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Henrique Berbert de Amorim Neto

Presidente da Fermentec

AsAA26

Agricultura regenerativa além da porteira
Quando se fala em agricultura regenerativa, o primeiro olhar naturalmente vai para o campo. Solo, matéria orgânica, água e capacidade produtiva estão no centro dessa discussão. No setor bioenergético, porém, acredito que podemos ampliar esse olhar e enxergar agricultura e indústria como partes de um mesmo sistema.
 
Não existe agricultura verdadeiramente regenerativa se continuarmos pensando em agricultura e indústria separadamente.

Ainda medimos os dois ambientes com indicadores próprios. Na área agrícola, acompanhamos produtividade em toneladas por hectare, kg de ART por hectare, impurezas minerais em kg por tonelada, dentre outros. Na indústria, acompanhamos rendimento global (Rendimento Total Corrigido), extração, rendimento da fermentação, perdas determinadas e indeterminadas, entre outros. O desafio aparece quando o melhor resultado de uma área, isoladamente, não representa o melhor resultado do conjunto.
 
Uma matéria-prima escolhida por determinadas características agronômicas pode ser muito interessante no campo e exigir mais da indústria. Maior teor de fibra, por exemplo, pode trazer vantagens agronômicas em determinadas condições, mas também dificultar a extração. É justamente aí que agricultura e indústria precisam se entender melhor.

Quando o sistema perde eficiência, cresce também a necessidade de recursos. Mais água, vapor, energia e insumos podem ser necessários. Ácidos, cal, antibióticos ou biocidas, antiespumantes, dispersantes, polímeros, floculantes e produtos sanitizantes fazem parte dessa conta. Cada um deles exigiu matérias-primas, água, energia, fabricação e transporte.

A cana leva para a indústria água, fibras, açúcares, minerais e energia. Depois do processamento, parte vira açúcar, etanol e eletricidade. Outra parte permanece no bagaço, na vinhaça, na torta de filtro, no CO? e em correntes que ainda carregam carbono, nutrientes e energia. Vejo aí uma grande oportunidade da agricultura regenerativa: aproveitar melhor tudo aquilo que já entrou no sistema.

A vinhaça pode retornar ao campo levando água, potássio e matéria orgânica. Antes disso, pode gerar biogás e biometano, substituindo fontes fósseis. Novas rotas biotecnológicas também podem aproveitar parte de sua carga orgânica para produzir óleo, que pode ser usado em substituição ao antiespumante ou seguir para rotas de biodiesel e HVO, além da produção de biomassa de levedura, que pode ser seca e aproveitada em outros mercados. Quanto mais utilizamos uma mesma corrente antes de devolvê-la ao ciclo, maior a eficiência no uso dos recursos.

A torta de filtro oferece outro exemplo. Utilizada como matriz de fertilizantes organominerais, pode favorecer uma disponibilização mais gradual dos nutrientes no solo, aproximando sua liberação da demanda da planta. O melhor aproveitamento pode reduzir a necessidade de fertilizantes minerais e as operações mecanizadas de aplicação. Isso significa menor consumo de insumos, menos tráfego de máquinas, menos diesel, menor compactação e menores emissões.

Regenerar é reaproveitar resíduos, recircular nutrientes, substituir fontes fósseis e, também, fazer com que cada decisão reduza a necessidade de novos recursos nas etapas seguintes.

Essa visão precisa ser acompanhada por indicadores que atravessem a fronteira entre campo e indústria. O próprio RenovaCalc aponta nessa direção ao calcular a intensidade de carbono dos biocombustíveis considerando as fases agrícola, industrial e de transporte. Fertilizantes, operações agrícolas, energia e emissões passam a compor um mesmo resultado ambiental.

Isso ajuda a tornar a agricultura regenerativa mais mensurável. Produtividade e qualidade da matéria-prima precisam conversar com consumo de água, energia e insumos, aproveitamento da biomassa, recirculação de nutrientes, substituição de combustíveis fósseis e intensidade de carbono.

A agricultura regenerativa começa no solo, preservando matéria orgânica, atividade biológica, água e capacidade produtiva. No setor bioenergético, podemos levar esse conceito adiante.

Quanto melhor campo e indústria compreenderem um ao outro, melhor utilizaremos solo, água, carbono, energia e nutrientes. A regeneração ganha força quando todo o sistema trabalha para preservar recursos, reduzir perdas e devolver ao campo melhores condições para continuar produzindo.