Luis Augusto Contim Silva, Guto

Gerente de Produção Agrícola da Usina Alta Mogiana

Op-AA-060

Tudo junto e misturado
Com certa frequência, ouvimos que o cultivo da cana-de-açúcar pouco mudou desde sua chegada ao Brasil nos idos de 1532. Só como referência, a soja, cultura também importante no nosso país, tem chegada registrada em 1882, ou seja, 350 anos depois. Intervalo bem razoável. 
 
Velho? Novo? Moderno? Por definição, moderno é atual, é novo, que tem pouco tempo, é recente e sofisticado. É oposição ao velho. Como, então, traçar um paralelo entre moderno e o cultivo da cana no Brasil? A princípio, pode parecer até um contrassenso... E quando o moderno se torna a retomada do antigo? É retrocesso? 
 
Nesse jogo de palavras, aparecem formas de conduzir, hoje, a cultura da cana-de-açúcar. Em alguns aspectos, o setor parece preferir voltar no tempo a mergulhar nas formas “mais atuais”. O plantio é o tema que mais descreve esse antagonismo. 
 
Plantio manual, de novo? Teremos pessoas suficientes e dispostas a fazer o plantio manual em maiores escalas? Mesmo com a baixa qualidade no ensino do País, cada vez menos, existirão rurícolas. Teremos, então, que convencer outros profissionais a colaborar num projeto mais amplo, no qual terão que plantar cana manual. É um bom desafio para os recursos humanos das empresas enquanto o mercado no País estiver desaquecido. Depois...
 
Entremos, então, no trato de gestão. É descabida, nos dias de hoje, que não tenhamos uma ótima relação entre as áreas agrícola e industrial. É proveitoso que os envolvidos tenham conhecimento das situações que cada área enfrenta hora a hora para que se possa antecipar e aproveitar melhor as paradas ou mesmo as reduções, seja de entrega, seja de moagem. O resultado global tem que ser o mais importante. E é!
 
Uma outra abordagem é a facilidade na geração de dados, mas ela precisa ser tratada com cuidado. Uma enxurrada delas chega a todo instante até nós, e é preciso saber priorizá-las. O que é dado e o que é informação? Nesse caso, gosto da objetividade que ouvi de um gestor de usina americana numa visita que fizemos lá. Num dado momento, alguém perguntou a ele o que ele fazia com tantos dados disponíveis. Ele, objetivamente, disse: se não for realmente relevante e importante, se não agregar valor, melhor não perder tempo em ficar olhando. Simples assim.
 
Isso não quer dizer que informações geradas das tecnologias móveis, como sensores, câmeras, celulares, tablets, drones e vants devam ser relegadas, pois elas nos dão agilidade e precisão na informação. Localização de onde, como, extensão e a intensidade do fato. Imagens, fotos e vídeos mostram, além das coisas boas, falhas, ervas daninhas e reboleiras de pragas e doenças.

Uma vez visualizada, fica muito mais fácil atacar o problema de forma mais cirúrgica. Quantas vezes não se perdeu tempo, e muito dinheiro, em intervir onde não era tão relevante a sua necessidade? Com essas tecnologias, as estratégias são facilitadas. Ah, só cuide para que somente as pessoas que realmente precisem da informação as recebam, senão é um tal de mandar tudo pra todo mundo, e isso mais atrapalha do que ajuda.

Centro de Inteligência Agrícola e Centro de Controle Operacional integrado têm a visão holística do que é mais importante a cada instante e dão as diretrizes para um setor que trabalha em várias frentes de serviços, e tudo acontece ao mesmo tempo. Como se diz nos modernos dias de hoje, tudo junto e misturado.
 
Importante também é envolver fornecedores de cana, de produtos e de serviços na busca da excelência em cada tarefa, em cada detalhe, pois é a soma do todo que faz a diferença na produção, na produtividade, no custo e, portanto, no resultado final. Cada um tem que fazer a sua parte, como verdadeiro dono do negócio.

