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Yuri Schmitke

Presidente executivo da ABREN - Associação Brasileira de Energia de Resíduos

OpAA89

Da vinhaça ao biometano liquefeito
O Brasil tem em mãos um ativo energético que ainda observa de longe: o biogás. O País pode produzir cerca de 84 bilhões de Nm³ de biogás por ano — volume que, convertido em biometano (44 bilhões de Nm3/ano), equivaleria a aproximadamente 40% do consumo nacional de diesel. Projeções da ABiogás chegam a estimar a substituição de até 70% da demanda de diesel, cerca de 39 bilhões de litros, em um cenário de frota plenamente adaptada. As estimativas variam conforme a metodologia, mas convergem em um ponto: há aqui uma fronteira de descarbonização de escala continental.
 
O setor já saiu do papel. O Brasil contabiliza mais de 1.725 plantas de biogás e 52 plantas de biometano, com capacidade instalada superior a 5 bilhões de Nm³ de biogás por ano, sendo 1 bilhão de Nm3/ano de biometano. Hoje, 37% do biogás nacional é produzido pela biodigestão de resíduos da agroindústria e 63% a partir de aterros sanitários — mas 92% do potencial do biogás e biometano virão a partir da biodigestão de resíduos da agroindústria. 
 
A cana-de-açúcar como protagonista
O epicentro desse potencial está no campo. Estima-se que o setor sucroenergético concentra cerca de 48% de todo o potencial nacional de biogás, com aproximadamente 39,8 bilhões de Nm³ por ano somando vinhaça, torta de filtro, bagaço e palha da cana. Considerando apenas vinhaça e torta de filtro — substratos de digestão anaeróbia mais imediata —, o potencial fica em torno de 6,4 a 6,5 bilhões de Nm³ de biogás, equivalentes a cerca de 3,5 a 3,9 bilhões de Nm³ de biometano, volume que atenderia entre 10% e 17% da demanda nacional de gás natural conforme o ano de referência. Cada tonelada de cana processada gera entre 50 e 60 m³ de biogás, e cerca de metade da massa colhida vira resíduo aproveitável.
 
Nem todo CO? equivalente é igual
Aqui está o ponto mais negligenciado da agenda: o biometano não tem uma pegada de carbono única — ela depende, fundamentalmente, da rota tecnológica que o origina, e essa diferença é enorme. O metano é um gás de efeito estufa cuja potência, em horizonte de 20 anos, é cerca de 80 vezes a do CO? e responde por aproximadamente 0,5 °C do 1,1 °C de aquecimento global já observado.
 
A referência mundial nesse cálculo é o Low Carbon Fuel Standard (LCFS) da Califórnia, que diferencia explicitamente as rotas por intensidade de carbono (IC). 
 
O biometano de aterro recebe IC positiva (+45 a +70 gCO?eq/MJ), pois substitui o fóssil mas captura apenas parte de um metano que já vazaria de toda forma. O de digestão anaeróbia de resíduos orgânicos urbanos recebe IC negativa (−80 gCO?eq/MJ), por evitar a própria formação do passivo de metano no aterro. E o de dejetos animais chega a IC fortemente negativa (−250 a −400 gCO?eq/MJ), ao eliminar as emissões contínuas das lagoas abertas. O ICCT estimou redução de até 181% das emissões frente ao gás natural fóssil para o biometano de esterco. 

No Brasil, o estudo BEP/UK calculou que a biodigestão com produção de biometano pode evitar até 1.999,75 kg de CO? equivalente por tonelada de resíduo tratado — desempenho que supera com folga o aterro, mesmo com aproveitamento energético do biogás.
Tratar todas as rotas como equivalentes nivela por baixo o crédito ambiental e desestimula as soluções de maior benefício climático. Diferenciar o CO?eq por rota não é refinamento técnico: é a condição para que o incentivo econômico aponte na direção certa e o Brasil possa internacionalizar seu atributo ambiental no mercado internacional de carbono. 
 
A precificação do carbono como motor
E é exatamente aqui que a precificação do carbono se torna decisiva. Um Crédito de Descarbonização (CBio) equivale a uma tonelada de CO? evitada, mas seu preço tem sido volátil e, sobretudo, baixo. Depois de abrir 2025 perto de R$ 75, o CBIO encerrou o ano em torno de R$ 35 e chegou a ser negociado a cerca de R$ 24 em dezembro. Para efeito de comparação, a permissão europeia (EU ETS) operava acima de € 80 por tonelada em meados de 2026. Enquanto a tonelada de carbono valer poucas dezenas de reais no Brasil e o sistema não remunerar de forma diferenciada quem entrega mais benefício climático, o sinal de preço seguirá fraco demais para mobilizar o capital que o setor exige.
 
Da frota urbana aos corredores verdes
O elo entre esse gás e a descarbonização concreta está no transporte. O biometano é, hoje, a rota de menor Capex para descarbonizar frotas: um ônibus a biometano custa cerca de 1,5 vez o equivalente a diesel, contra 2,5 a 3 vezes no caso do elétrico. Tomando um ônibus urbano a diesel entre R$ 900 mil e R$ 1,2 milhão, a versão a biometano ficaria entre R$ 1,35 milhão e R$ 1,8 milhão. Substituir 20 mil ônibus nas cerca de 50 cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes exigiria de R$ 27 bilhões a R$ 36 bilhões em veículos; 30 mil unidades elevariam o mercado a R$ 40,5 bilhões a R$ 54 bilhões. 
 
Somada a infraestrutura de produção — estimada em R$ 8,5 bilhões em novas usinas nos próximos cinco anos, com mais de 2,8 milhões de m³/dia a partir de resíduos urbanos —, o programa nacional pode mobilizar de R$ 37 bilhões a R$ 69 bilhões. 
 
Estima-se que um caminhão que rode 14,5 mil km por mês movido a biometano evite cerca de 231 toneladas de CO? por ano frente ao diesel, com redução de até 95% nas emissões de gases de efeito estufa.
 
Para a carga pesada de longa distância — num país onde cerca de 60% da movimentação de mercadorias é rodoviária e o transporte é o terceiro maior emissor —, a solução é o Bio-GNL: o biometano liquefeito, que multiplica a autonomia dos veículos (de 300 para 1.500km) e viabiliza os chamados "corredores verdes". 
 
Já há projetos concretos. A Virtu GNL, em parceria com Eneva e Scania, anunciou um corredor ligando o Norte ao Sul do Brasil, com investimento previsto de R$ 5,7 bilhões, 39 centrais de descarbonização e 5,3 mil cavalos mecânicos até 2030, começando pela rota do Matopiba rumo ao Porto de Itaqui. 
 
A Gás Verde, maior produtora de biometano da América Latina, projeta saltar de 160 mil para 650 mil m³/dia até 2028. O GNL fóssil já reduz emissões e poluentes locais e abre a porta para o Bio-GNL — etapa em que o Brasil reúne condições de liderança mundial.

O Brasil tem tudo, menos tempo a perder
O biogás reúne, como poucas fontes, três agendas em um só ativo: destinação adequada de resíduos, segurança energética e descarbonização do transporte. O País tem a matéria-prima — da vinhaça ao lixo urbano —, a tecnologia e o mercado consumidor. Falta a coragem regulatória para precificar corretamente a pegada de carbono de cada rota e transformar resíduo em vetor de transição. Quando o cálculo do carbono refletir a realidade de cada caminho tecnológico, o investimento virá atrás. O biometano não é promessa de futuro: é decisão do presente.