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Carlos Daniel Berro Filho

Gerente Executivo de Agronomia da CTC - Centro de Tecnologia Canavieira

AsAA26

A evolução da agricultura regenerativa
A agricultura regenerativa na cana-de-açúcar tem construído sistemas cada vez mais produtivos, resilientes e sustentáveis, capazes de utilizar melhor os recursos disponíveis e preservar a capacidade produtiva do ambiente para as próximas gerações, como resultado da integração crescente de tecnologias aplicadas.
 
A circularidade é um grande diferencial, além da produção de açúcar, etanol e energia, os subprodutos retornam ao campo como insumos. Vinhaça e torta-de-filtro, somadas a subprodutos orgânicos de outras cadeias (estercos e resíduos), reciclam nutrientes, aumentam o aporte de matéria orgânica e eliminam desperdícios.
 
A rotação de culturas como soja, amendoim, crotalárias, braquiária, milheto e mix de plantas protege o solo, produz biomassa, favorece a ciclagem de nutrientes, incrementa matéria orgânica, estimula a atividade biológica e contribui para a construção de perfis mais férteis e estruturados, gerando melhor aeração, infiltração e armazenamento de água, maior resistência a processos erosivos e favorecendo o aprofundamento radicular, tornando o sistema mais resiliente às variações climáticas, sustentável e produtivo.
 
O preparo de solo localizado, associado à manutenção da fertilidade ao longo dos cortes e ao tráfego controlado, diminui a necessidade de operações na reforma. Assim, o sistema regenerativo permite avançar cada vez mais na direção do sistema de plantio direto, sobre perfil de solo construído.
 
A diversificação varietal amplia a estabilidade produtiva e reduz vulnerabilidades, genéticas modificadas com tolerância a pragas e glifosato diminuem a necessidade de intervenções e o volume de ingredientes ativos por hectare. O crescimento dos bioinsumos reforça a transição para um agroecossistema mais equilibrado.
 
Na colheita, a sustentabilidade está associada à eficiência operacional, construída através da sistematização das áreas, treinamento das equipes e centrais de inteligência que elevam a produtividade dos equipamentos. Com isso, torna-se possível trabalhar com frotas menores e reduzir combustível e emissões.
 
Olhando para o futuro, a agricultura regenerativa será cada vez mais orientada por dados, inteligência artificial e ferramentas de agricultura digital, chegando a nível de pixel, permitindo decisões mais rápidas e precisas, reduzindo retrabalhos e aumentando a sustentabilidade ambiental e econômica. Novos sistemas de multiplicação, como as sementes sintéticas, variedades mais resilientes e avanços na irrigação contribuirão para elevar a produtividade por unidade de área e reduzir a necessidade de recursos. Na mecanização, os equipamentos movidos a etanol e biometano têm papel de destaque.

A gestão do sistema regenerativo vai além da adoção de tecnologias e práticas capazes de gerar benefícios, deve-se acompanhar sua evolução por meio de indicadores e sistemas de medição: matéria orgânica, infiltração de água, compactação, atividade biológica, produtividade, eficiência no uso de insumos, intensidade de emissões e carbono armazenado no solo devem compor uma visão objetiva da evolução do sistema. Todos esses indicadores devem ser monitorados e correlacionados com os ganhos ambientais e financeiros de forma sustentável.

A agricultura regenerativa encontra na cana-de-açúcar um de seus principais exemplos de aplicação em larga escala. Inserida em um sistema produtivo eficiente, circular e regenerativo, a cultura reúne práticas agronômicas sustentáveis, tecnologias, genética, dados e informação para gerar valor, preservar recursos naturais e fortalecer a sustentabilidade ambiental, produtiva, operacional e financeira da produção.

Para que esse modelo evolua continuamente, é fundamental investir na qualificação das pessoas, no gerenciamento e no papel da academia e dos centros de pesquisa na geração contínua de novas tecnologias e conhecimentos. Essa integração é fundamental para ampliar a adoção da agricultura regenerativa e consolidá-la como um sistema produtivo cada vez mais eficiente, sustentável e escalável.