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Sergio Teixeira

Gerente de Marketing do Grupo Nova América

Op-AA-11

Temos muito trabalho pela frente, mas o futuro é promissor

A demanda mundial por álcool é, sem dúvida, promissora. Diversos são os argumentos que sustentam esse potencial: contexto econômico, questão ambiental, instabilidade política, que cerca o mercado de petróleo e, recentemente, a declaração de George Bush de que os EUA deverão reduzir o consumo de gasolina em 20%, até 2017, e que grande parte desta redução virá pelo uso do etanol.

Segundo dados da Energy Information Administration, os Estados Unidos consumiram 493,1 bilhões de litros de gasolina, em 2003. Considerando que 50% da redução anunciada por esse país seja suprida por álcool, haverá um incremento de 49,3 bilhões de litros, na demanda mundial pelo combustível.

Isto equivale a quase três vezes a atual produção brasileira. Outra análise que evidencia o potencial do álcool é que: se o mundo adotasse uma mistura de 10% na gasolina, a demanda pelo produto seria de 120,8 bilhões de litros, mais que o dobro da atual produção mundial, em torno de 50,5 bilhões de litros.

Cabe ao setor sucroalcooleiro refletir sobre a capacidade dos produtores em suprir esta demanda. Com 74% da produção mundial concentrada no Brasil e nos Estados Unidos, pressupõe-se que a viabilidade em transformar o álcool em commodity internacional ficará a cargo desses dois países. Os norte-americanos já trabalham na busca de energias alternativas, com interesse particular sobre o álcool, visando reduzir sua dependência em relação à gasolina. Um exemplo disso é o significativo aumento da produção americana de álcool em 2006, cerca de 3,8 bilhões de litros, em relação ao ano anterior.

Atualmente, eles produzem 20 bilhões de litros por ano. No contexto político, os EUA também estão atuantes. Eles buscam parcerias e cooperação com o Brasil, que é referência na tecnologia de produção do álcool. A prova deste esforço é a recente visita do sub-secretário de Estado dos EUA para Assuntos Políticos, Nicholas Burns, e a anunciada vinda de Bush, prevista para março.

Pioneiro no setor e lastreado pela experiência do Proálcool, o Brasil tem seu mercado interno consolidado e em franca expansão. Capitaneado pela iniciativa privada, o Brasil faz sua parte, atraindo a atenção mundial, pelo seu baixo custo e pelo seu conhecimento. Segundo estudo do BNDES, o país precisa construir cerca de 100 usinas, até 2010, para atender à demanda interna adicional de 8 bilhões de litros de álcool. E o que todo este desenvolvimento implica?

A primeira evidência é a disponibilidade de capital, implicando em que tanto governo, quanto setor privado, terão que buscar empréstimos e desenvolver o mercado de capitais do setor sucroalcooleiro. Outra necessidade será efetuar parcerias em âmbito global e, conseqüentemente, exercer a competência na gestão e na transferência de tecnologia e conhecimento brasileiros. Neste cenário, a experiência do Brasil com o Proálcool é atrativa para o mundo e deve ser valorizada por nossas lideranças.

Há ainda a questão da expansão geográfica, que implica em investimentos em infra-estrutura – não apenas na logística de escoamento, mas também de saneamento básico, saúde e habitação, de modo a acomodar adequadamente a força de trabalho necessária. Neste sentido, a recente divulgação do PAC vem ao encontro destas necessidades, desde que o governo tenha sensibilidade para priorizar investimentos nas áreas que já possuem projetos de expansão.

Investimentos na consolidação de mecanismos de proteção de preços pelos produtores e compradores, por meio do uso de Bolsas, também são necessários. Isso melhora o equilíbrio de oferta e procura e evita possíveis desabastecimentos do mercado interno e interferências governamentais. No contexto agrícola, é preciso considerar os impactos ambientais desta expansão. Profissionais e empresas, capacitados na gestão de programas de controle ao meio ambiente serão, certamente, valorizados.

Há ainda a necessidade de criação de padrões mundiais, afinal os consumidores demandam, não apenas quantidade, mas também qualidade de produto. O uso de padrões reduzirá o risco do negócio, por direcionar investimentos, evitar a criação de barreiras mercadológicas e fundamentais para criação de bolsas de mercado de uso global, a exemplo das bolsas de açúcar, em Nova York e Londres.

A questão da padronização é tão importante, que o próprio Nicholas Burns pautou o tema em sua visita ao Brasil. Ela é necessária para todos os tipos de produto. Porém, a atenção estará centrada, neste momento, na padronização do álcool carburante, particularmente o anidro, em virtude da comercialização do hidratado não ser recomendada mundialmente.

Como os Estados Unidos são o maior consumidor, em potencial, é de se esperar que as especificações americanas tenham forte influência na criação do padrão. Por outro lado, a experiência brasileira na utilização e distribuição do produto também será determinante, o que nos leva a crer que as negociações entre estes dois países serão cruciais.

Outro setor que merece atenção é a logística internacional, já que a oferta de navios adequados ao transporte de álcool deve influenciar os preços e a tranqüilidade dos mercados quanto ao recebimento do produto, nas condições estipuladas nos contratos. Um aspecto financeiro que afeta toda a cadeia envolvida é o uso de hedge cambial.

O setor sucroalcooleiro receberá atenção especial deste mecanismo, porque muitos agentes, distribuídos ao longo da cadeia, ainda não fazem uso deste, exceção feita àqueles que operam no mercado internacional de açúcar. Os desafios e pontos de atenção são muitos. E o que será determinante para o sucesso da consolidação do álcool como uma commodity é a gestão de todo o processo, aliada à troca de conhecimento, à construção de relacionamentos duradouros e à capacitação de todos os agentes envolvidos na cadeia produtiva.