O setor de aviação civil global enfrenta um dos seus maiores desafios históricos: alcançar a neutralidade de carbono até 2050. No centro dessa transição energética está o Combustível Sustentável de Aviação (SAF, sigla em inglês para Sustainable Aviation Fuel), uma alternativa capaz de revolucionar o setor ao substituir o querosene fóssil.
Em um cenário urgente de descarbonização, o Brasil, que desponta como um dos principais potenciais exportadores desse biocombustível no mundo, tem as credenciais para ser o grande protagonista. O SAF é um biocombustível de alta tecnologia desenvolvido a partir de fontes renováveis, como resíduos agrícolas, óleos vegetais (óleo de soja, por exemplo), biomassa de cana-de-açúcar, milho e gases capturados, além das matérias-primas em desenvolvimento, tais como macaúba e canola.
Quimicamente, ele é idêntico ao querosene de aviação convencional. Essa semelhança permite que ele seja misturado diretamente ao combustível tradicional e utilizado nas aeronaves e infraestruturas aeroportuárias atuais, sem a necessidade de grandes modificações estruturais.
A transição para o SAF é fundamental porque a aviação civil responde por menos de 3% das emissões globais de GEE – Gases de Efeito Estufa – e é um dos segmentos mais difíceis de descarbonizar. Enquanto carros e trens avançam rapidamente para a eletrificação, a aviação ainda levará vários anos para que novas tecnologias — como, por exemplo, propulsão a hidrogênio — sejam desenvolvidas e empregadas.
Como o SAF reduz as emissões de CO? em até 80% ao longo de todo o seu ciclo de vida, ele se tornou a principal e mais viável ferramenta para o setor aéreo cumprir as metas globais de sustentabilidade. A vantagem competitiva do Brasil está na nossa maturidade industrial, robusta agroindústria e inteligência no uso do solo.
Esse diferencial é sustentado pelo nosso domínio em tecnologias avançadas de irrigação e agricultura tropical de precisão. Além disso, o País já conta com uma infraestrutura de biocombustíveis altamente desenvolvida. Sendo um dos maiores produtores de etanol do planeta — e líder indiscutível na eficiência da matriz de cana-de-açúcar —, o Brasil apresenta uma capacidade de expansão ímpar. O crescimento contínuo e recorde da produção de insumos complementares, como o milho de segunda safra, fortalece ainda mais essa cadeia, oferecendo matérias-primas abundantes e já consolidadas para suprir a demanda em escala pelo SAF.
Estimativas da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) apontam que o País tem capacidade técnica para produzir cerca de 60 milhões de toneladas de SAF até 2050, devendo concentrar aproximadamente 75% da capacidade produtiva de biocombustíveis de aviação de toda a América do Sul nos próximos anos.
A infraestrutura e os marcos regulatórios nacionais já começaram a se mover para transformar esse potencial em realidade. A Lei 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, é um marco moderno e de impacto global que integra a transição energética nos setores aéreo, marítimo e terrestre. Com metas progressivas para o SAF, o texto traz a segurança jurídica necessária para atrair investimentos internacionais.
Para que esse potencial se converta em liderança nas exportações, a cadeia produtiva nacional já deve nascer alinhada aos rigorosos critérios internacionais de sustentabilidade e rastreabilidade. O cumprimento de padrões globais, como o CORSIA (Esquema de Compensação e Redução de Carbono para a Aviação Internacional) da OACI, não é apenas uma formalidade ambiental, mas um verdadeiro passaporte comercial. É a garantia destas certificações que assegurará o acesso do nosso biocombustível a mercados altamente regulados e exigentes, como a União Europeia, chancelando a qualidade e a integridade do produto brasileiro perante o capital estrangeiro.
Paralelamente, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) já autorizou sete rotas tecnológicas de produção, atraindo aportes robustos de gigantes da energia e novos players. Somado a esse ecossistema em evolução, estudos conjuntos da Airbus e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) reconhecem formalmente o Brasil como a nação com a maior capacidade global de ampliar sua eficiência produtiva por meio da recuperação de territórios já explorados.
O País possui cerca de 177 milhões de hectares de áreas degradadas. Desse total, um mapeamento detalhado da Embrapa comprova que aproximadamente 28 milhões de hectares apresentam alto potencial para a produtividade agrícola.
Na prática, essa extensão viabiliza o cultivo de fontes de biomassa altamente eficientes, como a palmeira de macaúba, funcionando como a plataforma física perfeita para abastecer nossa infraestrutura sem gerar desmatamento e sem competir com a produção de alimentos.
No entanto, o caminho para consolidar essa liderança global e abastecer o mercado interno envolve superar complexos gargalos econômicos. Atualmente, o maior obstáculo imediato do SAF é o preço: ele custa entre duas e quatro vezes mais do que o querosene de aviação tradicional (QAV). O sucesso desta transição dependerá da capacidade do poder público e da iniciativa privada em coordenar investimentos estruturais, baratear os custos logísticos e garantir que as refinarias projetadas saiam do papel.
A consolidação do Brasil como a futura potência do SAF depende da diversificação e da inovação em suas fontes de matéria-prima. Embora o País já possua cadeias de biocombustíveis consolidadas, a introdução de novas culturas perenes, como o uso de terras degradadas, surge como uma alternativa promissora e de alta densidade energética para o bioquerosene.
A viabilidade técnica e comercial do ecossistema brasileiro ultrapassa a fase de testes e se reflete em decisões finais de investimento (FID) bilionárias. O mercado nacional registra agora movimentos executivos decisivos, como a recente aprovação do aporte de US$ 1,5 bilhão pela Acelen para a construção de sua biorrefinaria.
Paralelamente, a Petrobras não apenas já avançou na produção de SAF coprocessado em diversas de suas unidades, como também anunciou investimentos de US$ 1,2 bilhão para converter a refinaria de Cubatão em uma unidade de biorrefino e, assim, produzir o SAF. Somam-se a esse cenário projetos estruturais de peso, como a transição do parque industrial da Refinaria Riograndense, comprovando que o Brasil possui os atores corporativos e o capital engatilhados para transformar seu potencial na produção de SAF em escala comercial.
A construção dessa nova cadeia de valor exige, fundamentalmente, uma união prática de soluções e sinergia entre empresas, políticas públicas e instituições de pesquisa científica. Um exemplo claro dessa colaboração foi a parceria firmada em 2025 entre a Airbus e a Roundtable on Sustainable Biomaterials (RSB). Juntos, promovemos workshops em Brasília e São Paulo para aprofundar o desenvolvimento do sistema Book & Claim no País — uma ferramenta vital de contabilidade ambiental que elimina gargalos logísticos ao permitir a negociação de créditos de SAF onde a infraestrutura física ainda está em desenvolvimento.
Os impactos projetados para essa indústria são profundos e multifacetados, englobando a criação de empregos de alta qualificação técnica, ganhos de produtividade no campo, atração de investimento estrangeiro direto e a diversificação da pauta de exportações brasileiras.
Diante de um planeta que demanda soluções imediatas e escaláveis, o Brasil reúne as condições ideais para liderar essa transição. O País possui o território, detém a tecnologia e domina o conhecimento prático necessário para responder ao clamor global pelo SAF, consolidando-se como o principal líder ambiental do século.