Presidente da Fesoca - Federación Nacional de Asociaciones de Cañicultores de Venezuela
Após uma notável recuperação produtiva, o setor açucareiro venezuelano projeta o autoabastecimento a médio prazo e analisa as variáveis técnicas, genéticas e econômicas para diversificar sua matriz para a produção de bioetanol e a cogeração elétrica excedente.
Para comprender o potencial bioenergético da Venezuela, é essencial revisar a evolução recente do setor açucareiro nacional. Durante o período 2005-2006, a indústria local alcançou um marco ao cobrir 80% do consumo interno, registrando uma produção de 744.247 toneladas de açúcar. Posteriormente, uma profunda recessão econômica afetou severamente a atividade, provocando uma contração na área cultivada e uma redução nos níveis de produtividade no campo.
No entanto, os últimos quatro anos marcaram um ponto de inflexão. Graças a um processo sustentado de recuperação, projeta-se que, para este ano de 2026, a produção nacional consiga abastecer 50% da demanda interna. A Venezuela possui condições edafoclimáticas excepcionais para alcançar a soberania agroalimentar neste setor; um objetivo que, estimamos, poderia se consolidar nos próximos 4 anos.
Atualmente, 100% da matéria-prima processada nas usinas é destinada exclusivamente para garantir o suprimento de açúcar para a população. Uma vez consolidado o autoabastecimento, o próximo passo natural e histórico será a incursão formal na produção de biocombustíveis.
Embora a frota veicular venezuelana esteja tecnicamente capacitada para absorver imediatamente misturas de gasolina entre 5% e 10% de etanol, a transição para energias limpas requer um planejamento estratégico. O País deve se preparar para modernizar a infraestrutura industrial existente sob um esquema dual (açúcar e álcool). Essa transformação exigirá investimentos significativos, tanto de financiamento nacional quanto internacional, para diversificar a produção sob um modelo plenamente bioenergético.
Historicamente, a condição da Venezuela como país petrolífero com vastas reservas gerou um cenário de combustíveis altamente subsidiados, o que representava uma concorrência assimétrica e desfavorável para as alternativas renováveis.
No entanto, a progressiva redução desses subsídios em tempos recentes está devolvendo a atratividade e a competitividade econômica ao mercado de biocombustíveis. Isso demonstra que a produção de bioetanol em escala comercial na Venezuela é não apenas viável, mas necessária a médio e longo prazos.
Este processo de transição pode começar de forma escalonada utilizando melaço nas usinas de maior capacidade instalada, como o Central Azucarero Portuguesa,
para destilar álcool industrial ou combustível em pequena escala. Dessa forma, resguarda-se a produção de açúcar enquanto o setor agrícola se expande, diversifica e prepara o campo com áreas dedicadas exclusivamente ao plantio de cana para fins energéticos.
Sob a visão da economia circular, o bagaço resultante da moagem representa outro ativo de alto valor. Na atualidade, as usinas venezuelanas já cogeram energia a partir do bagaço para cobrir o autoconsumo de suas instalações de maneira eficiente. Embora a venda de excedentes para a rede pública esteja regulamentada, a possibilidade de injetar energia no Sistema Elétrico Nacional constitui uma opção latente e estratégica que poderia se materializar mediante investimentos específicos em turbinas e caldeiras.
O suporte científico deste avanço repousa na Fundación Azucarera para el Desarrollo, la Productividad y la Investigación – Fundacaña, um centro de pesquisa que acumula 27 anos de trajetória no País. Através de seu Programa de Melhoramento Genético (PMG), a Fundacaña desenvolve as variedades de cana convencionais "FV" (Fundacaña-Venezuela). Atualmente, o principal critério de seleção destas variedades é o Açúcar Total Recuperável (ATR), com o objetivo de maximizar a rentabilidade financeira por hectare para o produtor.
Paralelamente, estão sendo reativadas as trocas de germoplasma e variedades com instituições aliadas da América Latina, impulsionando a transferência tecnológica regional. No momento em que se formalizar a produção de etanol e a comercialização de energia para a rede elétrica, o programa genético adaptará suas linhas de pesquisa para incluir novos descritores de seleção, tais como o incremento no conteúdo de fibra.
A produção de bioetanol e a diversificação energética na Venezuela são metas completamente factíveis e urgentes a médio prazo. Com o apoio do investimento, da ciência e do manejo sustentável, o setor açucareiro venezuelano está destinado a ser um ator chave na preservação ambiental e na transição energética da região.
PRODUÇÃO DE AÇÚCAR NA VENEZUELA DE 1998 A 2025 (EM TONELADAS)
