escala sem paralelo. Mas sua participação relativa no total nacional vem diminuindo — não porque São Paulo produza menos, mas porque o restante do País produziu muito mais. A concentração geográfica da produção, que chegou a representar mais de 60% da oferta nacional, cede espaço a um modelo progressivamente mais distribuído, conforme demonstra o gráfico da próxima página.
Para entender por que essa dispersão geográfica é mais do que uma curiosidade cartográfica, é preciso recorrer a um economista que nunca ouviu falar em cana-de-açúcar: Harry Markowitz. Em 1952, o jovem economista americano publicou um artigo no Journal of Finance — "Portfolio Selection" — que mudaria para sempre a forma como o mundo pensa sobre risco.
A ideia central é elegante: um ativo não deve ser avaliado pelo seu risco individual, mas pela sua contribuição ao risco total de um portfólio. Diversificar não é apenas prudência — é matematicamente eficiente. Markowitz recebeu o Nobel de Economia em 1990 por esse insight, que sete décadas depois é trazido aqui para aplicação na dinâmica estrutural de produção de etanol no Brasil.
EVOLUÇÃO DA PRODUÇÃO DE ETANOL (CANA E MILHO) EM CADA ESTADO BRASILEIRO - 1974/1975 a 2025/2026
Bilhões de Litros de Etanol por Safra
Na bioenergia, uma seca, uma geada fora de época ou uma praga que se alastra pode promover variações significativas na oferta e no preço. A solução, como Markowitz previu no contexto financeiro, é distribuir. A Agência Internacional de Energia — criada exatamente após o choque do petróleo de 1973 — consolidou esse princípio de maneira análoga para a energia: a segurança de suprimento exige, entre outros aspectos, a diversificação de fontes.
Um portfólio diversificado de opções energéticas oferece proteção contra incertezas futuras. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 transformou esse argumento teórico em lição dolorosa para a Europa, que havia apostado quase tudo no gás natural de um único fornecedor. A guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz replicam cenário semelhante. O Brasil, guiado em boa medida pela lógica do mercado, parece estar seguindo o caminho certo.
A tentação de colocar cana e milho em lados opostos de uma disputa é compreensível, mas equivocada. Os dois sistemas produtivos têm vocações distintas e, quando combinados, se fortalecem mutuamente. A cana oferece vantagens que o milho simplesmente não consegue replicar. O bagaço — subproduto do processamento — alimenta caldeiras e turbinas que movem toda a usina, com sobra de eletricidade para vender à rede. Essa autossuficiência energética confere ao etanol de cana uma intensidade de carbono dramaticamente baixa em comparação com qualquer concorrente fóssil — e também com o etanol de milho americano, que depende de gás natural no processo industrial.
A cana ainda oferece outra vantagem singular: a flexibilidade entre açúcar e etanol. Quando o preço do açúcar sobe no mercado internacional, a usina redireciona parte da moagem, facilitando o gerenciamento de risco de preço. Esse mecanismo interno é, na linguagem de Markowitz, um hedging estrutural incorporado à própria biologia do negócio.
Mas a cana tem limites. É perecível — não pode ser armazenada após o corte. Exige processamento imediato e coordenação logística milimétrica entre campo e indústria durante os meses da safra. Pesa muito, custa caro para transportar e não vai longe, o que a aprisiona geograficamente às regiões onde pode crescer com competitividade. O milho opera de forma quase oposta. O grão pode ser armazenado por meses em silos, transportado por centenas de quilômetros e processado ao longo do ano inteiro, sem a espada temporal da safra. Isso confere às destilarias de milho uma previsibilidade operacional que as usinas de cana não têm.
A produtividade do milho por hectare vem crescendo de forma consistente há décadas, sustentada por avanços genéticos e tecnológicos que ainda têm muito espaço para evoluir. O DDG, coproduto de alto valor proteico muito demandado pela indústria de carnes, adiciona uma fonte relevante de receita ao negócio.
O ponto fraco, porém, é simétrico ao ponto forte da cana: as plantas precisam de fontes externas de biomassa para o processo térmico, o que pode complicar a equação de carbono e eleva custos, enquanto a viabilidade econômica fica parcialmente refém do preço do DDG. Nenhum dos dois sistemas, isolado, é perfeito. Juntos, eles cobrem as fraquezas um do outro.
O que está acontecendo na geografia da bioenergia brasileira é uma transformação estrutural — descentralizada, guiada por sinais de mercado mais do que por política pública explícita. Nos anos do Proálcool, nas décadas de 1970 e 1980, a produção de etanol era praticamente sinônimo de São Paulo, com uma concentração que beirava o monopólio estadual. A partir dos anos 2000, o Centro-Oeste começa a surgir no mapa, inicialmente como extensão da fronteira canavieira — Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul ganham relevância, junto com Minas Gerais e o Oeste Paulista.
A expansão da frota de veículos flex-fuel, hoje tecnologia majoritária nos automóveis licenciados no País, cria demanda suficiente para justificar investimentos em novas regiões. Nos anos mais recentes, o salto qualitativo vem do milho.
Mato Grosso, que praticamente não existia no mapa do etanol há dez anos, emerge como um dos vetores mais dinâmicos do crescimento recente da oferta — com modelo agroindustrial distinto, players diferentes, integração com cadeias de proteína animal e uma lógica que já começa a ser replicada em outras regiões do País.
O resultado é um sistema mais equilibrado, mais resiliente e mais complexo. São Paulo continua sendo o coração do setor, com tecnologia, infraestrutura e escala que nenhum outro estado consegue replicar no curto prazo. Mas agora o coração bate junto com outros órgãos — e o organismo, como um todo, é estruturalmente mais saudável.
A expansão do etanol de milho, a descentralização geográfica da produção canavieira, a multiplicação de modelos agroindustriais — cana pura, milho puro, flex — são respostas intuitivas e racionais à lição de Markowitz. Não há nenhum plano mestre. Não há documento governamental que tenha planejado esse redesenho. Ele emergiu da interação entre disponibilidade de matéria-prima, incentivos econômicos, desafios logísticos e oportunidades de mercado.
E isso, curiosamente, o torna mais robusto – porque não depende de um único tomador de decisão para funcionar. Exige, contudo, esforço para garantir uma produção sustentável – independente da matéria-prima – e políticas públicas que sustentem um ambiente de negócios adequado à interiorização do desenvolvimento do País.
Entre a cana e o milho, o Brasil está construindo, talvez sem perceber, a matriz de bioenergia mais robusta e diversificada do mundo. Duas gramíneas unidas pela mesma física fotossintética e separadas por tudo o mais – e é exatamente essa diferença que as torna, juntas, tão poderosas. O Brasil não escolheu entre a cana e o milho. Escolheu os dois. E essa escolha se mostra cada vez mais surpreendente.