Ao longo da história da agroenergia nacional, poucas discussões foram tão recorrentes quanto a suposta disputa entre cana-de-açúcar e milho pela produção de etanol. A expansão acelerada do etanol de milho nos últimos anos alimentou a percepção de que ambas as cadeias competiriam pelo mesmo mercado. No entanto, uma análise mais atenta dos fatos demonstra um movimento distinto: cana e milho são matérias-primas complementares que fortalecem a segurança energética, ampliam a força do agronegócio brasileiro e conferem ao País centralidade na transição energética global.
O Brasil construiu, ao longo dos últimos 50 anos, uma trajetória singular no desenvolvimento de biocombustíveis. Desde a criação do Proálcool, em 1975, a cadeia sucroenergética desenvolveu um dos sistemas mais eficientes do mundo, ao combinar produtividade agrícola, inovação industrial e sustentabilidade. Esse legado criou as bases institucionais, regulatórias e tecnológicas que permitiram, décadas depois, o surgimento de uma nova fronteira de crescimento capitaneada pelo etanol de milho.
Longe de substituir a cana, o milho passou a ocupar espaços onde existiam oportunidades pouco exploradas. O avanço da segunda safra e a disponibilidade de excedentes produtivos permitiram transformar parte desse grão em energia renovável, sem comprometer o abastecimento alimentar. O resultado foi o início de uma nova indústria, que impulsionou investimentos em regiões antes pouco inseridas na cadeia dos biocombustíveis.
Essa expansão ocorreu sem promover uma substituição sistemática da cana-de-açúcar. As duas culturas possuem vocações agronômicas, logísticas e econômicas distintas.
Enquanto a cana concentra seu cultivo principalmente nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, o etanol de milho ergueu-se sobre uma base agrícola consolidada no Centro-Oeste e agora cresce em direção ao Nordeste. Em vez de disputar áreas, o milho acrescentou novos produtores rurais à cena da industrialização regional. O resultado foi um novo e célere ciclo de expansão dos biocombustíveis, aumentando a oferta nacional sem comprometer a competitividade do setor sucroenergético.
Seus impactos, porém, vão muito além da produção de etanol. O modelo brasileiro de etanol de milho é estruturado sobre os princípios da economia circular, por meio da qual todo o grão é aproveitado no processo. O amido é convertido em combustível renovável, enquanto proteínas, fibras e óleos são transformados em produtos de elevado valor nutricional (DDG/DDGS/HPDDG/WDG/WDGS), destinados à alimentação de bovinos, aves, suínos, peixes e pets. Some-se ainda o óleo técnico de milho, utilizado pela indústria alimentícia e como insumo para biodiesel e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF). Trata-se de um sistema que conecta agricultura, pecuária, energia e indústria em um modelo de aproveitamento integral do milho.
Ao mesmo tempo, a complementaridade entre cana e milho oferece uma vantagem distintiva no cenário mundial: a produção contínua de etanol ao longo de todo o ano. Enquanto a cana apresenta maior concentração de moagem em determinados períodos, o milho permite manter as usinas em operação durante a entressafra, especialmente nas biorrefinarias flex. Essa característica reduz a sazonalidade da oferta e aumenta a previsibilidade do abastecimento nacional.
As duas lavouras também projetam seus efeitos sobre a próxima geração de combustíveis renováveis. Tanto a cana quanto o milho despontam como plataformas estratégicas para a entrega de Sustainable Aviation Fuel, o SAF. O etanol proveniente dessas culturas é utilizado pela rota Alcohol-to-Jet (ATJ), enquanto o óleo técnico de milho serve de insumo para a rota HEFA (Hydroprocessed Esters and Fatty Acids). No início de maio, a Organização Marítima Internacional (IMO) reconheceu oficialmente os parâmetros de intensidade de carbono do etanol de milho brasileiro para uso no transporte marítimo.
O irmão sucroalcooleiro também avança para conseguir essa certificação oficial. Em um momento em que novos modais de transporte buscam alternativas menos poluentes, contar com duas culturas prontamente disponíveis em larga escala representa um diferencial estratégico para nossa nação.
Sob a ótica ambiental, essa complementaridade ganha ainda mais relevância. O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com políticas públicas como o RenovaBio e a Lei do Combustível do Futuro bem definidas e executadas. Nesse contexto, tanto a cana quanto o milho desempenham papéis fundamentais como plataformas para novas rotas tecnológicas de geração de energia de baixo carbono.
Vale destacar que a diversificação das matérias-primas favorece a resiliência do sistema frente às mudanças climáticas. Eventos extremos tendem a afetar culturas de maneiras distintas, e a existência de duas cadeias robustas reduz riscos de desabastecimento tanto para o mercado interno quanto para a crescente demanda externa por combustíveis renováveis.
Na experiência internacional, é raro encontrar países capazes de produzir biocombustíveis, em grandes volumes, a partir de plataformas agrícolas distintas. O Brasil reúne condições climáticas, disponibilidade de terras, conhecimento tecnológico, arcabouço regulatório e capacidade industrial que fazem dessa combinação uma vantagem estrutural dificilmente replicável em outras partes do mundo.
Mais do que escolher entre recursos agrícolas, nosso País optou por um ambiente de negócios que estimula investimentos, inovação, previsibilidade regulatória e harmonia entre as diferentes cadeias da bioenergia. Cana e milho representam pilares de um mesmo projeto nacional de desenvolvimento sustentável, capaz de gerar empregos, agregar valor à produção agropecuária, promover a interiorização da indústria e colocar o País no radar dos mercados globais.
No contexto da bioenergia, quanto maior for a integração entre essas duas cadeias, maior será o potencial do Brasil de liderar mundialmente a redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE), abastecer novos vetores de demanda e transformar sua vocação agrícola em uma vantagem geopolítica duradoura.