Há mais de três décadas acompanho de perto as transformações da cadeia sucroenergética brasileira. Nesse período, vi a cana-de-açúcar ampliar seu papel na economia nacional, atravessar diferentes ciclos e demonstrar uma capacidade singular de se adaptar às novas demandas do mercado e da sociedade.
Primeiro, o setor consolidou sua relevância na produção de açúcar. Depois, o etanol ganhou escala e passou a ocupar uma posição estratégica na matriz de transportes. Na sequência, avançaram a cogeração de energia elétrica, o aproveitamento do bagaço e da palha, o biogás e, mais recentemente, SAF e BioBunker.
Hoje, estamos diante de uma nova etapa. A usina que conhecemos está se transformando em uma biorrefinaria capaz de utilizar praticamente todos os componentes da matéria-prima para produzir energia, combustíveis, insumos químicos, alimentos, proteínas e outros produtos de maior valor agregado.
Essa mudança não aconteceu de forma repentina. Ela foi resultado de décadas de investimentos em pesquisa, engenharia, processos industriais, qualificação profissional e desenvolvimento tecnológico.
O Brasil não precisa começar do zero. Já temos matéria-prima, conhecimento acumulado, infraestrutura produtiva e uma indústria fornecedora preparada para apoiar essa transformação. O desafio agora é combinar esses ativos para ampliar a eficiência e diversificar as fontes de receita.
Plataforma de moléculas
Durante muito tempo, o etanol foi visto essencialmente como um combustível para veículos leves. Essa aplicação continuará sendo fundamental para a descarbonização do transporte, mas a molécula também pode assumir outras funções.
O etanol pode ser utilizado como matéria-prima para a produção de combustível sustentável de aviação, insumos químicos e hidrogênio de baixo carbono. Pode ainda servir de base para a obtenção de álcoois de cadeia mais longa, como butanol e hexanol, que apresentam diferentes possibilidades de uso energético e industrial.
O butanol, por exemplo, possui maior densidade energética e menor afinidade com a água quando comparado ao etanol. Essas características ampliam suas possibilidades de utilização em misturas com combustíveis, na indústria química e em mercados que ainda não desenvolveram uma estrutura logística tão ampla para o etanol.
O hexanol representa uma fronteira ainda mais recente. Suas rotas de produção continuam em desenvolvimento e precisam avançar em escala, custos e viabilidade comercial. Ainda assim, as pesquisas apontam para uma possibilidade relevante: transformar o etanol em uma plataforma química para a obtenção de produtos que atualmente dependem, em grande parte, de matérias-primas fósseis. Esse é um ponto central para o futuro da bioenergia brasileira. O valor da cana não está concentrado em um único produto, mas na variedade de soluções que pode originar.
Hidrogênio e novas rotas
A mesma lógica aparece nas discussões sobre hidrogênio. O Brasil já desenvolve projetos que utilizam o etanol como matéria-prima para a produção de hidrogênio. Essa rota pode facilitar o transporte e a distribuição do combustível, aproveitando uma cadeia já estruturada no País.
Álcoois como butanol e hexanol também podem, no futuro, integrar esse conjunto de alternativas. Por terem cadeias moleculares maiores, apresentam potencial para fornecer hidrogênio em processos de conversão, embora ainda sejam necessários estudos e avanços tecnológicos para determinar sua viabilidade em escala industrial.
A transição energética exigirá diferentes soluções, adaptadas às características de cada região, mercado e aplicação. Etanol, biometano, biodiesel, SAF, bioeletricidade, hidrogênio e moléculas renováveis podem coexistir dentro de uma estratégia integrada. É essa diversidade que coloca o Brasil em uma posição diferenciada. Temos território, capacidade agrícola, indústria, centros de pesquisa e experiência na produção de biocombustíveis. Também contamos com uma cadeia que aprendeu a aproveitar resíduos e subprodutos, transformando passivos em novas fontes de energia e renda.
O bagaço passou a gerar eletricidade. A vinhaça avança como matéria-prima para o biogás e o biometano. O dióxido de carbono de origem biogênica pode ser capturado e utilizado em diferentes aplicações. A levedura encontra espaço na produção de alimentos e proteínas. A palha amplia a disponibilidade de biomassa para novas rotas industriais. Cada componente pode ter uma destinação produtiva. Essa é a essência da biorrefinaria circular.
Tecnologia, escala e mercado
Apesar do potencial, a transformação das usinas em biorrefinarias depende de condições objetivas. É preciso reduzir custos tecnológicos, viabilizar investimentos, criar mercados consumidores, estabelecer segurança regulatória e aproximar a pesquisa das necessidades industriais.
O desafio raramente está apenas na capacidade de desenvolver uma solução. Ele também envolve produzir em escala, garantir regularidade, atender aos padrões de qualidade e construir uma demanda capaz de sustentar novos projetos.
Nesse processo, a integração da cadeia será decisiva. Produtores, usinas, indústria fornecedora, universidades, centros de pesquisa, investidores e poder público precisam atuar de forma coordenada.
É essa conexão que acompanho todos os anos na Fenasucro & Agrocana. A feira nasceu em Sertãozinho em um período no qual as discussões estavam concentradas em moagem, produtividade e equipamentos industriais. Com o passar do tempo, passou a incorporar automação, digitalização, eficiência energética, gestão ambiental e novas rotas de biocombustíveis na mobilidade de baixo carbono. Ao longo dessas décadas, a evolução da Fenasucro & Agrocana acompanhou a própria evolução da bioenergia brasileira.
Em 2026, a feira volta a reunir empresas, especialistas e profissionais para discutir como a bioeconomia pode avançar em escala. Temas como SAF, biometano, hidrogênio, captura de carbono e eficiência industrial deixaram de ocupar apenas os ambientes acadêmicos e já fazem parte das decisões de investimento das empresas.
A Fenasucro & Agrocana permite observar essa transição de forma concreta. De um lado, estão as tecnologias em desenvolvimento e os debates sobre o futuro. Do outro, encontram-se equipamentos, processos e soluções que já podem ser incorporados às operações.
Próxima etapa
O Brasil construiu uma das cadeias de bioenergia mais completas do mundo. Esse resultado não veio de uma única decisão, mas de uma combinação de políticas públicas, investimento privado, pesquisa e capacidade industrial. O legado do Proálcool mostra que o País consegue transformar desafios energéticos em desenvolvimento tecnológico.
Agora, precisamos aplicar essa experiência a uma agenda mais ampla. A Junção das Américas em prol dos biocombustíveis transformando o Etanol em uma commodity global. Butanol e hexanol podem fazer parte dessa trajetória. Assim como SAF, biometano, hidrogênio e outras moléculas renováveis, eles representam possibilidades de expansão para uma indústria que já possui base produtiva e conhecimento técnico.
A usina continuará produzindo açúcar e etanol, mas poderá entregar também energia, gases renováveis, combustíveis avançados, proteínas, insumos químicos e ativos ambientais. Essa evolução já começou. O próximo passo é dar escala, competitividade e mercado às soluções que estão sendo desenvolvidas.