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André Luiz Baptista Lins Rocha

Presidente do SIFAEG e da FIEG - Federação das Indústrias do Estado de Goiás

OpAA89

Complementaridade ou rivalidade
Há mais de dois mil anos, Aristóteles escreveu que "o todo é maior do que a soma de suas partes". A frase atravessou séculos porque continua descrevendo uma verdade simples: quando diferentes capacidades trabalham em conjunto, nasce algo maior do que cada uma poderia produzir isoladamente. Não é apenas uma soma. É uma combinação que cria um valor.
 
Sempre me chama a atenção quando alguém pergunta se cana-de-açúcar e milho são concorrentes. A própria pergunta revela um equívoco. Ela parte da premissa de que uma cultura precisa ocupar o espaço da outra para que o setor avance. Mas o Brasil não se tornou uma potência agrícola escolhendo entre alternativas. Tornou-se líder porque aprendeu a integrar competências, diversificar sua produção e transformar desafios em oportunidades. É exatamente isso que estamos vivendo na bioenergia.
 
Durante décadas, a cana-de-açúcar construiu uma história exitosa na agroindústria brasileira. Com ela, o País se tornou referência mundial na produção de açúcar e etanol, desenvolveu tecnologia, reduziu emissões de carbono, gerou empregos e levou desenvolvimento ao interior do Brasil. Essa história continua sendo escrita. A cana permanece protagonista e continuará ocupando um papel estratégico na matriz energética nacional.

Essa flexibilidade torna o setor mais resiliente, amplia a capacidade de geração de receitas e reforça a competitividade da agroindústria brasileira diante das oscilações dos mercados nacional e internacional.

Ao mesmo tempo, o avanço do etanol de milho inaugurou uma nova etapa para o setor. E é justamente aí que muitos cometem o erro de enxergar competição onde existe complementaridade.

Não estamos diante de uma disputa. Estamos diante da evolução de um modelo de produção. Nas usinas flex, essa transformação é visível. Durante a safra, a cana abastece a indústria. Na entressafra, quando parte da capacidade produtiva permaneceria ociosa, o milho pode manter as operações em funcionamento (ele pode ser processado também durante todo o ano e, ao contrário da cana, pode ser armazenado). O resultado é mais eficiência, melhor aproveitamento dos investimentos, maior estabilidade para os trabalhadores e uma produção de biocombustíveis distribuída ao longo de praticamente todo o ano.

Essa integração vai além da produção de etanol. A cana fornece o bagaço, uma biomassa renovável que gera a energia necessária para movimentar as próprias usinas. Em muitas plantas industriais, é justamente essa energia que permite manter em funcionamento tanto a produção de etanol de cana quanto a de etanol de grãos, demonstrando que uma cadeia fortalece a outra em vez de competir com ela.

Quem ganha com isso? Todos.

Ganha o produtor de cana, que vê sua cadeia fortalecida. Ganha o produtor de milho, que passa a contar com um mercado consumidor sólido e crescente. Ganham as indústrias, que elevam sua competitividade e eficiência pois diminuem a ociosidade. Ganham os municípios, com mais atividade econômica, empregos e arrecadação. Ganha o consumidor, que passa a contar com uma oferta maior de combustíveis e de energia renováveis. E ganha o Brasil, que amplia sua segurança energética e reforça sua liderança na transição para uma economia de baixo carbono.

Por isso, considero um erro insistir na narrativa da rivalidade. Ela ignora uma característica histórica do agronegócio brasileiro: nossa capacidade de produzir diferentes culturas com eficiência, inovação e sustentabilidade, seja por termos a capacidade de fazer até três safras por ano em determinadas regiões, seja pelas integrações de agricultura e pecuária, e produção de alimento e energia. O crescimento do etanol de milho não aconteceu porque a cana perdeu espaço.

Aconteceu porque o Brasil ampliou sua produção agrícola, incorporou tecnologia, aumentou a produtividade no campo, expandiu sua produção em áreas até então degradadas e passou a enxergar novas oportunidades de agregar valor às matérias-primas que produz.

Também é importante lembrar que o etanol de milho não produz apenas combustível. Sua cadeia gera coprodutos de alto valor agregado, como DDG, DDGS e óleo de milho, fortalecendo a pecuária e ampliando a integração entre diferentes segmentos do agronegócio. Mas essa lógica da diversificação não se limita ao milho. 

Outras matérias-primas, como o sorgo, também podem abastecer as usinas, ampliando a flexibilidade industrial e permitindo que diferentes regiões aproveitem suas vocações agrícolas.

A integração também potencializa novas soluções para a economia circular. A combinação da vinhaça com a torta de filtro amplia as possibilidades de produção de biogás e biometano, transformando resíduos em energia renovável, reduzindo desperdícios e aumentando a eficiência econômica e ambiental das usinas. É um exemplo claro de como diferentes cadeias produtivas podem gerar valor adicional quando trabalham de forma integrada.

Esse movimento nos leva a outra reflexão. É hora de atualizarmos a própria forma de definir esse setor. Durante muitos anos falamos em setor sucroenergético. Hoje, essa expressão já não traduz sua verdadeira dimensão. As usinas produzem açúcar, etanol de cana, etanol de milho, bioeletricidade, biogás, biometano, ingredientes para nutrição animal, óleo de milho e créditos de carbono. 
 
Amanhã, poderão ampliar ainda mais esse portfólio com produtos da alcoolquímica e combustíveis renováveis destinados a segmentos estratégicos, como o transporte marítimo, ampliando a contribuição brasileira para a descarbonização da economia mundial.

Estamos diante de um setor bioenergético, diversificado, inovador e preparado para responder aos desafios da segurança energética e da transição para uma economia de baixo carbono.

Goiás simboliza essa transformação como poucos lugares no Brasil. Reunimos uma produção robusta de cana e de milho, um parque industrial moderno, capacidade de inovação e um ambiente favorável aos investimentos. Não por acaso, o Estado consolidou-se como uma das maiores referências nacionais na produção de biocombustíveis e mostra, na prática, que integração produz resultados muito superiores à competição.

O desafio daqui para frente não é escolher entre cana ou milho. É criar as condições para que ambas continuem crescendo. Isso exige segurança jurídica, infraestrutura, investimentos em pesquisa, políticas públicas consistentes e uma visão estratégica capaz de compreender que a bioenergia será cada vez mais importante para o desenvolvimento do País.

O mundo busca fontes renováveis, combustíveis de baixa emissão e soluções capazes de conciliar crescimento econômico com responsabilidade ambiental. Nós já temos conhecimento, tecnologia, capacidade produtiva e experiência para liderar esse processo. Precisamos, acima de tudo, acreditar em nosso próprio potencial.

Enquanto alguns ainda insistem em perguntar quem vencerá essa disputa, a realidade já respondeu. O campo respondeu. As usinas responderam. Os produtores responderam. Os investimentos realizados nos últimos anos responderam.

Não existem vencedores e vencidos. Existem duas grandes cadeias produtivas que, trabalhando lado a lado, tornam o Brasil mais competitivo, mais sustentável e mais preparado para o futuro. O Brasil não precisa decidir entre cana e milho. Precisa decidir se quer liderar a economia de baixo carbono. Se a resposta for sim, a integração entre essas cadeias não é apenas uma vantagem competitiva. É uma estratégia poderosa para transformar a riqueza agrícola brasileira em liderança energética, inovação industrial e desenvolvimento sustentável nas próximas décadas.