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Matheus Uzelotto Lopes

Diretor Agrícola da Cerradinho Bioenergia

AsAA26

A célula fotovoltaica da agricultura
Existe um paradoxo no setor bioenergético brasileiro. Poucos segmentos possuem contribuição ambiental tão ligada à atividade principal, mas de fato comunicam pouco sua relevância. Acostumados a produzir açúcar, etanol, bioeletricidade e, mais recentemente, biometano, nem sempre destacamos o caráter extraordinário do sistema que sustenta esses produtos.
 
Produzimos alimentos, energia e combustíveis renováveis por meio da fotossíntese. A cana-de-açúcar captura energia solar, remove dióxido de carbono da atmosfera e libera oxigênio, associando geração de riqueza e serviço ambiental. Açúcar, etanol, bioeletricidade e biometano têm a mesma origem. Suas moléculas são constituídas por carbono, hidrogênio e oxigênio da fotossíntese.

Sob essa perspectiva, o setor comercializa mais do que commodities agrícolas. Entrega alimento na forma de açúcar, combustíveis renováveis como etanol e biometano, e eletricidade obtida da energia armazenada na biomassa. Em essência, transforma recursos renováveis capturados pela planta em diferentes formas de alimento e energia.

Outro diferencial é que os nutrientes minerais essenciais à fotossíntese, como nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes, permanecem majoritariamente no próprio ciclo produtivo. Quando a cana chega à indústria, parte desses nutrientes já ficou no campo, na palhada da colheita mecanizada sem queima, no sistema radicular e na atividade biológica do solo. Outras frações estão sujeitas a transformações, lixiviação e perdas para a atmosfera. Ainda assim, parcela relevante acompanha a biomassa e, após o processamento, concentra-se na vinhaça, torta de filtro, cinzas e outros coprodutos.

Essa dinâmica cria uma oportunidade. Quanto mais eficientes formos em devolver esses recursos ao campo, menor será a necessidade de insumos externos. A reciclagem de nutrientes deixa de ser apenas uma prática ambiental e torna-se estratégia agronômica e econômica de eficiência sistêmica, com ganhos ambientais e econômicos claros.

Na CerradinhoBio, aproximadamente cinco sextos da área cultivada são conduzidos sem nitrogênio mineral, resultado do uso agronômico da vinhaça, de compostos orgânicos e da intensificação da fixação biológica de nitrogênio. O mesmo princípio orienta os demais coprodutos industriais, buscando devolver ao campo recursos provenientes da própria cana. A reposição integral ainda é um desafio agronômico e logístico, mas o direcionamento é claro: ampliar a eficiência desse retorno e reduzir a dependência de fontes externas.

Essa visão avança com tecnologias biológicas. Microrganismos aplicados via solo, folha e muda auxiliam na disponibilização de fósforo e potássio, na mineralização de nutrientes da matéria orgânica e na eficiência fisiológica das plantas. Defensivos microbiológicos também ampliam o equilíbrio dos sistemas produtivos. Mais do que substituir tecnologias existentes, essas ferramentas permitem aproveitar processos naturais dos ecossistemas agrícolas.

É nesse ponto que a agricultura circular e a agricultura regenerativa convergem. O desafio não é apenas produzir mais biomassa, mas estabelecer ciclos mais eficientes entre campo e indústria. A cana é transformada em alimentos, combustíveis e energia, enquanto os nutrientes que sustentaram sua arquitetura biológica são recuperados e retornam à produção. Quanto mais fecharmos esses ciclos, maior será a capacidade de reduzir perdas, diminuir a dependência externa e fortalecer os processos biológicos que sustentam a fotossíntese.
 
A próxima fronteira vai além da reciclagem de nutrientes. Apesar dos avanços, o diesel ainda é relevante nas operações agrícolas. Para evoluir rumo a sistemas regenerativos e de baixa intensidade de carbono, a energia utilizada na produção deve vir progressivamente dos combustíveis renováveis gerados pela própria cana. Ampliar o uso de etanol e biometano nos equipamentos agrícolas é um passo lógico rumo a um sistema mais autossuficiente.

A cana-de-açúcar talvez seja a mais eficiente célula fotovoltaica desenvolvida pela natureza. O desafio do setor não é apenas produzir mais biomassa, mas aperfeiçoar sua capacidade de transformar luz solar, água e carbono atmosférico em alimentos, energia e combustíveis renováveis, enquanto fecha ciclos, regenera solos e reduz a dependência de recursos externos. Quanto mais aproximarmos produção, circularidade e renovabilidade, mais próximos estaremos de uma agricultura verdadeiramente regenerativa.