Não faz muito tempo – há cerca de 30 anos -, o manejo agrícola e agronômico, especialmente no setor sucroenergético, buscava a otimização dos processos produtivos com foco predominante na redução de custos.
O uso de fertilizantes concentrados e de defensivos agrícolas com baixa seletividade para a cultura; sistemas de preparo de solo intensivos, com movimentação e exposição da superfície; baixa utilização de rotação de culturas e de culturas de cobertura; além de correções químicas realizadas de forma localizada, contribuíram para a otimização das lavouras, mas também favoreceram um processo de “empobrecimento” do solo.
Esse processo afetou justamente a base da agricultura: a capacidade do solo em sustentar a vida e os processos biológicos responsáveis pelo funcionamento de um sistema produtivo mais robusto.
Hoje, o uso eficiente de fertilizantes e nutrientes deve buscar a redução das perdas e o aumento do aproveitamento pelas plantas. Isso não significa eliminar os fertilizantes minerais. A integração entre fontes minerais, orgânicas e de base biológica pode contribuir para uma estratégia mais eficiente de nutrição.
Nesse cenário, a agricultura de precisão permite direcionar fertilizantes e outros insumos de acordo com a variabilidade das áreas de produção. Da mesma forma, sistemas de cultivo conservacionistas procuram reduzir o número e a intensidade das operações, considerando as características de cada área.
A manutenção da cobertura do solo, por meio da palhada e de culturas de rotação, contribui para o controle da erosão, a conservação da umidade, o manejo de plantas daninhas e a incorporação gradual de matéria orgânica. Sua preservação melhora a retenção de água, favorece a atividade biológica e estimula organismos envolvidos na decomposição da matéria orgânica, na ciclagem de nutrientes e na manutenção da estrutura do solo.
Geoprocessamento, imagens de satélite, sensores e plataformas de gestão geram informações para apoiar decisões mais precisas. O controle de tráfego de máquinas é exemplo em que o planejamento de rotas pode reduzir o pisoteio e a compactação, preservando as condições necessárias ao desenvolvimento das raízes.
A integração desses fatores proporciona um ambiente mais equilibrado, favorecendo o desenvolvimento radicular, a absorção de água e nutrientes e a resiliência das plantas diante de períodos de déficit hídrico e da ocorrência de pragas e doenças. Quando observadas em conjunto, essas práticas conceituam a própria agricultura regenerativa. Elas se complementam, e uma frequentemente conduz à outra.
Praticar agricultura regenerativa significa adotar um conjunto integrado de boas práticas, buscando não apenas produtividade, mas também conservação e recuperação da capacidade produtiva do sistema. Seu elemento central é o solo, entendido como um sistema vivo e fundamental para o funcionamento do ecossistema agrícola.
Manter um ambiente equilibrado é menos desafiador do que recuperar um degradado. Nesse caminho, o tempo é um importante aliado, pois a regeneração dos processos físicos, químicos e biológicos ocorre gradualmente e exige continuidade.
A transição para sistemas regenerativos apresenta desafios: conhecimento técnico, investimentos iniciais, adaptação de máquinas e processos, capacitação da equipe e mudança na cultura da gestão.
Por isso, a agricultura regenerativa deve ser encarada como uma estratégia de longo prazo. O planejamento precisa considerar resultados econômicos, eficiência no uso dos recursos, conservação do solo e da água e resiliência da produção.
No setor sucroenergético, essa abordagem representa uma oportunidade de aprimoramento dos sistemas de produção. Ao priorizar a saúde do solo, a conservação da água, a biodiversidade, a ciclagem de nutrientes e o uso eficiente dos recursos, podemos construir sistemas mais resilientes, eficientes e sustentáveis.
A evolução da produção de cana-de-açúcar dependerá, cada vez mais, da capacidade de produzir mais e melhor, utilizando os recursos naturais de forma inteligente. Mais do que produzir, será necessário construir um sistema de produção capaz de continuar produzindo.
Essa é, talvez, a essência da agricultura regenerativa: transformar a eficiência produtiva de curto prazo em capacidade produtiva de longo prazo.