A introdução da produção de etanol de milho no Centro-Oeste brasileiro foi um grande sucesso. Atualmente, o novo setor caminha para se consolidar e agregar mais valor em outros estados brasileiros, expandindo suas fronteiras. Indiscutivelmente, o etanol de milho tem contribuído em muito para uma melhor oferta de etanol hidratado no País, levando mais desenvolvimento, e ajudado a aumentar a sustentabilidade da produção de proteína animal no Brasil, principalmente do gado de corte.
O setor sucroalcooleiro paulista observa com muita atenção esta novidade, que também tem chegado ao Mato Grosso do Sul e ao triângulo mineiro. O etanol de milho está chegando perto de São Paulo, e isso nos leva à pergunta: por que ainda não temos uma destilaria de etanol de milho no Estado de São Paulo?
O novo Centro FAPESP de Ciência para o Desenvolvimento – CCD Etanol:
A criação de um Centro de Ciência para o Desenvolvimento – CCD no tema Etanol com apoio da FAPESP tem como seu objetivo principal colaborar com o setor sucroalcooleiro paulista. O Estado de São Paulo (SP) é um tradicional produtor de etanol, com cerca de 5 milhões de hectares de cana-de-açúcar e uma produção de cerca de 16 bilhões de litros de etanol por ano. Nestes 50 anos do Proálcool, criou-se um modelo vencedor de produção sustentável de etanol, açúcar e bioeletricidade.
No entanto, nos últimos anos o setor produtor de etanol vem diversificando suas ações usando, com sucesso, o milho, sobretudo nos estados de MT, GO e MS. Esta inovação tem ampliado as oportunidades da produção de combustíveis avançados de baixo carbono e pode significar um grande estímulo econômico para o Estado de SP e para o Brasil.
Além disso, a produção de etanol de milho pode contribuir para aumentar a resiliência econômica do setor. Nesse sentido, as atividades do CCD Etanol da FAPESP são justamente para facilitar e ajudar estas oportunidades a se concretizarem.
Os eixos de atuação do CCD Etanol são os seguintes:
• Produção de Etanol de Cana+Milho em SP;
• Uso do DDG do Etanol de Milho;
• Análise de Ciclo de Vida do Etanol;
• Novos Produtos a partir do Etanol e Derivados; e
• Mais Empregos e Mais Desenvolvimento para SP e Brasil.
Exemplos dos novos produtos são a produção de combustíveis sustentáveis para a aviação (SAF), biometano de vinhaça sobretudo para substituir o diesel e etanol para o transporte marítimo. Estes mercados irão garantir a demanda por volumes significativos de etanol, mas dependem da produção de biocombustíveis de baixo teor de carbono.
A atuação do CCD Etanol está sendo no sentido de trabalhar com empresas, como usinas e outras, institutos de pesquisas, universidades, municípios e secretarias do Estado de SP, a fim de realizar este potencial. Trata-se de um projeto multidisciplinar que envolve duas secretarias do Governo do Estado (Secretaria de Energia e Meio Ambiente – SEMIL e institutos ligados à Secretaria da Agricultura e Abastecimento – SAA).
Entre os produtos a serem gerados pelo CCD Etanol encontram-se a criação de novos modelos de produção integrando energia e pecuária, a geração de estudos e metodologias visando aumentar os benefícios econômicos, e políticas públicas que ofereçam mais clareza possibilitando maior investimento, empregos e geração de renda. Para melhor responder a esta importante pergunta, vamos analisar o que o Estado de SP tem de diferente de outros estados brasileiros.
A oferta de bagaço de cana nas usinas paulistas:
O Estado de São Paulo conta com cerca de 160 usinas de açúcar e etanol de cana-de-açúcar que produzem bagaço e utilizam parte dele para suprir suas demandas energéticas. As usinas paulistas geram, portanto, um excedente de bagaço que pode ser utilizado como fonte energética, sem a necessidade do plantio de eucalipto, como acontece nas destilarias autônomas de etanol de milho, usando o modelo flex ou flex full, operando o ano todo.
No workshop realizado em 26 de junho na Faculdade de Engenharia Química da Unicamp, o Centro de Ciências para o Desenvolvimento do Etanol – CCD Etanol trouxe diversos especialistas no tema para uma discussão.
As conclusões do workshop foram as seguintes:
• sim, existe hoje uma quantidade significativa de bagaço excedente nas usinas paulistas, equivalente a cerca de 10-15% do bagaço produzido;
• o excedente de bagaço pode ser maior desde que seja tomada alguma das seguintes ações:
- o bagaço pode ser seco (hoje a umidade do bagaço é de ~ 50% b.u.);
- o consumo de vapor pode ser reduzido no processo, por exemplo colocando mais efeitos na evaporação do caldo ou reduzindo o consumo na destilação.
Há usinas muito eficientes com baixo consumo de vapor no setor sucroalcooleiro, e estas podem servir de referência para estimar uma elevação do bagaço excedente. No website do CCD Etanol, pode-se encontrar os contatos com os palestrantes, caso exista interesse em definir uma estratégia. No entanto, com o excedente atual é possível se instalar, por exemplo, destilarias de etanol de milho flex full de cerca de 400 mil litros de etanol/dia.
De onde viria o milho para as destilarias paulistas?
O Estado de São Paulo não é um grande produtor de milho. Isso quer dizer que para se produzir grandes quantidades de etanol haveria a necessidade de se trazer o milho dos estados produtores de excedentes, principalmente MT, GO, MS e (por que não?) PR. Segundo estimativas realizadas por grandes empresas do setor, o custo do frete do milho pode ser grandemente atenuado pela vantagem de aqui se ter bagaço excedente de cana-de-açúcar. O modelo proposto, portanto, é de usinas flex ou flex full de modo a combinar as vantagens da cana e do milho no mesmo projeto.
Os mercados de etanol no Estado de SP:
Além de ser o maior mercado consumidor de etanol anidro e hidratado do País, SP tem ainda as melhores condições para entrar nos novos mercados de biocombustíveis avançados como SAF e transporte marítimo. A propósito, isso já está acontecendo.
A demanda paulista por DDGS:
Ainda não se tem bem dimensionada a demanda paulista de DDGS. Sabemos que SP tem um enorme potencial de intensificar a pecuária de corte e, também, de aumentar significativamente o número de confinamentos se tornando um “Texas brasileiro”. Também o mercado de aves tem grande potencial em território paulista. O uso do DDGS na pecuária de corte possibilitará a tão esperada intensificação, sobretudo de pastagens degradadas ou com baixa capacidade de suporte.
A intensificação da pastagem levará aos benefícios ambientais associados como a liberação de mais terras para a agricultura e recomposição de biomas, com benefícios inclusive para a redução de emissões ligadas ao uso do solo.
Portanto, o que se propõe é um projeto com benefícios econômicos, energéticos e ambientais. Isso pode ser conseguido com a introdução da produção de etanol de milho no Estado de SP, que possibilitará, inclusive, uma expansão da oferta de empregos e renda para o interior paulista.