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João Marcelo Dumoncel

CEO da 3tentos

OpAA89

Uma oportunidade que o Brasil não pode desperdiçar
Durante muito tempo, o biodiesel foi tratado primordialmente como uma alternativa ambiental aos combustíveis fósseis. Hoje, essa visão simplificada já não traduz sua real importância. Em um mundo que busca conciliar segurança energética, competitividade e redução de emissões, o biodiesel consolidou-se como um componente estratégico da transição energética e uma alavanca de desenvolvimento para países de forte vocação agrícola, como o Brasil.
 
Poucos países reúnem condições tão favoráveis para liderar essa transformação. O Brasil dispõe de uma agricultura altamente produtiva, tecnologia reconhecida e ampla disponibilidade de matérias-primas, o que assegura ao País a oportunidade de desenvolver uma indústria de biocombustíveis robusta e ocupar uma posição de liderança na transição energética global.

Essa liderança, contudo, depende de um fator determinante: a previsibilidade. Os investimentos necessários para ampliar a capacidade produtiva, desenvolver novas tecnologias e fortalecer a cadeia de suprimentos são estruturados para horizontes de décadas. Mudanças frequentes em políticas públicas ou interrupções em cronogramas previamente definidos abalam a confiança dos investidores e impedem que a expansão dos biocombustíveis avance.

Desde a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB), em 2005, construiu-se uma cadeia de produção sólida, integrada e tecnologicamente avançada. A evolução da mistura obrigatória ao diesel permitiu que produtores rurais, cooperativas, indústrias e distribuidoras investissem continuamente em eficiência, inovação e expansão de capacidade.

Os resultados são expressivos. O Brasil figura entre os maiores produtores e consumidores mundiais de biodiesel, com uma indústria capaz de abastecer o mercado interno utilizando matérias-primas nacionais. A soja responde pela maior fatia da produção, mas o setor também incorpora outras fontes, fortalecendo uma economia circular que gera valor ao longo de toda a cadeia agroindustrial.

Cada litro de biodiesel produzido movimenta a indústria nacional, gera empregos qualificados, estimula a produção agrícola, atrai investimentos em infraestrutura e reduz a necessidade de importação de combustíveis fósseis. 

Trata-se de uma política energética, ambiental, industrial e social. Em um cenário internacional de tensões geopolíticas e volatilidade no mercado de petróleo, elevar a participação de combustíveis renováveis na matriz reforça a segurança energética do País. Quanto maior a utilização de energia produzida internamente, menor a exposição a oscilações externas e maior a previsibilidade para empresas e consumidores.
 
O biodiesel representa também uma das soluções mais imediatas para descarbonizar o transporte pesado. Diferentemente de tecnologias que exigem elevados investimentos em infraestrutura ou dependem de maturação tecnológica, o biodiesel já está disponível, utiliza a logística existente e pode ser incorporado à frota sem alterações significativas nos motores em operação.

Essa viabilidade torna o biodiesel um aliado crucial para que o Brasil cumpra suas metas climáticas preservando a competitividade econômica. O setor demonstra que desenvolvimento e sustentabilidade podem caminhar juntos de forma equilibrada.

A experiência internacional reforça essa visão. Países como Indonésia e Malásia adotam misturas obrigatórias superiores às brasileiras, impulsionando suas cadeias produtivas e reduzindo a dependência de fósseis. Outros mercados, como Estados Unidos e União Europeia, ampliam incentivos a renováveis, reconhecendo que a descarbonização exige múltiplas soluções, com destaque para os biocombustíveis.
 
A aprovação da Lei do Combustível do Futuro representou um passo importante ao estabelecer um horizonte de crescimento para a expansão dos biocombustíveis, oferecendo sinalização de longo prazo para quem investe, produz e gera empregos.

Essa previsibilidade é indispensável porque a transição energética não ocorre por decreto. Ela depende de decisões empresariais tomadas hoje para gerar resultados ao longo dos próximos anos. Cada nova planta industrial e cada investimento em inovação pressupõem confiança na estabilidade das regras do jogo.

O País tem a oportunidade histórica de deixar de ser apenas um grande exportador de commodities agrícolas para consolidar-se como uma potência exportadora de energia renovável, tecnologia e soluções sustentáveis. No entanto, eventuais interrupções ou adiamentos no cronograma da mistura obrigatória podem colocar a confiança em risco, criando incertezas que afetam toda a cadeia, do campo à indústria.

O biodiesel brasileiro disputa investimentos em um mercado global dinâmico, onde diversos países aceleram programas de combustíveis renováveis, como diesel verde (HVO) e combustível sustentável de aviação (SAF). O capital buscará naturalmente ambientes regulatórios mais estáveis e seguros.

O diferencial brasileiro reside na capacidade de integrar alimentos e geração de energia. Na 3tentos, vivenciamos essa integração diariamente. Nossa atuação conecta o produtor rural à indústria. O óleo de soja dá origem ao biodiesel; o farelo retorna como insumo para produção de proteína; e o milho é transformado em etanol, DDG e óleo. Operamos uma usina de biodiesel no Rio Grande do Sul, em Ijuí, com capacidade de 1.500 m³/ dia, e outra no Mato Grosso, em Vera, que produz 1.500 m³/dia. Expandimos a presença no Mato Grosso com uma nova planta de etanol de milho em Porto Alegre do Norte, com capacidade instalada para produzir 428 milhões de litros de etanol por ano.

A transição energética global dar-se-á pela complementaridade entre diferentes soluções, e os biocombustíveis continuarão exercendo papel decisivo por décadas. Seus benefícios vão além das emissões: movimentam economias locais, fortalecem cooperativas, geram renda e impulsionam o desenvolvimento regional.

Sustentabilidade deixou de ser custo para se tornar vantagem competitiva. O Brasil já provou sua capacidade de liderança com o etanol e pode ter sucesso ainda maior com o biodiesel. O que precisamos preservar é a coerência entre discurso e ação. A transição exige investimentos contínuos, e investimentos exigem confiança.

A pergunta central não é se o biodiesel fará parte do futuro energético, mas qual será o papel do Brasil nessa transformação. Cabe a nós garantir que essa oportunidade seja aproveitada com visão estratégica, responsabilidade e estabilidade institucional.