No relacionamento com o externo, precisamos dar visibilidade maior a tudo que a agroindústria sucroenergética faz, e não é pouco. Não demonstramos para a sociedade em geral que a cultura é muito boa para o ambiente. Ela é importante na conservação do solo, gera energia limpa, via combustível ou energia elétrica da cogeração, além de fazer uso agronômico racional dos produtos derivados, como a vinhaça, a torta de filtro, o bagaço e por aí vai. Devemos usar as mídias disponíveis para mostrar melhor essas atuações.
 
No que tange à preparação do solo, nós utilizamos em larga escala a rotação de cultura, que, no nosso caso, é basicamente com soja, no modelo plantio direto. A particularidade é que nós mesmos plantamos, cuidamos e colhemos. A destruição da cultura anterior é feita de maneira química, e isso facilita e, ao mesmo tempo, dificulta etapas posteriores, dependendo do ponto de vista e das tarefas por vir. Julgamos moderno o conceito de exploração em faixa, seja para cultura, seja para o tráfego das frotas. Como dizem na linguagem de hoje, cada um “no seu quadrado” (nesse caso, cada um na sua faixa de exploração). 
 
Utilizamos o preparo de solo reduzido, canteirizado e fazemos todos os planejamentos via geoagricultura, incluindo conceitos de agricultura de precisão e piloto automático, projetos de linhas paralelas, talhonamentos e vias internas, de modo a melhorar a logística e diminuir manobras, circunstâncias que aumentam os rendimentos operacionais de plantio, de tratos culturais e colheita que virão e diminuem as chances de pisotear o canavial, pecado capital que tanto atrapalha a busca por melhores produtividades.  
 
No plantio propriamente dito, há anos utilizamos mudas de meristemas e mudas pré-brotadas, e hoje nossos canaviais têm boa parte deles com o que chamamos de seiva PB correndo em “suas veias”. No nosso entendimento, isso é garantia de sanidade e possibilidade de ampliação na longevidade dos nossos canaviais. Aliado a isso, o plantel varietal é diversificado e adequado à mecanização, seja no plantio ou na colheita.

O plantio via meiosi voltou com força. Método moderno ou antigo? Não importa. Seja meiosi ou mesmo cantose, o que importa é ter muda perto, de qualidade, seja no porte, seja na origem, na facilidade de expandir novas variedades e na redução do custo que esses conceitos propiciam a quem os utiliza.
 
Em relação aos tratos culturais, julgo que o setor está mais atualizado. Algumas ações estão mais alinhadas com as práticas utilizadas em outras culturas. Nutrição mais elaborada, formulações especiais e pontuais, aplicação de micronutrientes, aplicação de vinhaça localizada e corretivos em soqueira são práticas adotadas mais recentemente.

Prática comum em soja, o uso de fungicidas com o conceito de deixar as folhas limpas e em condições ótimas de produzir estão sendo ampliadas. Com o ambiente da cana crua, além da seleção de certas ervas daninhas, as condições para as pragas foram favorecidas. Não releguemos a importância no monitoramento e controle de pragas, senão a produção vai apresentar sua conta. E salgada.
 
Por fim, e não menos importante, comentemos sobre a colheita, etapa muito importante e que, se não bem executada, pode deixar marcas, literalmente. É fundamental que respeitemos a cultura e que também o solo, o clima e a época façam parte dessa complexa equação chamada colheitabilidade. Nos últimos tempos, vimos o setor buscar ganhos na operação e na logística “passando por cima” do que é o mais importante, a cana. Temos, sim, que buscar mais eficácias pontuais e globais, mas com racionalidade técnica e operacional. 
 
Faça bons planejamentos, execute-os, utilize das tecnologias embarcadas do tipo “guiai por nós” e colha bons resultados. Ah, e lembre-se de não pisar em quem, há quase 500 anos, gera riquezas.