No mundo estão catalogadas mais de 100 doenças em cana-de-açúcar, embora as mais importantes sejam cerca de 10 em cada país, num dado momento. Historicamente, elas foram muito importantes como fatores de restrição ao bom desenvolvimento dessa cultura e, ao mesmo tempo, para a evolução científica e tecnológica do setor ao desafiar os cientistas para desenvolverem métodos eficazes de controle.
Neste aspecto, o desafio maior secularmente tem sido a criação de variedades resistentes ou tolerantes através do melhoramento genético. Aliás, esta atividade surgiu mesmo pela necessidade imposta por sérias doenças há mais de um século e segue sendo um dos objetivos maiores dos programas mundiais de melhoramento genético dessa cultura.
Apesar do constante esforço dos geneticistas em criar variedades resistentes, as doenças são muito resilientes e sempre teimam em aparecer nas lavouras, em forma endêmica, com certo dano, e outras em forma epidêmica, de efeito impactante. Dessa forma, além do esforço da pesquisa, que, aliás, sempre respondeu à altura, não se pode prescindir de medidas preventivas ou mesmo de controle direto durante a condução da lavoura.
Vale aqui fazer um breve histórico de doenças que tiveram grande impacto na cultura canavieira mundial e, mais especificamente, no Brasil. Instigados por uma séria doença que afetava os canaviais em Java, hoje Indonésia, os geneticistas pioneiramente visualizaram que uma medida necessária seria a criação de híbridos resistentes. Isso aconteceu ainda antes do final do século 19, portanto quase 150 anos passados.
De 25 a 30 anos depois de um resiliente trabalho surgiram os primeiros híbridos comerciais, e esse modelo serviu de modelo para outros programas que surgiram subsequentemente nos principais centros açucareiros do mundo. Apenas de passagem vale mencionar que simultaneamente já existiam alguns outros centros realizando trabalhos semelhantes como, por exemplo, em Barbados, e, no Brasil, amadores criaram as primeiras variedades brasileiras a partir de sementes coletadas no campo. O leitor encontrará detalhes dessa história nos vários livros (ou capítulos de livros) relacionados ao tema, inclusive num recente deste autor.
Quando os novos híbridos de Java estavam sendo amplamente distribuídos a outros centros canavieiros do mundo, descobriu-se que uma outra doença estava sendo disseminada, o Mosaico, causada por um vírus. Essa doença causou prejuízo enorme, o maior da história canavieira. Novos híbridos resistentes de Java e da Índia passaram a ser rapidamente distribuídos e, associando-se a produção de viveiros de mudas saneadas, como também com híbridos resistentes de outros países, conseguiu-se debelar o mal.
Surgiu, então, uma outra doença: o Carvão, um fungo que se disseminou em vários países, chegando ao Brasil na década de 40 do século passado, e em vários países das Américas a partir de meados da década de 70. Apesar dessa epidemia mundial ter causado grande alarde, não se tem notícia de perdas diretas significativas, a não ser a necessidade de substituição varietal (que sempre causa inicialmente um impacto negativo), exceto perdas pontuais em alguns canaviais no Centro-Sul brasileiro, onde havia a predominância da variedade NA56-79. Este autor especula que o controle do Carvão, especialmente em São Paulo, causou mais perda indireta do que a própria doença (vide o livro recente anteriormente mencionado).
Ao final dessa década uma outra doença fúngica chegou às Américas, a Ferrugem Marrom, e, ao Brasil, na segunda metade da década de 80. Variedades suscetíveis tiveram de ser rapidamente substituídas por outras parcial ou totalmente resistentes. Por fim, um outro fungo se disseminou no mundo na primeira década deste século, a Ferrugem Alaranjada, que chegou ao Brasil ao final daquela mesma década. Também o recurso foi a substituição de variedades.
Os exemplos acima comprovam a importância das doenças e a necessidade de contínua produção de novas variedades. Felizmente no Brasil contamos com diversos programas de melhoramento, assim garantindo que em eventuais epidemias o setor possa contar com esse recurso de substituição varietal forçada. Porém, ainda temos as doenças endêmicas. Aquelas duas ferrugens são hoje endêmicas e existem outras que também sempre causam danos.
A escaldadura-das-folhas é uma doença muito danosa, mas tem sido bem controlada através de variedades resistentes. Outras são a Podridão Vermelha propriamente dita (Colletorichum falcatum) e, outra muito comum, a Podridão de Fusarium, que igualmente causa avermelhamento do colmo, internamente. Esta geralmente está associada à broca, e a primeira pode ou não ter essa associação. Inclusive, o agente causal da primeira, o Colletorichum, foi recentemente identificado como o causador de uma murcha que tem afetado bastante alguns canaviais.
Também existe o Raquitismo-da-soqueira, uma doença traiçoeira, pois não causa nenhum sintoma externo, mas prejudica a planta sistemicamente. É uma bactéria que se reproduz e se acumula nos vasos do xilema, causando oclusão, e assim impedindo o fluxo normal da seiva. Com isso, resulta baixo fluxo de seiva nutricional para as folhas, prejudicando consequentemente a fotossíntese. Variedades muito suscetíveis são inviabilizadas para cultivo, e, nas demais, o controle se faz pela produção de mudas sadias, prática que é adotada por muitos produtores, ainda que em nível insuficiente.
Ainda uma outra doença bacteriana que tem afetado canaviais de algumas variedades é a Estrias vermelhas, cujo controle só pode ser feito por variedades resistentes; uma doença muito semelhante a esta é a Falsa Estrias Vermelhas. Outras doenças que podem eventualmente causar algum dano são, por exemplo, o Pokkah Boeng, causado também pelo Fusarium, a Mancha Parda, a Mancha Ocular, a Mancha Anelar, entre outras.
No dia a dia das lides na lavoura, uma dificuldade presente é a correta identificação de doenças, ainda mais que os sintomas podem ser confundidos, inclusive com os de outras anomalias, sejam elas nutricionais, de toxicidade de produtos químicos, de efeito ambiental e genéticos. Para auxiliar nessa tarefa, este autor lançará brevemente um “Guia de identificação de doenças da cana-de-açúcar”.