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José Antonio Bressiani

Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Nufarm Brasil

AsAA26

O novo perfil das cultivares regenerativas
A agricultura regenerativa já é praticada há muito tempo na cultura da cana-de-açúcar. A utilização da vinhaça como fertilizante nos anos 1980 e a colheita mecanizada crua iniciada nos anos 1990 foram os potencializadores para o início dos trabalhos científicos e da adoção da agricultura regenerativa nos canaviais brasileiros.  
 
Com o avanço do conhecimento, a palhada e a vinhaça foram colocados na base do sistema regenerativo da cana-de-açúcar, que buscou manter em todo ou em parte a palhada no solo sem cultivo, aplicando vinhaça enriquecida com biológicos e fertilizantes químicos de forma concentrada sobre a linha da cana.

E o resultado imediato foi observado justamente no sistema radicular, o primeiro termômetro da funcionalidade da cultura regenerativa na cana. No sistema regenerativo, a vida útil das raízes aumenta e a mortalidade é reduzida significativamente, acelerando a brotação da soqueira que ocorre de forma rápida e uniforme com impacto direto na produtividade e longevidade do canavial.
 
Embora a utilização da agricultura regenerativa em cana tenha, por si só, um grande potencial para aumentar a produtividade e a longevidade dos canaviais e, ao mesmo tempo, reduzir significativamente os custos de produção, o melhoramento genético pode potencializar ainda mais esses ganhos. Relaciono algumas frentes de pesquisa e seleção que podem contribuir para o melhoramento regenerativo em cana-de-açúcar:

• Seleção para arquitetura radicular e rizodeposição: o maior avanço vem da introgressão de saccharum spontaneum, a mesma espécie usada na cana-energia. Enquanto variedades convencionais alocam 12-15% da biomassa em raízes, clones de cana-energia 
alocam 28-32%. A seleção de clones com maior volume de raízes finas (diâmetro <0,5mm) pode duplicar a exsudação de carbono orgânico, e essa rizodeposição é o principal alimento para bactérias diazotróficas e fungos micorrízicos. A implicação regenerativa é que raízes profundas descompactam biologicamente, criam bioporos e elevam nutrientes lixiviados, reduzindo necessidade de subsolagem e adubação potássica.

• Seleção para eficiência no uso de nitrogênio e fixação biológica: cana-de-açúcar não forma nódulos, mas é uma das gramíneas com maior associação com bactérias endofíticas fixadoras de nitrogênio (N). Hoje já existem diversos produtores se utilizando da fixação biológica de nitrogênio (FBN) para reduzir a adubação nitrogenada em seus canaviais. Entretanto, os programas de melhoramento ainda pouco priorizam selecionar cultivares mais adaptadas a FBN. Hoje já existem ferramentas biotecnológicas de precisão para uso nos programas de melhoramento genético da cana, seja via edição genica, transgenia e/ou via seleção clonal com uso de biomarcadores, que levem a cultivares mais responsivas à FBN atmosférico de forma a eliminar, ou reduzir significativamente a necessidade da adubação nitrogenada no plantio comercial.

• Seleção para longevidade e redução de revolvimento do solo: cada reforma de canavial emite aproximadamente 8,5 t CO2eq/ha por diesel, revolvimento e perda de matéria orgânica. O caráter longevidade está ligado a genes de perfilhamento e de rizomas de S. spontaneum e à resistência ao complexo de patógenos (síndrome da murcha, carvão, raquitismo, escaldadura e ferrugens) e pragas (broca comum, broca gigante, cigarrinha, bicudos) que incidem, principalmente, sobre as soqueiras. Uma nova cultivar com uma participação maior de S. spontaneum no genoma certamente será mais longeva, resistente a patógenos e possivelmente mais tolerante ao ataque de pragas.

• Seleção para resistência a pragas: agricultura regenerativa preconiza redução de pesticidas. O melhoramento com Bt (Cana Bt RR) com resistência à broca (diatraea saccharalis) reduz aplicação de inseticidas em 90%, e esse exemplo do Bt com a broca pode ser facilmente extrapolado para as demais pragas da cana-de-açúcar, como as cigarrinhas e os bicudos.

Como comentário final, gostaria de destacar que o melhoramento genético necessita deixar de ser fornecedor de cultivar produtiva apenas e passar a ser fornecedor de uma cultivar regenerativa capaz de produzir com mais sustentabilidade. Uma variedade regenerativa talvez não seja a que produz 120 t/ha com 120 kg de N mineral por 5 anos, mas a que produz 100 t/ha com 30 kg de N mineral por 10 anos, deixando o solo mais fértil, com mais carbono armazenado, mais poroso e com aumento real no teor de matéria orgânica.