Aprendi a desconfiar de solo olhando para ele. No setor sucroenergético, vi áreas aparentemente uniformes esconderem diferenças enormes de estrutura, infiltração de água e atividade biológica. Hoje, na produção de grama, isso ficou ainda mais evidente. Basta retirar um tapete para o solo se expor: raízes, agregados, umidade, compactação e matéria orgânica. O chão não aceita discurso. Ele mostra a qualidade do manejo que recebeu.
Entendo a agricultura regenerativa como uma forma de produzir enquanto se fortalece a capacidade produtiva do solo e o funcionamento do ecossistema. Não é uma coleção de produtos biológicos nem a eliminação de fertilizantes e defensivos por princípio. Regenerar é recuperar estrutura, vida microbiana, ciclagem de nutrientes, infiltração de água, raízes e matéria orgânica.
Durante muitos anos, acompanhei uma agricultura dependente de insumos químicos. Eles continuam importantes. O problema começa quando qualquer desequilíbrio recebe apenas mais um insumo, sem que se pergunte o que ocorre com o solo e as raízes. Faço uma autocrítica ao agro: fomos eficientes em corrigir sintomas, mas demoramos a dar à estrutura do solo e à matéria orgânica o mesmo peso que dávamos às doses.
Em uma empresa na qual trabalhei, acompanhei por três anos o uso contínuo de produtos biológicos em um pivô irrigado de 225 hectares de cana-de-açúcar. Na cana, a produtividade costuma cair a cada nova colheita da mesma planta, chamada de corte. Ali, ocorreu o contrário: saímos de 93 toneladas por hectare no quarto corte para 105 no sétimo. Análises metagenômicas, que identificam pelo material genético os microrganismos do solo, mostraram uma comunidade biológica mais diversa. Não houve transformação instantânea, mas ficou confirmado que o solo não é apenas suporte físico e reservatório de nutrientes. É um sistema vivo.
Mais recentemente, conheci o TMT, metodologia desenvolvida pelo agrônomo e pesquisador brasileiro Celso Tomita. Em termos simples, ela multiplica na própria fazenda comunidades de microrganismos benéficos, como bactérias e fungos, e as aplica ao solo e às plantas, aproveitando resíduos da produção e recursos locais para reduzir a dependência de insumos externos. O que me interessa nessa abordagem é a lógica: tratar solo e planta como um mesmo sistema biológico. Ainda assim, nenhuma tecnologia é receita pronta. Biológicos, pós de rocha de liberação gradual e resíduos orgânicos só fazem sentido dentro de uma estratégia agronômica coerente.
Meu critério é agronômico: usar cada ferramenta onde e na intensidade necessária, reduzindo dependências quando houver alternativa consistente. Aplicar microrganismos em solo compactado e descoberto gera mais expectativa do que resultado. A biologia precisa de ambiente. A raiz precisa de espaço. A água precisa infiltrar.
Já vi chuva escorrer sobre áreas compactadas, enquanto, poucos centímetros abaixo, o solo permanecia seco. Em áreas bem estruturadas, vi o contrário: a água entra e fica. Um solo regenerado não aumenta a chuva, mas aproveita melhor cada milímetro que chega, perde menos nutrientes e sofre menos erosão.
Também me incomoda a regeneratividade de fachada. Sem linha de base, metas e medição, sobra narrativa. Quero saber se a matéria orgânica aumentou, se a infiltração melhorou, se a compactação diminuiu e se há mais raízes em profundidade e se a diversidade microbiana evoluiu. Nem tudo terá precisão absoluta, mas o que não se mede dificilmente será gerenciado com seriedade. Operações em grande escala me ensinaram: boa intenção não escala; processo escala. Talhão por talhão. Ciclo após ciclo.
Na produção de grama, retiramos biomassa e parte da camada superficial do solo a cada colheita. O sistema cobra reposição. Preservar a estrutura, estimular raízes, devolver matéria orgânica, controlar o tráfego e manejar a irrigação são condições para manter o solo funcional.
Defendo a agricultura regenerativa justamente por não acreditar em atalhos. Se uma prática não deixa o solo mais vivo, mais estruturado e capaz de usar água e nutrientes com menos perdas, prefiro não chamá-la de regenerativa. O desafio não é adotar uma nova palavra. É entregar um solo melhor depois de cada ciclo produtivo, como legado ambiental para quem continuará produzindo naquela terra.