Discutir a ocorrência ou gravidade das mudanças climáticas, para mim, é ineficaz; havendo ou não mudança no clima, a responsabilidade no uso dos recursos naturais de forma a preservá-los para as futuras gerações, sim, está em nossas mãos e deve receber nossa total atenção.
Neste sentido, basta entender que o planeta Terra é um só, não está expandindo e nele está nosso futuro, temos a necessidade e obrigação de praticar a agricultura regenerativa. Voluntariamente ou por necessidade, o setor bioenergético já pratica, há muito tempo, este sistema, inclusive pelas rígidas normas ambientais a que está sujeita a agricultura brasileira, e vem num crescente de adoção.
A vinhaça da década de 60, onde o despejo em rios era considerado normal, evoluiu para a fertirrigação e aplicação localizada praticamente na área total das empresas. Agora mais, com adição de bioinsumos e complementos nutricionais de forma precisa.
A evolução do modelo é notável: de despejo indesejável em rios para utilização técnica com controle rigoroso de doses, aditivos e uso intensivo.
O controle da broca da cana (diatraea) com o uso da vespa Cotésia é, desde os anos 80, mundialmente um dos mais bem sucedidos programas de controle biológico de pragas. A colheita mecânica sem queima, inicialmente um desastre para quem não tinha se preparado corretamente, ao final se tornou o pilar de nossa sustentabilidade.
A palha e seu microclima proporcionam uma preservação da biota do solo, e já há um incremento comprovado na produtividade em áreas sob colheita crua. Paralelamente, o cultivo mínimo, a rotação de culturas com soja e amendoim e a adubação verde são práticas que hoje fazem parte do dia a dia das empresas. Lentamente, as grades e arados perdem importância e vão sendo substituídos pelo cultivo mínimo. Este modelo é mais fácil de operar e é parte central da agricultura regenerativa.
Novos desafios surgem, pois não apenas os bons organismos são favorecidos. Outras pragas e doenças passam a ganhar relevância, mas daí a beleza da coisa. Já temos consciência que produtos naturais como bioinseticidas e inimigos naturais conseguem controlar boa parte desses novos ataques. A consciência se conquista com resultados efetivos.
A forma com que eu vejo é muito simples: ande para a frente, o caminho já está traçado, as rotas já são conhecidas. Em primeiro lugar, avalie sua situação: o que minha empresa já pratica? Se hoje aplico vinhaça de canhão, seja caminhão, seja canal, já controlo de fato a vazão? Tenho mapeadas as esticadas da mangueira do rolão? Já comecei com caminhão/trator localizado? Mas o caminhão tem GPS? Consigo adicionar fertilizante no carregamento? O quanto de adubo já estou substituindo? Vá construindo seu próprio caminho.
O mesmo para torta de filtro, como eu uso atualmente? São essas perguntas que nos fazem refletir sobre o uso das técnicas já existentes. Não precisa discutir muito, já são conhecidas como boas práticas, basta adotá-las paulatinamente. Ou seja, os conceitos utilizados na agricultura regenerativa não são novos, são conhecidos e consolidados na agronomia, nas boas práticas agrícolas, na agricultura conservacionista, por exemplo, encontradas nos livros de agronomia nos anos 80. Ocorre que as pessoas têm orçamentos e outras distrações para atender e acabam usando as técnicas por um tempo e depois deixam cair em desuso. Estamos falando em solos de milhões de anos para sua formação e não vamos conseguir mudar nada se não perseverarmos em nossas convicções.
Depois disso tudo, há hoje uma gama enorme de bioinsumos disponíveis para uso concomitante com as práticas conservacionistas e que tem ajudado muito, como nanopartículas orgânicas que aumentam a eficácia dos produtos aplicados; como ativadores de defesas da planta que as protege contra efeitos de veranicos; como os enriquecedores de solos feito com microrganismos das matas locais; como o carvão vegetal melhorador dos solos; uma diversidade de microrganismos para a proteção de cultivos; estes são apenas alguns exemplos.
Todo agricultor é o maior interessado em regenerar e melhorar a fertilidade do seu solo, a sua capacidade de produzir. E adota esses conceitos na medida que os conhece e que consegue viabilizar suas aplicações.